A cena musical brasileira segue revelando projetos que apostam em diferentes linguagens artísticas para expandir seus horizontes criativos. Entre apresentações acompanhadas por orquestra, videoclipes produzidos com inteligência artificial e álbuns que aproximam referências internacionais da identidade nacional, três lançamentos recentes chamam a atenção pela diversidade de propostas.
Chico Chico apresenta uma nova fase ao lado da Orquestra Sesiminas, a banda 350ml explora narrativas futuristas em um videoclipe concebido com IA e o Morro Fuji estreia em álbum cheio com uma sonoridade que mistura shoegaze, indie rock e elementos da música brasileira contemporânea.
Chico Chico inicia projeto ao lado da Orquestra Sesiminas
Um dos nomes mais reconhecidos da nova geração da música popular brasileira, Chico Chico deu início a um projeto especial desenvolvido em parceria com a Orquestra Sesiminas. O lançamento marca a chegada do primeiro volume do EP Chico Chico & Orquestra Sesiminas, trabalho que será apresentado em três atos e registra uma apresentação realizada com formação orquestral.
A proposta do projeto é revisitar composições já conhecidas do repertório do artista sob uma nova perspectiva sonora, ampliada pelos arranjos sinfônicos. Ao mesmo tempo, o trabalho abre espaço para releituras de clássicos da música brasileira que ajudaram a formar a identidade musical do cantor e compositor.
Neste primeiro volume, Chico interpreta “Admirável Gado Novo”, composição de Zé Ramalho que atravessa gerações mantendo relevância cultural e política, além da autoral “Toada”. A combinação entre a banda de apoio e a orquestra cria uma atmosfera diferente daquela encontrada em seus registros tradicionais de estúdio.
Em declaração divulgada para a imprensa, o músico destacou o impacto emocional que esse tipo de formação proporciona durante uma apresentação ao vivo.
“É sempre outra experiência sermos acompanhados por uma orquestra. A música vai se expandindo por outros instrumentos e tanto o público quanto nós, que estamos no palco, nos emocionamos.”
Durante a apresentação, Chico Chico esteve acompanhado pelos músicos João Rafael no baixo, Pedro Fonseca ao piano de cauda, Thiaguinho Silva na bateria e Walter Villaça na guitarra. O resultado reforça a capacidade do artista de transitar entre a tradição da canção brasileira e novas possibilidades de interpretação, ampliando o alcance de suas composições sem perder a identidade construída ao longo de sua trajetória.
350ml transforma Curitiba em cenário futurista com uso de IA
Enquanto alguns artistas apostam em formações clássicas para renovar suas obras, a banda 350ml escolheu a tecnologia como principal ferramenta criativa de seu novo lançamento. O grupo apresentou o videoclipe da faixa “Singular”, produção desenvolvida inteiramente com recursos de inteligência artificial generativa.
Mais do que utilizar a IA como efeito visual, a banda construiu uma narrativa que integra tecnologia, ficção científica e referências culturais ligadas ao estado do Paraná. O resultado é uma experiência audiovisual que transforma elementos urbanos em componentes centrais da história.
No vídeo, Curitiba assume papel de destaque. A cidade deixa de ser apenas um cenário e passa a funcionar como personagem dentro da narrativa. Ruas molhadas pela chuva, iluminação urbana, construções modernas e uma atmosfera melancólica ajudam a compor um ambiente que mistura nostalgia e futurismo.
O projeto foi desenvolvido quadro a quadro por Ricardo Küster, vocalista da banda, que conduziu todo o processo de maneira independente. A produção segue uma lógica próxima do movimento “faça você mesmo”, muito presente em diferentes vertentes da música alternativa.
A construção visual buscou unir fotografia virtual e direção artística humana. Em vez de delegar completamente as decisões criativas aos algoritmos, o trabalho utiliza a tecnologia como ferramenta para ampliar possibilidades estéticas, mantendo o controle conceitual nas mãos dos criadores.
O resultado é uma obra que dialoga com debates contemporâneos sobre arte, autoria e tecnologia, demonstrando como ferramentas digitais podem ser incorporadas ao processo criativo sem necessariamente substituir a visão artística humana.
Morro Fuji estreia com álbum que une shoegaze e música brasileira
Também entre os destaques recentes da cena nacional está o lançamento de Ainda nem doeu, primeiro álbum completo da banda Morro Fuji. Formado por 11 faixas, o trabalho apresenta uma proposta que aproxima influências do indie rock e do shoegaze de elementos associados à música brasileira contemporânea.
A identidade sonora do grupo é construída a partir do contraste entre camadas densas de guitarra e momentos de maior delicadeza melódica. Essa dualidade aparece de forma consistente ao longo do disco e contribui para criar uma atmosfera marcada pela introspecção.
O álbum conta com participações importantes, incluindo o trompetista Daniel Gralha, conhecido por seu trabalho com o Bixiga 70. A produção musical ficou a cargo de Lucas Rocha, guitarrista da banda Cidade Dormitório, contribuindo para a construção de uma sonoridade que transita entre diferentes referências sem perder unidade.
Faixas como “Eu do Futuro”, “Asa de Cera” e “Sobre o Tempo e Essas Coisas” ajudam a sintetizar a proposta estética do grupo. Ao mesmo tempo, o lançamento ganha dimensão adicional através do material audiovisual que acompanha o projeto.
O videoclipe duplo das músicas “Memorável” e “Nuvens Espirais” reforça os temas presentes no álbum ao trabalhar imagens que alternam entre o concreto e o subjetivo. A narrativa visual amplia as sensações de passagem do tempo, transformação e memória que atravessam o disco.
Criada em 2019 no ABC Paulista, a Morro Fuji é formada por Angela Destro, Leonardo Pacheco, Nícolas Farias, Natan Bertolino e Pietro Demarchi. Segundo Nícolas, a intenção do trabalho é construir um registro capaz de dialogar com o futuro sem perder a conexão com o presente.
“É algo feito para ser lembrado nos anos 2030 como o registro de um tempo vivido e provocar catarse não pela explosão, mas pela identificação. Cada elemento visual e narrativo do álbum existe para fixar a banda como coletivo, transformar o agora em memória futura e ocupar esse espaço suspenso onde ‘Ainda Nem Doeu’.”



