Às vésperas do Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, o curta-metragem documental “Árvore das Palavras”, dirigido por Sil Azevedo, revisita um capítulo pouco conhecido da resistência negra durante a ditadura militar brasileira. A produção acompanha a trajetória de três homens negros que participaram da criação de um jornal clandestino, utilizado para denunciar o racismo e defender direitos em um período de censura e perseguição política. Selecionado pelo edital Sesc Pulsar, o filme recupera experiências que ajudam a compreender a participação do movimento negro na luta pela democracia e pela liberdade de expressão. A proposta também evidencia como publicações independentes serviram de espaço para reivindicações sociais que encontravam dificuldades para circular nos meios tradicionais de comunicação. Ao recuperar essas iniciativas, o documentário amplia o debate sobre a preservação da memória política brasileira e o reconhecimento de personagens historicamente pouco conhecidos do grande público.
A narrativa reúne entrevistas, depoimentos, documentos históricos e passagens ficcionais para reconstruir a atuação dos militantes e suas relações com antigos companheiros. No centro dessa investigação estão Astrogildo Esteves Filho, Rafael Pinto e Adão Oliveira, cujas lembranças conduzem o público por acontecimentos e experiências pessoais ligados à resistência antirracista. O projeto também utiliza materiais preservados por familiares, estabelecendo conexões entre registros particulares e episódios da história coletiva. Mais de quatro décadas após o processo de redemocratização, “Árvore das Palavras” aproxima essas memórias de discussões atuais sobre igualdade racial, participação política e direitos civis. O curta ainda integra um projeto audiovisual mais amplo, que prevê o desenvolvimento de um longa-metragem homônimo pelas produtoras Destemida Filmes, de Juliana Soares, e C41 WebStudio, de Sil Azevedo. A iniciativa pretende aprofundar as histórias apresentadas nesta primeira produção, preservando testemunhos de uma geração que enfrentou diferentes formas de repressão.
Memória e resistência negra
Jornalista, intelectual e ativista, Astrogildo Esteves Filho ocupa posição central no documentário. Suas recordações ajudam a reconstituir os bastidores da publicação clandestina e as dificuldades enfrentadas por quem participava da mobilização negra durante o regime militar. Parte importante desse trabalho foi possível graças ao acervo histórico mantido por sua família, que reúne documentos e registros relacionados à militância daquele período. O filme também aborda aspectos de sua vida pessoal, incluindo a relação com o pai, funcionário público, e as circunstâncias familiares que contribuíram para que mantivesse sua atuação política em segredo.
A presença de Rafael Pinto e Adão Oliveira amplia essa reconstrução ao apresentar outras perspectivas sobre a experiência dos militantes. Ao acompanhar a busca por antigos companheiros, a produção explora tanto os acontecimentos políticos quanto os vínculos construídos durante a resistência. Essa combinação permite observar como a atuação na Imprensa Negra ultrapassava a circulação de informações, funcionando também como instrumento de organização e articulação social. As lembranças individuais revelam diferentes dimensões de uma mobilização que procurava enfrentar a discriminação racial mesmo diante das restrições impostas pelo Estado.
Entre as participantes está a jornalista Vilma Romero, que destaca a necessidade de preservar essas experiências e reconhecer a permanência das reivindicações antirracistas. “É cada vez mais importante lembrar que essa luta continua, continua, continua. E parece que não tem muito fim, não”. Seu depoimento reforça uma das discussões presentes no documentário: a relação entre as conquistas democráticas e os desafios ainda existentes no combate ao racismo. A abordagem evita restringir os acontecimentos ao passado e procura mostrar como determinadas questões continuam presentes na sociedade brasileira.
Responsável pela direção, Sil Azevedo desenvolve trabalhos audiovisuais relacionados à identidade, memória, território e representação de grupos historicamente marginalizados. Paralelamente, a cineasta produz “Percursos”, seu primeiro longa-metragem, em parceria com a RioFilme, abordando relações familiares e pertencimento no Morro da Providência, no Rio de Janeiro. Em “Árvore das Palavras”, o interesse pela memória coletiva ganha destaque ao recuperar a contribuição da imprensa clandestina para a resistência negra. A proximidade do Dia da Consciência Negra oferece um contexto para essa discussão, enquanto o futuro longa-metragem poderá ampliar o registro dessas trajetórias e sua contribuição para a história política do país.














