Os bastidores das grandes turnês costumam guardar histórias que raramente chegam ao público. Uma delas voltou a ganhar destaque no documentário lançado pelo canal TMDQA! no YouTube, que reúne relatos importantes sobre a história da música paranaense. Entre os depoimentos mais emocionantes está o de Kevan Gillies, britânico que cresceu em Curitiba, participou da formação da cena punk local e, anos depois, tornou-se o responsável pela segurança de Lemmy Kilmister durante as visitas do Motörhead ao Brasil.
A história chama atenção não apenas pela proximidade com um dos maiores nomes do rock mundial, mas também pela forma improvável como essa amizade começou. No documentário, gravado pouco antes de sua morte, Kevan relembra episódios curiosos, fala sobre a convivência com os integrantes da banda e compartilha lembranças dos últimos dias de Lemmy, incluindo uma conversa que jamais esqueceu.
Um convite improvável
Antes de integrar a equipe do Motörhead, Kevan Gillies já era uma figura conhecida em Curitiba. Nascido na Grã-Bretanha, ele chegou ao Brasil ainda jovem e participou ativamente da cena punk da capital paranaense. Com o passar dos anos, aproximou-se também do heavy metal e acumulou experiência como instrutor militar, conhecimento que acabaria mudando completamente sua trajetória.
O primeiro contato com o Motörhead aconteceu de maneira bastante inusitada. Sabendo que a banda estaria em Curitiba, Kevan entrou em contato com o road manager do grupo e fez um convite pouco convencional: levar os músicos para conhecer uma base militar e passar um dia “explodindo coisas e dando uns tiros”.
A proposta despertou o interesse dos integrantes, que aceitaram participar da experiência. Aproveitando o momento de descontração, Kevan comentou que poderia ajudar caso a banda precisasse de alguém para atuar na segurança durante futuras passagens pelo Brasil.
A ideia acabou rendendo frutos rapidamente. Na visita seguinte do Motörhead ao país, o convite partiu diretamente da equipe da banda. A partir dali, Kevan passou a acompanhar Lemmy Kilmister e seus companheiros durante a agenda brasileira, tornando-se um rosto conhecido nos bastidores das turnês.
Segundo seu relato, o trabalho exigia discrição, planejamento e, principalmente, capacidade de entender o funcionamento de uma banda que já possuía décadas de estrada e uma rotina bastante consolidada.

A rotina com Motörhead
Durante o documentário, Kevan explicou que precisou adaptar seu próprio método de trabalho aos hábitos dos músicos, e não o contrário. Em vez de alterar a dinâmica do Motörhead, ele buscou compreender como cada integrante se comportava para garantir que tudo acontecesse sem problemas.
Phil Campbell e Mikkey Dee, por exemplo, costumavam aproveitar intensamente a vida noturna durante as turnês. As festas e os compromissos após os shows exigiam uma atenção maior da equipe responsável pela segurança.
Já Lemmy apresentava um comportamento muito diferente daquele imaginado por muitos fãs. Embora sua imagem pública estivesse ligada aos excessos do rock, Kevan descreveu uma rotina extremamente previsível.
Segundo ele, o líder do Motörhead seguia praticamente o mesmo roteiro em todas as cidades: “aeroporto, hotel, show e aeroporto”.
Essa organização facilitava parte do trabalho, permitindo que toda a logística fosse planejada com antecedência. Kevan também ressaltou que Lemmy sempre demonstrava respeito pelos profissionais envolvidos na turnê, tratando todos com educação e valorizando o trabalho da equipe.
Ao longo dos anos, essa convivência profissional acabou evoluindo para uma relação de amizade baseada na confiança. O segurança passou a conhecer não apenas o artista que subia ao palco, mas também o homem reservado que preferia conversas tranquilas aos grandes eventos sociais quando não estava se apresentando.
Essa proximidade tornaria os acontecimentos da última turnê ainda mais marcantes para Kevan.
A despedida de Lemmy
A última excursão em que Kevan trabalhou ao lado do Motörhead aconteceu durante a turnê realizada em parceria com o Judas Priest, incluindo a passagem por São Paulo, quando Lemmy apresentou problemas de saúde que já evidenciavam o agravamento de seu estado físico.
No documentário, Kevan recorda o impacto de reencontrar o músico naquela ocasião. Segundo ele, na visita anterior havia se despedido de um homem que parecia ter quase “três metros de altura”. Quando voltou a encontrá-lo, viu alguém bastante debilitado, caminhando com auxílio de uma bengala e demonstrando sinais claros do desgaste provocado pelos problemas de saúde.
Mesmo diante dessas dificuldades, Lemmy preservava a postura respeitosa que sempre demonstrou nos bastidores.
Um dos momentos mais marcantes relatados por Kevan aconteceu quando o vocalista o chamou até o camarim para agradecer pelos anos de trabalho conjunto. Em seguida, fez um convite para que ambos descessem ao bar do hotel.
Durante horas, conversaram sobre Segunda Guerra Mundial, composição musical e diversos assuntos ligados ao universo do rock. Kevan contou que interpretou aquele encontro como uma espécie de avaliação informal para integrar também a equipe da futura turnê europeia do Motörhead.
Infelizmente, esses planos nunca chegaram a acontecer. Pouco tempo depois daquela série de apresentações, Lemmy Kilmister morreu, encerrando uma das trajetórias mais influentes da história do heavy metal.
Kevan fez questão de definir o amigo como um verdadeiro cavalheiro e destacou que ele jamais abandonou sua personalidade ou seus princípios para seguir modismos. Segundo seu depoimento, Lemmy permaneceu fiel ao rock and roll durante toda a carreira.
O registro ganhou ainda mais significado porque, cerca de um mês após conceder a entrevista ao documentário, Kevan Gillies também faleceu. Seu testemunho tornou-se um importante documento sobre os bastidores das visitas do Motörhead ao Brasil e, ao mesmo tempo, uma homenagem a um personagem que ajudou a escrever parte da história do rock no país.



