A turnê que Michale Graves faria pelo Brasil entre 23 e 27 de setembro foi cancelada. O ex-vocalista do Misfits tinha cinco apresentações marcadas em quatro cidades, começando por Porto Alegre e terminando em São Paulo. A produtora Caveira Velha anunciou a decisão na terça-feira (22), após protestos contra a presença do cantor no país. No comunicado, afirmou agir “em compromisso com a segurança do público e de toda a equipe de produção”. A empresa não detalhou quais riscos motivaram o cancelamento.
A controvérsia envolve o apoio que Graves manifestou aos Proud Boys, grupo de extrema direita dos Estados Unidos, e seus comentários sobre a invasão do Capitólio em 2021. Em Porto Alegre, uma organização antifascista havia convocado uma manifestação diante da casa que receberia o primeiro show. O cancelamento, porém, vale para toda a turnê, inclusive as datas em Florianópolis, Curitiba e São Paulo. Para quem já havia comprado ingresso, a orientação da produtora depende da forma de aquisição: compras online terão reembolso automático, enquanto as feitas em pontos físicos exigem retorno ao local de venda.
As cinco datas canceladas
A agenda começaria nesta quarta-feira (23), no Espaço Marin, em Porto Alegre. Na quinta (24), Graves subiria ao palco do John Bull, em Florianópolis, antes de seguir para o Basement Cultural, em Curitiba, na sexta (25). São Paulo receberia dois shows: um acústico na Galeria do Rock, no sábado (26), e outro no Hangar 110, no domingo (27). Nenhuma dessas apresentações permanece programada.
A passagem pelo país colocaria novamente em circulação o repertório associado à fase de Graves no Misfits. O cantor integrou a banda nos anos 1990 e gravou álbuns como American Psycho e Famous Monsters, trabalhos que seguem ligados à sua imagem entre fãs de horror punk. A programação também incluía uma apresentação acústica, formato diferente do previsto para o encerramento da turnê.
Para o público, a consequência imediata é o processo de devolução dos valores pagos. Segundo as orientações divulgadas, quem comprou pela internet deve receber o reembolso automaticamente pela plataforma usada na transação. Já quem adquiriu ingresso presencialmente precisa procurar o mesmo ponto de venda. A produtora não anunciou novas datas para substituir as apresentações canceladas.
Embora o comunicado mencione a segurança, ele não atribui expressamente a decisão a um protesto específico. A manifestação prevista para Porto Alegre e a repercussão dos posicionamentos políticos do músico fazem parte do contexto em que o anúncio ocorreu. Essa distinção importa: os protestos são públicos, mas a produtora não apresentou uma explicação detalhada sobre os fatores considerados antes de suspender os cinco shows.

Protestos e posicionamentos
A Ação Antifascista Social havia convocado um ato diante do Espaço Marin para o dia 23, caso a apresentação na capital gaúcha fosse mantida. Na chamada, o grupo criticou o apoio de Graves aos Proud Boys e afirmou: “Não aceitaremos apologia ao supremacismo branco, ao racismo em cima de palco nenhum da cidade.” A organização também relatou contatos feitos com a casa de shows para contestar a realização do evento.
Após a notícia do cancelamento em Porto Alegre, o deputado estadual Leonel Radde (PT-RS) classificou o resultado como uma “vitória dos antifascistas”. Em publicações sobre o caso, ativistas defenderam que a mobilização alcançasse as demais cidades da turnê. A suspensão posteriormente anunciada pela Caveira Velha abrangeu todo o roteiro brasileiro, e não apenas a apresentação que abriria a série de shows.
O episódio ganhou força por declarações anteriores do cantor. Em 2020, Graves publicou apoio aos Proud Boys em uma postagem posteriormente apagada. Ele também se posicionou favoravelmente às ações de 6 de janeiro de 2021, quando apoiadores de Donald Trump invadiram o Capitólio, em Washington, durante a contestação do resultado da eleição presidencial vencida por Joe Biden. Esses posicionamentos voltaram a circular com a divulgação dos shows brasileiros.
Em entrevista concedida em 2022 ao jornalista Marcelo Vieira, Graves falou sobre sua aproximação com os Proud Boys e apresentou sua própria interpretação do grupo. Disse que ingressar nele foi “a minha maneira de dizer que este é o lado que escolho; o lado da não violência”. Na mesma resposta, afirmou atuar como mentor de jovens para que não recorressem à violência e declarou: “Chega de assassinatos nas ruas.” As afirmações do músico integram o debate, sem encerrar as críticas à associação.
O que disse o cantor
Até o anúncio do cancelamento brasileiro, Graves não havia divulgado uma manifestação específica sobre as cinco datas suspensas. Existe, porém, uma declaração anterior sobre situação semelhante. Em fevereiro, após cancelamentos de apresentações na Inglaterra em meio a pressão pública, ele disse “respeitar que as pessoas possam ter opiniões diferentes ou optar por não comparecer aos shows”. Na ocasião, também falou sobre o propósito que atribui às próprias apresentações.
Segundo o cantor, seus shows “são sobre música, comunidade e paixão compartilhada”, sem promoção a “violência, ódio ou danos”. A fala se referia aos episódios na Inglaterra, não ao anúncio feito pela Caveira Velha. Por isso, ela ajuda a apresentar a posição que Graves tornou pública anteriormente, mas não deve ser tomada como uma resposta aos protestos ou ao cancelamento desta semana no Brasil.
O caso expõe uma disputa que ultrapassa a programação das casas de espetáculo. De um lado, havia espectadores interessados em assistir ao repertório do músico; de outro, movimentos que rejeitavam oferecer palco a alguém que declarou apoio aos Proud Boys. Entre essas posições, produtores e espaços precisaram lidar com a reação pública às apresentações anunciadas. No Brasil, a decisão comunicada até agora foi a suspensão integral da turnê.
Para os compradores, o próximo passo é acompanhar o reembolso conforme o canal utilizado na compra e guardar o comprovante até a devolução do dinheiro. Para o público que esperava uma nova passagem do ex-integrante do Misfits, não há informações sobre remarcação. A Caveira Velha encerrou o roteiro previsto para setembro sem anunciar uma alternativa, enquanto Graves ainda não apresentou uma declaração dirigida especificamente ao público brasileiro.













