8 MÚSICAS DO MOTÖRHEAD QUE ESTAVAM ENTRE AS FAVORITAS DO PRÓPRIO LEMMY

Muito além de “Ace of Spades”, o lendário vocalista e baixista tinha suas próprias preferências dentro do catálogo do Motörhead. Declarações concedidas à revista Hot Press ajudam a revelar algumas dessas escolhas.
8 músicas favoritas de Lemmy Kilmister no Motörhead

Quando se fala em Motörhead, é praticamente impossível não pensar em “Ace of Spades”, “Overkill” ou “Iron Fist”. São músicas que atravessaram gerações, viraram símbolos do rock pesado e ajudaram a transformar Lemmy Kilmister em uma das figuras mais reconhecíveis da história do gênero. Mas será que essas também eram as composições favoritas do próprio músico?

A resposta é mais interessante do que parece. Ao longo de sua carreira, Lemmy falou sobre diferentes momentos da discografia do Motörhead e revelou ter um carinho especial por determinadas faixas. Algumas se tornaram clássicos incontestáveis, enquanto outras permaneceram relativamente escondidas em discos que nunca receberam a mesma atenção comercial.

Parte dessas preferências ganhou destaque em uma entrevista concedida à revista irlandesa Hot Press, posteriormente recuperada em matérias dedicadas às escolhas pessoais do músico. O assunto oferece uma perspectiva diferente sobre a banda: em vez de observar apenas aquilo que conquistou o público, podemos olhar para as composições que despertavam orgulho em seu próprio criador.

A seleção a seguir reúne oito músicas associadas às preferências declaradas de Lemmy ao longo dos anos, tomando como referência essa entrevista e outros comentários atribuídos ao artista. Não se trata de um ranking definitivo, mas de um passeio por diferentes fases de uma carreira marcada por amplificadores no limite, letras provocativas e uma fidelidade quase inabalável ao rock and roll.


1. Bomber (1979)

Álbum: Bomber

“Bomber” representa um dos momentos mais explosivos da primeira fase do Motörhead. Lançada em 1979, quando a banda ainda consolidava sua identidade, a faixa combina a agressividade do punk com a estrutura direta do rock and roll, características que se tornariam fundamentais para o grupo.

A inspiração veio do romance Bomber, do escritor britânico Len Deighton, que aborda uma operação aérea durante a Segunda Guerra Mundial. Lemmy era um leitor interessado em história militar e encontrou na obra o ponto de partida para uma composição que transformava imagens de guerra em música pesada.

Na época, a formação com Lemmy, o guitarrista Fast Eddie Clarke e o baterista Phil Taylor atravessava um período particularmente produtivo. O álbum Bomber chegou poucos meses depois de Overkill, consolidando uma sequência de lançamentos fundamentais para a história da banda.

Ao citar a faixa entre suas preferidas, Lemmy demonstrava apreço por uma composição que reunia praticamente todos os elementos de sua proposta musical: velocidade, intensidade e uma narrativa que ia além dos clichês habituais do rock.


2. Ace of Spades (1980)

Álbum: Ace of Spades

Pode parecer óbvio encontrar “Ace of Spades” nesta seleção, mas a relação de Lemmy com o maior sucesso do Motörhead era marcada por uma boa dose de ironia. Afinal, a música acabou se tornando tão conhecida que frequentemente ofuscava o restante de sua extensa discografia.

Na entrevista à Hot Press, quando questionado sobre suas melhores composições, Lemmy respondeu que “Ace of Spades” precisava estar entre elas, evidentemente, porque havia garantido seu sustento durante os vinte anos anteriores. Era uma maneira bem-humorada de reconhecer a importância comercial da faixa sem precisar transformá-la em uma obra intocável.

Lançada em 1980, a música apresenta uma das introduções mais reconhecíveis do rock pesado. Seu ritmo acelerado, o baixo distorcido e a interpretação rouca de Lemmy ajudaram a construir uma identidade sonora que influenciaria bandas de thrash metal, speed metal e hardcore.

Mesmo demonstrando certo cansaço com a atenção excessiva dedicada à composição, Lemmy nunca deixou de reconhecer sua força. “Ace of Spades” permaneceu no repertório dos shows e se tornou uma espécie de cartão de visitas definitivo do Motörhead.


3. Love Me Forever (1991)

Álbum: 1916

Quem conhece o Motörhead apenas pelas músicas rápidas e barulhentas pode se surpreender com “Love Me Forever”. Lançada no álbum 1916, de 1991, a composição apresenta uma faceta mais melódica e emocional de Lemmy, distante da imagem de músico interessado exclusivamente em velocidade e distorção.

A faixa aborda sentimentos de maneira direta, sem abandonar a personalidade áspera do vocalista. O resultado é uma balada pesada que demonstra como a banda conseguia explorar diferentes atmosferas sem perder completamente sua identidade.

Naquele período, o Motörhead contava com Phil Campbell e Würzel nas guitarras, além de Phil Taylor na bateria. A formação permitia arranjos mais elaborados, e 1916 acabou se destacando pela diversidade de suas composições.

A importância da música também pode ser percebida na versão gravada pela cantora alemã Doro Pesch, que contou com a participação do próprio Lemmy. Lançada no álbum Calling the Wild, em 2000, a colaboração apresentou a composição a outro público.

Sua presença entre as favoritas do músico ajuda a desmontar a ideia de que Lemmy valorizava apenas as canções mais agressivas do catálogo. Havia espaço para melodias sentimentais, desde que fossem interpretadas com convicção.


4. 1916 (1991)

Álbum: 1916

Poucas músicas do Motörhead se distanciam tanto de sua sonoridade habitual quanto “1916”. A faixa que encerra o álbum homônimo é uma composição lenta, melancólica e profundamente ligada às consequências humanas da guerra.

Inspirada nos jovens soldados que perderam a vida durante a Primeira Guerra Mundial, a música abandona a agressividade instrumental característica da banda para concentrar sua força na narrativa. A interpretação de Lemmy assume um tom quase confessional, permitindo que a letra ocupe o centro da experiência.

O contraste é particularmente interessante quando lembramos que o músico possuía grande interesse por história militar. Em vez de transformar o conflito em espetáculo, “1916” apresenta uma perspectiva marcada pela perda, pelo sofrimento e pela juventude interrompida.

A composição também demonstra a amplitude das influências de Lemmy. Embora fosse frequentemente associado ao heavy metal, ele cresceu ouvindo rock and roll dos anos 1950 e admirava artistas como os Beatles, além de grupos mais agressivos como o MC5.

Ao incluir “1916” entre suas escolhas, o vocalista reforçava que a identidade do Motörhead não dependia exclusivamente do volume dos amplificadores. Uma boa composição também poderia encontrar sua força no silêncio, na interpretação e na capacidade de contar uma história.


5. Don’t Lie to Me (1991)

Álbum: 1916

“Don’t Lie to Me” é outra composição do álbum 1916 que apareceu nas preferências de Lemmy. Diferentemente da faixa-título, a música recupera o espírito mais direto e provocador do Motörhead, com guitarras afiadas e uma interpretação vocal carregada de personalidade.

A letra gira em torno da desonestidade em um relacionamento, assunto abordado sem grandes rodeios. Essa simplicidade era uma das marcas de Lemmy como compositor, que frequentemente preferia frases incisivas a construções excessivamente elaboradas.

Musicalmente, a faixa também revela a ligação do grupo com o rock and roll tradicional. Apesar da produção pesada, sua estrutura mantém uma energia próxima daquela encontrada em bandas que influenciaram Lemmy antes mesmo da criação do Motörhead.

O fato de o músico ter mencionado três composições de 1916 entre suas favoritas chama atenção para a importância desse disco em sua trajetória. Longe de representar apenas mais um lançamento, o álbum demonstrava que a banda ainda tinha caminhos interessantes a explorar depois de mais de quinze anos de atividade.


6. Overnight Sensation (1996)

Álbum: Overnight Sensation

Em 1996, o Motörhead atravessava outra transformação importante. Após a saída do guitarrista Würzel, o grupo voltou ao formato de trio, com Lemmy, Phil Campbell e Mikkey Dee. Foi nesse contexto que surgiu Overnight Sensation, álbum cuja faixa-título também recebeu uma menção positiva do vocalista.

A composição apresenta uma sonoridade pesada, mas com espaço para elementos melódicos e uma construção menos acelerada do que aquela encontrada nos primeiros discos. O resultado evidencia a tentativa de preservar a identidade do grupo sem simplesmente repetir fórmulas antigas.

A década de 1990 foi particularmente desafiadora para diversas bandas veteranas do rock pesado. Enquanto novas tendências conquistavam espaço, o Motörhead continuava lançando discos e excursionando, sustentado por um público fiel.

Nesse cenário, “Overnight Sensation” representa a persistência de uma banda que não pretendia adaptar sua personalidade às exigências comerciais do momento. Sua inclusão entre as preferências de Lemmy mostra que ele também valorizava o material produzido fora da fase considerada clássica pelos fãs.


7. Sacrifice (1995)

Álbum: Sacrifice

“Sacrifice” é uma das composições mais pesadas do Motörhead durante os anos 1990. Lançada em 1995, a faixa apresenta riffs agressivos, bateria intensa e uma atmosfera particularmente sombria, aproximando o grupo de sonoridades mais extremas sem abandonar suas raízes.

O álbum homônimo marcou o último trabalho de estúdio com Würzel na formação. A partir do lançamento seguinte, o Motörhead voltaria definitivamente ao formato de trio, configuração mantida até o encerramento de suas atividades.

A admiração de Lemmy por “Sacrifice” não ficou restrita à entrevista da Hot Press. Em outra conversa, publicada pela revista Classic Rock, o músico voltou a destacar a qualidade da composição quando questionado sobre quais músicas da banda mereciam ser lembradas.

Essa preferência é significativa porque demonstra que Lemmy não considerava os anos 1970 e 1980 os únicos períodos relevantes de sua carreira. Para ele, o Motörhead continuava produzindo material digno de reconhecimento, mesmo quando os lançamentos mais recentes recebiam menos atenção do grande público.


8. Over Your Shoulder (1995)

Álbum: Sacrifice

Fechando a seleção musical, “Over Your Shoulder” é mais uma composição retirada de Sacrifice, disco que ocupa um lugar interessante na trajetória do Motörhead. A faixa apresenta uma combinação de peso, andamento firme e riffs que reforçam a personalidade musical construída pela banda ao longo das décadas.

Embora não tenha alcançado a popularidade dos grandes clássicos, a música representa uma fase em que Lemmy e seus companheiros continuavam explorando possibilidades dentro de uma proposta aparentemente simples.

O próprio vocalista costumava tratar o processo criativo do Motörhead com naturalidade. Em entrevistas, frequentemente rejeitava a ideia de que a banda precisava seguir planos elaborados para compor ou gravar seus discos.

Essa postura ajuda a compreender por que uma faixa relativamente pouco conhecida poderia ocupar espaço entre suas preferências. Para Lemmy, o valor de uma música não estava necessariamente relacionado ao desempenho comercial ou à quantidade de vezes que aparecia no repertório dos shows.


Muito além dos clássicos

As escolhas de Lemmy revelam algo importante sobre sua relação com a própria obra. Embora fosse reconhecido como uma figura intransigente do rock pesado, o músico demonstrava apreço por diferentes abordagens, incluindo baladas, narrativas históricas e composições menos conhecidas.

Sua morte, em dezembro de 2015, encerrou a trajetória do Motörhead, mas deixou um repertório que continua sendo redescoberto. E ouvir essas oito músicas sob a perspectiva de seu principal criador é uma maneira interessante de perceber que, por trás do volume ensurdecedor, existia um compositor muito mais versátil do que sua imagem pública costumava sugerir.

Leia Também:

Deixe um comentário