Quase três décadas após a morte de Bradley Nowell, os integrantes do Sublime ainda carregam lembranças do episódio que mudou definitivamente a trajetória da banda. Durante uma conversa com o comediante Bert Kreischer, Eric Wilson e Bud Gaugh revisitaram os acontecimentos de 25 de maio de 1996, quando o vocalista e guitarrista morreu aos 28 anos, vítima de uma overdose de heroína. Na ocasião, o grupo atravessava uma fase decisiva, com apresentações marcadas, um novo disco praticamente pronto e planos de expandir sua atuação para outros países.
O contraste entre as expectativas profissionais e a perda pessoal foi um dos principais assuntos da entrevista. Formado na Califórnia, o Sublime havia construído sua identidade misturando punk rock, reggae, ska e outras influências musicais. Depois de anos circulando pela cena alternativa, os músicos estavam próximos de alcançar uma projeção comercial muito maior. Entretanto, a morte de Nowell aconteceu antes que ele pudesse acompanhar o lançamento do álbum que consolidaria o reconhecimento da banda.
A manhã da tragédia
Ao abordar aquele período, Bert Kreischer perguntou aos músicos como foi enfrentar a morte de um amigo justamente quando a carreira do Sublime parecia ganhar uma nova dimensão. Eric Wilson começou explicando onde estavam quando descobriram o ocorrido: “Bom, a gente acordou e descobriu isso em São Francisco.” Bud Gaugh, que dividia o quarto com Bradley Nowell, acrescentou: “É, eu estava dividindo o quarto com ele.”
Wilson também mencionou um detalhe que demonstrava o momento vivido pelo grupo. “Tínhamos um show com ingressos esgotados naquela noite; inclusive, o motorista da ambulância tinha ingressos para o show. Foi bem…”. A apresentação fazia parte de uma sequência de compromissos que antecedia o lançamento do próximo trabalho. O episódio, entretanto, interrompeu os planos imediatamente.
Gaugh descreveu a sensação de ver tudo desaparecer de maneira inesperada: “Foi muito difícil. É como se você estivesse em um ‘tapete mágico’, sabe? Estávamos decolando, nos preparando para a nossa primeira turnê pela Europa. O álbum estava prestes a ser lançado no mês seguinte. Lembro de voltar do estúdio com uma versão preliminar e pensar: ‘É esse o som que a gente tanto buscou esse tempo todo’. Finalmente tínhamos chegado onde queríamos. Era isso! Estávamos prestes a tocar em estádios… era o auge.”
O baterista prosseguiu: “Tínhamos finalmente chegado lá. Estávamos nesse ‘tapete mágico’ decolando, mas alguém puxou a porra do tapete debaixo dos nossos pés. Foi uma queda livre. Depressão, angústia, ódio de si mesmo… Parecia até reconfortante bater a cabeça contra a porta. Foi horrível. Acordei naquela manhã e o vi ali, deitado na cama… é algo que jamais vou esquecer.” O relato evidencia como a lembrança permanece associada ao choque daquele momento.

Um disco lançado após a morte
Bradley Nowell morreu em um quarto de hotel em São Francisco, durante uma passagem do Sublime pela cidade. A banda havia passado anos desenvolvendo um repertório próprio, inicialmente associado ao circuito independente da Califórnia. Seus primeiros lançamentos ajudaram a formar uma base de seguidores, enquanto as apresentações ao vivo ampliavam a circulação das músicas entre públicos ligados ao rock alternativo.
O terceiro álbum de estúdio, intitulado simplesmente Sublime, chegou às lojas em julho de 1996, aproximadamente dois meses depois da morte do vocalista. O trabalho marcou uma mudança importante na dimensão comercial do grupo, alcançando ouvintes que não acompanhavam seus discos anteriores. A mistura de estilos, característica da formação original, ganhou espaço nas rádios e contribuiu para a popularização de suas gravações.
Canções como What I Got, Santeria e Wrong Way passaram a integrar o repertório mais conhecido da banda. O sucesso dessas faixas, porém, aconteceu sem a presença de Nowell para participar das turnês e atividades promocionais que normalmente acompanham um lançamento dessa proporção. O álbum acabou funcionando também como registro definitivo da formação que havia desenvolvido aquela sonoridade.
A repercussão comercial ampliou o reconhecimento do Sublime nos Estados Unidos e em outros mercados. Ao mesmo tempo, estabeleceu uma situação incomum: o grupo alcançava seu maior público justamente quando já não poderia continuar com sua configuração original. Para Wilson e Gaugh, o período ficou marcado tanto pela realização de objetivos antigos quanto pela impossibilidade de compartilhá-los com o companheiro.
O legado e a nova formação
Após a morte de Bradley Nowell, o Sublime encerrou suas atividades com a formação original. Seu catálogo, entretanto, continuou circulando e conquistando novas gerações de ouvintes. A presença de suas músicas nas rádios, plataformas digitais e referências da cultura alternativa ajudou a manter o nome da banda associado à cena musical californiana dos anos 1990.
Décadas depois, o grupo voltou a desenvolver atividades com Jakob Nowell, filho de Bradley, assumindo os vocais. A participação do músico representa uma nova etapa para o Sublime, aproximando sua história original de uma geração que não acompanhou os primeiros anos da banda. A retomada também reacendeu o interesse por gravações antigas e pela trajetória dos integrantes.
A presença de Jakob não altera, contudo, as circunstâncias que encerraram a primeira fase do grupo. As declarações de Eric Wilson e Bud Gaugh mostram que a morte do vocalista permanece como uma referência importante na maneira como os músicos interpretam aquele período. O sucesso posterior do álbum não eliminou as consequências pessoais da perda.
A entrevista com Bert Kreischer recupera justamente essa diferença entre reconhecimento público e experiência individual. Enquanto o disco de 1996 se tornou um marco na discografia do Sublime, seus integrantes precisaram lidar com a ausência de quem havia participado diretamente de sua criação. Trinta anos depois, a história da banda continua sendo contada a partir dessas duas realidades.












