“From The Dark”, anunciado pela BMG com lançamento marcado para 23 de outubro de 2026, acrescenta um novo capítulo à carreira de Tony Iommi. Apresentado ao público com o single “World Alone”, o trabalho retoma a produção solo de um músico cuja trajetória permanece profundamente associada ao Black Sabbath. Sua importância, entretanto, ultrapassa a condição de fundador da banda: a maneira como organizou riffs, timbres e estruturas musicais participou da formação do próprio heavy metal.
O anúncio do disco ocorreu em Birmingham, cidade inglesa onde Iommi nasceu e começou a tocar. A escolha estabelece uma ligação com as origens de uma carreira que atravessou mudanças de formação, problemas de saúde e um acidente de trabalho que ameaçou interromper sua atividade musical ainda na adolescência.
A perda das pontas de dois dedos da mão direita exigiu adaptações técnicas e soluções improvisadas. Anos depois, sua guitarra se tornaria parte de uma construção coletiva que reuniu Ozzy Osbourne, Geezer Butler e Bill Ward. Revisitar essa história permite compreender tanto as circunstâncias em que Iommi desenvolveu sua técnica quanto o papel do Sabbath na consolidação de uma nova linguagem musical.
Birmingham e o acidente
Anthony Frank Iommi nasceu em 19 de fevereiro de 1948, em Birmingham, na Inglaterra. Cresceu em um ambiente operário, numa região em que a indústria metalúrgica fazia parte da vida cotidiana. Sua aproximação com a guitarra ocorreu durante a expansão do rock britânico, quando músicos jovens encontravam no blues e nas primeiras bandas de rock referências para formar seus próprios grupos.
Aos 17 anos, em 1965, Iommi sofreu o acidente que alteraria sua maneira de tocar. Enquanto trabalhava numa fábrica de chapas metálicas, teve as pontas dos dedos médio e anelar da mão direita atingidas por uma máquina. Canhoto, utilizava justamente essa mão para pressionar as cordas no braço da guitarra. A lesão comprometeu movimentos fundamentais para executar acordes e melodias.
A possibilidade de abandonar o instrumento foi considerada. Continuar significava enfrentar o desconforto provocado pelo contato com as cordas e desenvolver recursos para compensar as regiões lesionadas. A perda de sensibilidade também impunha dificuldades: mesmo quando conseguia pressionar uma nota, a percepção do movimento já não era a mesma.
Nesse período, a história de Django Reinhardt ofereceu uma referência. O músico de jazz havia desenvolvido uma técnica própria depois de sofrer queimaduras que comprometeram movimentos de sua mão esquerda. Ao conhecer suas gravações e as circunstâncias em que tocava, Iommi encontrou um estímulo para retomar a guitarra, embora enfrentasse uma lesão diferente.
O guitarrista começou a produzir proteções para os dedos machucados. Entre as soluções descritas em seus relatos estão peças moldadas com plástico derretido e revestidas para melhorar o contato com as cordas. Essas próteses improvisadas permitiam pressionar o instrumento, mas exigiam um novo controle de força, posição e precisão.
A adaptação prosseguiu durante ensaios, apresentações e gravações. Sem o contato direto das pontas dos dedos com as cordas, Iommi precisava ajustar continuamente a relação entre conforto e execução. O problema não se encerrava na fabricação das proteções: envolvia a maneira de segurar o instrumento, articular as notas e distribuir os movimentos.
A busca por cordas mais leves também integrou esse processo. Com menor tensão, elas ofereciam menos resistência aos dedos. Essas mudanças estabeleceram condições para que continuasse tocando e desenvolvesse sua técnica. As afinações rebaixadas, frequentemente associadas ao acidente, ganhariam maior destaque posteriormente, já nos discos do Black Sabbath.
É importante distinguir essas etapas. O ferimento aconteceu antes da formação da banda e determinou adaptações duradouras. A sonoridade que tornaria Iommi conhecido, porém, se desenvolveu gradualmente, em contato com outros músicos e com as possibilidades de composição e gravação encontradas nos anos seguintes.

A formação do Black Sabbath
Na segunda metade dos anos 1960, Iommi integrou o Mythology, grupo em que também tocava o baterista Bill Ward. A parceria antecedeu a formação do conjunto que reuniria os dois a Ozzy Osbourne e Geezer Butler. Vindos de experiências locais, os quatro músicos começaram a trabalhar juntos em 1968, inicialmente próximos do blues que circulava entre as bandas britânicas.
Antes de se estabelecer como Black Sabbath, o grupo passou por outros nomes, incluindo Earth. A formação ainda procurava uma identidade quando Iommi teve uma breve passagem pelo Jethro Tull, no fim de 1968. A experiência foi curta, e o guitarrista retornou aos companheiros com quem desenvolveria sua carreira nas décadas seguintes.
Em 1969, o nome Black Sabbath foi adotado. A referência ao cinema de horror correspondia à atmosfera que começava a aparecer nas composições. O interesse por medo, ameaça e temas sobrenaturais oferecia uma direção particular ao quarteto, que se afastava progressivamente da condição de banda de blues para construir um repertório próprio.
Essa transformação envolvia a organização das músicas. Os riffs de Iommi assumiam uma função estrutural: estabeleciam motivos que podiam ser repetidos, interrompidos e retomados, orientando o desenvolvimento das faixas. Em muitas composições, o desenho da guitarra definia a identidade da música desde os primeiros compassos e fornecia a base para as demais partes.
O baixo de Butler reforçava essa construção, mas também criava movimentos independentes. Ward introduzia variações de andamento, acentuações e um balanço relacionado à sua formação musical, que incluía referências do jazz. Osbourne desenvolvia linhas vocais que se integravam aos riffs e conferiam uma identidade reconhecível às canções.
A relação entre os instrumentos permitia que o peso surgisse também nos espaços do arranjo. Pausas e notas sustentadas criavam expectativa, enquanto a bateria alterava a sensação rítmica sem depender apenas da velocidade. O quarteto desenvolvia, assim, uma sonoridade própria a partir de elementos herdados do blues e do rock.
As letras tiveram participação importante nesse processo. Butler se tornaria responsável por grande parte delas, explorando guerra, religião, conflitos sociais e experiências de sofrimento. A presença de imagens ocultistas na apresentação da banda convivia com assuntos concretos, ligados às inquietações do período.
Essa combinação distinguiu o Sabbath no cenário britânico. A atmosfera sombria estava presente nas composições, nos timbres e na interpretação, estabelecendo uma relação entre forma musical e conteúdo. A guitarra de Iommi ocupava uma posição central nesse conjunto, cuja identidade dependia da interação dos quatro integrantes.

As bases do heavy metal
O primeiro álbum, “Black Sabbath”, foi lançado no Reino Unido em 13 de fevereiro de 1970. A faixa de abertura apresentava chuva, trovões e um sino antes da entrada da guitarra. O arranjo estabelecia uma atmosfera de apreensão que se intensificava com o riff e a interpretação de Osbourne. A tensão fazia parte da própria estrutura musical.
O trítono empregado no riff tornou-se um dos elementos mais comentados da composição. Seu efeito dissonante contribuía para o caráter ameaçador da gravação. O intervalo já existia havia séculos, mas o Sabbath o incorporou a uma combinação de timbre, ritmo e narrativa que alcançaria ampla influência no rock pesado.
“Paranoid”, lançado ainda em 1970, consolidou a projeção do quarteto. A faixa que dá nome ao disco apresentava uma estrutura concisa, enquanto “War Pigs” e “Iron Man” exploravam desenvolvimentos mais extensos. O álbum demonstrava que o peso podia assumir formatos distintos, com músicas diretas ou organizadas por diferentes seções e mudanças de intensidade.
Em “War Pigs”, a crítica à guerra e aos responsáveis por sua condução ampliava o alcance temático do repertório. Em outras faixas, isolamento, deterioração psicológica e destruição apareciam como assuntos recorrentes. A atmosfera do Sabbath encontrava correspondência em letras que expressavam insegurança e conflito, num período atravessado pela Guerra do Vietnã e por tensões políticas.
A formação do heavy metal não pode ser atribuída a um único acontecimento. Led Zeppelin e Deep Purple também tiveram participação fundamental na expansão do rock pesado. O Black Sabbath se distinguiu pela centralidade dos riffs, pelo uso expressivo da lentidão e pela maneira como articulava densidade sonora e inquietação. Essa combinação tornou seus discos referências centrais para a definição do gênero.
As afinações rebaixadas ganharam destaque em “Master of Reality”, lançado em 1971. Nos dois primeiros álbuns, a banda havia trabalhado predominantemente com afinação padrão. No terceiro, músicas em dó sustenido ampliaram a profundidade da guitarra. Para Iommi, a redução da tensão das cordas também favorecia a execução, aproximando uma necessidade física de novas possibilidades de composição.
O heavy metal já começava a tomar forma nas gravações anteriores. Portanto, a afinação mais baixa deve ser compreendida como um desenvolvimento dessa linguagem, e não como sua origem isolada. O peso dependia também da articulação dos riffs, dos timbres escolhidos e da relação entre os instrumentos.
A distinção entre peso e velocidade seria uma das contribuições mais duradouras da banda. O impacto de uma passagem podia resultar da duração de uma nota, da entrada conjunta dos músicos ou da interrupção de um riff. Esse tratamento do tempo ofereceu um vocabulário para explorar intensidade sem recorrer continuamente a andamentos acelerados.
A influência se estenderia por diferentes vertentes. O doom metal encontraria no Sabbath referências para trabalhar lentidão, tensão e atmosferas opressivas. O stoner incorporaria aspectos dos timbres e da repetição dos riffs. Outras correntes desenvolveriam propostas distintas, mas conservariam a guitarra como eixo de organização musical.
A produção dos anos seguintes também demonstra a amplitude do grupo. “Vol. 4”, de 1972, “Sabbath Bloody Sabbath”, de 1973, e “Sabotage”, de 1975, apresentaram contrastes acústicos, teclados e arranjos mais elaborados. O repertório preservava o peso enquanto ampliava os recursos de composição, afastando a ideia de que a contribuição do quarteto se restringia a uma única fórmula.

Carreira solo e o novo álbum
Depois de “Technical Ecstasy”, de 1976, e “Never Say Die!”, de 1978, a formação original chegou ao fim de sua primeira fase. Ozzy Osbourne deixou a banda em 1979, e Ronnie James Dio assumiu os vocais. A substituição alterou a dinâmica de composição e abriu um período em que o Sabbath desenvolveu outra identidade, mantendo a guitarra de Iommi como referência.
“Heaven and Hell”, lançado em 1980, apresentou essa formação ao público. Com maior extensão vocal e uma interpretação diferente da de Osbourne, Dio participou da renovação do repertório. “Mob Rules”, de 1981, deu continuidade à parceria, já com Vinny Appice na bateria.
Em 1983, “Born Again” reuniu Iommi, Butler, Ward e Ian Gillan, vocalista associado ao Deep Purple. A formação teve duração limitada. Nos anos seguintes, o Sabbath atravessou mudanças frequentes, e Iommi permaneceu como seu integrante constante nos álbuns de estúdio. Essa continuidade fez com que diferentes fases da banda fossem identificadas pela permanência de sua linguagem de guitarra.
“Seventh Star”, de 1986, ocupa uma posição particular nessa discografia. Concebido como um trabalho solo de Iommi, com Glenn Hughes nos vocais, o álbum foi lançado sob a identificação Black Sabbath featuring Tony Iommi. O episódio evidencia a sobreposição entre a carreira individual do guitarrista e o nome do grupo, cuja trajetória nem sempre correspondeu a uma formação estável.
A chegada de Tony Martin aos vocais marcou outra sequência de trabalhos, iniciada com “The Eternal Idol”, em 1987. Discos como “Headless Cross”, de 1989, e “Tyr”, de 1990, desenvolveram uma abordagem melódica própria. A reunião com Dio resultaria em “Dehumanizer”, de 1992, antes de novas mudanças.
As trocas de vocalista permitem observar a flexibilidade da escrita de Iommi. As linhas de Osbourne, Dio, Hughes e Martin exigiam soluções diferentes de fraseado e arranjo. A permanência dos riffs como elemento central fornecia uma continuidade musical entre trabalhos produzidos por formações e em momentos distintos.
Fora dessa estrutura, o guitarrista lançou “Iommi”, em 2000, com diversos vocalistas convidados. Em “Fused”, de 2005, voltou a trabalhar com Glenn Hughes. Os projetos permitiram outras combinações de vozes e arranjos, mantendo reconhecíveis aspectos de sua composição. A carreira solo coexistia com reuniões e atividades relacionadas ao repertório do Sabbath.
A retomada da parceria com Dio, Butler e Appice sob o nome Heaven & Hell produziu “The Devil You Know”, em 2009. Após a morte de Dio, em 2010, outra reunião aproximou Iommi de Osbourne e Butler. O guitarrista recebeu um diagnóstico de linfoma em 2012, durante o período que antecedeu “13”, lançado em 2013 com Brad Wilk na bateria.
A turnê de despedida do Sabbath terminou em Birmingham, em fevereiro de 2017. O encerramento daquele ciclo não significou o abandono da atividade musical por Iommi, cuja produção fora da banda já havia estabelecido diferentes possibilidades de colaboração.
“From The Dark” se insere nessa trajetória. O anúncio oficial da BMG, publicado em 31 de julho de 2026, apresentou o álbum com lançamento marcado para 23 de outubro, em formatos de CD e vinil, incluindo edições especiais. O primeiro single, “World Alone”, havia sido divulgado em 29 de julho, acompanhado de videoclipe.
A apresentação ocorreu em Birmingham, numa conversa entre Iommi e o comediante britânico Frank Skinner. O encontro reuniu representantes da imprensa e teve transmissão pelo YouTube. Segundo a gravadora, o local ficava próximo da Black Sabbath Bridge, homenagem pública inaugurada em 2019.
Ao comentar o trabalho, Iommi destacou o prazer envolvido na gravação e afirmou que os participantes não estavam tentando provar nada. A declaração situa o projeto numa etapa em que sua produção pode ser observada para além da obrigação de reafirmar a importância histórica do Sabbath.
O novo álbum oferece, assim, uma perspectiva sobre a continuidade de sua carreira. Entre o acidente na fábrica e a apresentação de “From The Dark”, Iommi desenvolveu soluções técnicas, atravessou diferentes formações e construiu um repertório decisivo para o heavy metal. Sua contribuição permanece associada à capacidade de transformar ideias de guitarra em estruturas musicais que outros artistas continuam a explorar.
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