10 MÚSICAS PARA QUEM JURA QUE O UNDERGROUND ERA MELHOR NO COMEÇO

De gravações precárias a mudanças radicais de estilo, dez faixas que alimentam a velha discussão sobre bandas que perderam — ou ampliaram — sua essência com o tempo
10 músicas de bandas underground melhores no começo

Existe uma espécie de fiscal de autenticidade em toda cena underground. Ele conhece a demo que ninguém encontra, prefere o primeiro baixista, desconfia de qualquer produção minimamente limpa e considera imperdoável quando uma banda passa a tocar para mais de cinquenta pessoas. Sua frase favorita já virou tradição: “essa banda era melhor no começo”.

A implicância pode soar como patrulha, mas nem sempre é vazia. Os primeiros trabalhos de uma banda costumam concentrar limitações técnicas, inquietação criativa e pouca preocupação com as expectativas do público. No underground, especialmente, a precariedade pode participar ativamente da estética. O ruído, a gravação abafada e os instrumentos aparentemente fora do lugar ajudam a criar uma atmosfera impossível de reproduzir depois.

As dez músicas desta lista registram bandas cultuadas quando ainda construíam suas identidades — ou antes de abandoná-las completamente. São faixas que continuam alimentando debates entre fãs de metal extremo, sludge, punk, noise rock, drone e música experimental.

1. Napalm Death — Instinct of Survival

Lançada em Scum, de 1987, “Instinct of Survival” pertence ao período em que o Napalm Death ajudava a estabelecer as bases do grindcore em Birmingham, na Inglaterra. A faixa abre o primeiro lado do disco com uma estrutura ainda próxima do crust punk e do hardcore, antes que a velocidade alcance níveis praticamente inéditos nas músicas seguintes. A letra critica a exploração econômica e a transformação de necessidades básicas em oportunidades de lucro.

A história de Scum também reforça sua posição no imaginário underground. Os dois lados foram gravados em sessões diferentes e apresentam formações quase inteiramente distintas. O lado A conta com Nicholas Bullen nos vocais e baixo, Justin Broadrick na guitarra e Mick Harris na bateria. Quando o lado B foi registrado, Broadrick e Bullen já haviam deixado o grupo.

O Napalm Death continuou mudando, aproximando-se do death metal e desenvolvendo uma produção mais definida. Para muitos fãs, porém, “Instinct of Survival” preserva o momento em que a banda ainda parecia estar inventando sua própria linguagem enquanto tocava.


2. Melvins — Eye Flys

“Eye Flys” abre Gluey Porch Treatments, álbum de estreia dos Melvins, lançado originalmente em 1987. A música avança de maneira lenta, repetitiva e desconfortável, como se cada nota precisasse atravessar uma camada de lama antes de chegar ao ouvinte. Dale Crover evita qualquer sensação convencional de impulso, enquanto a guitarra de Buzz Osborne transforma a lentidão em peso físico.

Formados em Montesano, no estado de Washington, os Melvins surgiram ligados ao punk, mas reduziram a velocidade em vez de tentar acompanhar a aceleração do hardcore. Essa escolha teve enorme influência sobre o sludge metal e também sobre bandas da futura cena grunge. Kurt Cobain chegou a acompanhar o grupo em seus primeiros anos e reconhecia publicamente a importância dos Melvins em sua formação.

A banda posteriormente atravessou diferentes formações, experiências com dois bateristas, discos mais acessíveis e colaborações improváveis. “Eye Flys”, contudo, permanece como a expressão mais primitiva de sua proposta: tocar devagar até que o silêncio entre os golpes também se torne ameaçador.


3. Neurosis — Pain of Mind

Quem conheceu o Neurosis por discos como Through Silver in Blood talvez estranhe “Pain of Mind”. Lançada no álbum homônimo de 1987, a faixa mostra uma banda profundamente ligada ao hardcore punk, com andamento veloz, produção seca e uma agressividade muito mais direta do que aquela encontrada em seus trabalhos posteriores.

O Neurosis começou em Oakland, na Califórnia, dentro de uma cena punk marcada por ativismo, espaços independentes e circulação de fitas. Gradualmente, o grupo incorporou passagens lentas, elementos industriais, texturas ambientais e estruturas extensas. Essa transformação ajudaria a criar o vocabulário posteriormente associado ao post-metal, influenciando incontáveis bandas interessadas em combinar peso e atmosfera.

“Pain of Mind” ainda não apresenta a escala quase ritualística alcançada pelo grupo durante a década de 1990. Em compensação, documenta músicos tocando com urgência e poucos filtros. Para os defensores da primeira fase, essa objetividade vale mais do que qualquer construção épica: trata-se do Neurosis antes de o peso se tornar contemplativo.


4. Ulver — I Troldskog Faren Vild

“I Troldskog Faren Vild” inicia Bergtatt – Et Eeventyr i 5 Capitler, estreia do Ulver lançada em 1995. A composição combina vocais limpos, passagens acústicas, melodias sombrias e explosões de black metal. Em vez de investir apenas na violência sonora, o grupo norueguês construiu uma atmosfera florestal e quase folclórica.

As letras foram escritas em uma forma arcaizante do dinamarquês-norueguês e narram a história de uma jovem atraída para a floresta. O álbum tornou-se uma obra de referência por aproximar o black metal de elementos acústicos sem transformar esse contraste em simples ornamentação. Cada mudança participa da narrativa e amplia a sensação de encantamento ameaçador.

Depois de Nattens Madrigal, de 1997, o Ulver abandonou progressivamente o metal extremo. Vieram a eletrônica, o ambient, trilhas sonoras, art rock e synthpop sombrio. Para quem prefere a banda no começo, “I Troldskog Faren Vild” representa uma combinação que nunca seria repetida da mesma maneira: beleza pastoral, gravação nebulosa e violência surgindo entre as árvores.


5. Swans — Stay Here

Poucas músicas parecem tão fisicamente hostis quanto “Stay Here”, faixa de abertura de Filth, primeiro álbum do Swans, lançado em 1983. A bateria funciona como uma máquina industrial defeituosa, os baixos criam uma massa repetitiva e Michael Gira emite ordens relacionadas a força, disciplina e submissão. Não existe alívio melódico: a música pressiona o ouvinte do início ao fim.

Naquele período, o Swans fazia parte do ambiente pós-punk e no wave de Nova York, embora sua música já resistisse a classificações simples. Os shows ficaram conhecidos pelo volume extremo e pela maneira como a repetição transformava a apresentação em uma experiência corporal. A brutalidade não dependia de velocidade, mas da insistência.

Nas décadas seguintes, o grupo explorou folk sombrio, composições atmosféricas e longas estruturas de crescimento gradual. Essa evolução produziu alguns de seus trabalhos mais celebrados, mas “Stay Here” continua sendo o argumento favorito de quem prefere o Swans primitivo. É uma faixa sem paisagem, transcendência ou delicadeza: apenas metal, suor e opressão.


6. Carcass — Exhume to Consume

“Exhume to Consume” integra Symphonies of Sickness, segundo álbum do Carcass, lançado em 1989. Embora tecnicamente não pertença à estreia, a música representa a fase embrionária da banda de Liverpool, quando o grupo desenvolvia uma mistura repulsiva de grindcore e death metal. As guitarras de Bill Steer e a bateria de Ken Owen criam uma base caótica, enquanto os vocais alternados intensificam a sensação de decomposição.

As letras do Carcass recorriam a terminologia médica retirada de livros e dicionários, compondo descrições deliberadamente grotescas. Essa abordagem ajudou a estabelecer o chamado goregrind, embora os integrantes frequentemente tratassem o exagero com humor britânico. A produção abafada dos primeiros trabalhos tornou a experiência ainda mais sufocante.

Posteriormente, o Carcass refinou sua técnica em discos como Necroticism e Heartwork, fundamental para o desenvolvimento do death metal melódico. Quem prefere “Exhume to Consume”, entretanto, costuma sentir falta da época em que a banda parecia menos interessada em precisão e mais empenhada em descobrir quão repulsiva uma gravação poderia soar.


7. Electric Wizard — Stone Magnet

Antes de se tornar uma das principais referências do doom metal psicodélico, o Electric Wizard lançou um primeiro álbum comparativamente mais direto. “Stone Magnet”, presente na estreia homônima de 1994, já possui riffs graves, andamento arrastado e uma evidente influência do Black Sabbath. Ainda assim, falta a camada sufocante de distorção que marcaria os discos seguintes.

A formação reunia Jus Oborn, Tim Bagshaw e Mark Greening, músicos que depois alcançariam uma sonoridade muito mais extrema em Come My Fanatics… e Dopethrone. Em “Stone Magnet”, é possível ouvir uma banda testando os componentes de sua identidade: ficção científica, psicodelia, amplificadores saturados e fascínio por riffs repetitivos.

Para parte do público, o Electric Wizard encontrou sua forma definitiva apenas depois da estreia. Para outra parcela, justamente a ausência de uma fórmula fechada torna “Stone Magnet” especial. A faixa guarda uma energia de ensaio, menos monumental e mais próxima de três músicos tentando levar o doom britânico para um território ainda desconhecido.


8. Eyehategod — Sister Fucker (Part I)

“Sister Fucker (Part I)” aparece em Take as Needed for Pain, segundo álbum do Eyehategod, lançado em 1993. A faixa reúne riffs lentos, feedback, bateria com forte influência do hardcore e os vocais desesperados de Mike Williams. A gravação parece instável, como se a música pudesse desmontar antes de chegar ao fim.

Formado em Nova Orleans, o Eyehategod desenvolveu sua identidade combinando a lentidão do doom metal com a sujeira do punk e do blues sulista. Take as Needed for Pain consolidou essa mistura e tornou-se uma referência central para o sludge metal. A arte, os títulos provocativos e as colagens criadas por Williams reforçavam uma estética desconfortável, distante de qualquer acabamento comercial.

A banda preservou boa parte dessas características durante a carreira, mas os primeiros registros possuem uma precariedade difícil de simular. “Sister Fucker (Part I)” continua sendo lembrada porque não parece representar um estilo organizado. Soa como o registro acidental de uma situação que deveria ter permanecido fora do estúdio.


9. Voivod — Voivod

A faixa “Voivod” encerra War and Pain, álbum de estreia do grupo canadense lançado em 1984. Naquele momento, a banda combinava velocidade, influência de Motörhead, energia punk e uma ambientação inspirada por guerra, tecnologia e ficção científica. O personagem Voivod, desenvolvido pelo baterista Michel “Away” Langevin, funcionava como eixo conceitual para aquele universo em construção.

A produção é rudimentar e as composições ainda não apresentam toda a complexidade harmônica que tornaria o grupo conhecido. Discos como Killing Technology, Dimension Hatröss e Nothingface levariam o Voivod ao território do metal progressivo e da dissonância, com a guitarra de Denis “Piggy” D’Amour assumindo um vocabulário cada vez mais particular.

Existe, porém, uma força difícil de ignorar em “Voivod”. A banda ainda não havia desenvolvido completamente sua linguagem futurista, mas compensava qualquer limitação com agressividade. Para alguns fãs, o charme está justamente nessa colisão entre ambição conceitual e execução quase punk.


10. Boris — Huge

“巨大な” — geralmente apresentada pelo título em inglês “Huge” — integra Absolutego, primeiro álbum do Boris, gravado em 1996. Em sua versão original, o disco foi concebido como uma única composição com aproximadamente uma hora de duração. “Huge” corresponde a um trecho dessa massa sonora formada por drone, distorção, repetição e frequências graves.

O nome da banda japonesa foi retirado de uma música dos Melvins, ligação que ajuda a compreender sua origem estética. Entretanto, o Boris jamais permaneceu preso a um gênero. Ao longo da carreira, o trio passou por stoner rock, shoegaze, ambient, noise, pop experimental, hardcore e colaborações com artistas como Merzbow.

Essa liberdade tornou o Boris uma das bandas mais imprevisíveis do underground, mas também criou grupos de fãs ligados a fases específicas. Para quem prefere o começo, “Huge” representa o trio em seu estado mais austero. Não existe refrão, virtuosismo exibicionista ou tentativa de facilitar a escuta. A música apenas ocupa o espaço e espera que o ouvinte aceite permanecer dentro dela.


Talvez a banda não tenha mudado sozinha

A frase “essa banda era melhor no começo” frequentemente tenta transformar uma preferência pessoal em regra histórica. Algumas fases iniciais realmente possuem características que desapareceram: formações diferentes, gravações baratas, cenas locais ativas e a liberdade de trabalhar sem uma audiência consolidada. Isso não significa, contudo, que toda evolução represente perda de autenticidade.

Ulver, Neurosis, Swans e Boris construíram trajetórias relevantes justamente porque se recusaram a repetir indefinidamente seus primeiros discos. Carcass, Voivod e Napalm Death ampliaram suas possibilidades técnicas sem apagar a importância das gravações primitivas. Até a sujeira pode virar fórmula quando reproduzida apenas para atender à nostalgia dos fãs.

Talvez o começo pareça melhor porque nele ainda existia alguma incerteza. A banda não sabia quem seria, o público não conhecia o próximo passo e cada escolha poderia terminar em fracasso. Quando essa instabilidade desaparece, parte do mistério também vai embora. No underground, onde a descoberta sempre valeu quase tanto quanto a música, sentir falta do começo pode ser apenas outra maneira de sentir falta do desconhecido.

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