A banda carioca 808 Punks lançou na terça-feira (27) o videoclipe de “Respeita as Mina”, faixa que aborda o machismo e reivindica maior respeito à presença feminina na sociedade e na música. Com letra de Ana Blancato, integrante do duo de trip-hop tropical B+P, a composição nasceu de uma parceria com Edu K, do DeFalla, responsável pela produção do álbum de estreia do grupo. O lançamento combina a sonoridade punk e funk da banda com uma mensagem voltada à autonomia das mulheres.
A chegada do vídeo durante o Outubro Rosa acrescenta outra dimensão à proposta. Ana Blancato enfrenta um câncer de mama, experiência que estabelece uma conexão entre o enfrentamento à misoginia e os desafios relacionados à saúde feminina. A produção também questiona comportamentos reproduzidos em ambientes alternativos, incluindo a própria cena musical independente, onde mulheres ainda relatam dificuldades para conquistar reconhecimento e ocupar espaços de decisão.
Um recado contra o machismo
A letra de “Respeita as Mina” parte de uma postura de enfrentamento aos discursos que procuram limitar a participação das mulheres. Ana Blancato explica que a composição foi pensada como uma afirmação direta, sem espaço para interpretações conciliatórias sobre a desigualdade de gênero. “Respeita as minas não é uma súplica, é uma ordem! Não vamos ser obedientes ou nos calar para o machismo”, afirma a letrista, destacando o caráter de protesto presente na música.
A tradução dessa mensagem para o audiovisual ficou sob responsabilidade de Rabu Gonzales, diretor e roteirista do videoclipe. A produção utiliza a linguagem dos debates transmitidos pela internet para representar o confronto entre posições machistas e reivindicações femininas. Entre os alvos da crítica estão discursos associados à chamada cultura redpill, frequentemente discutida por sua relação com ideias sobre hierarquia de gênero. “No clipe, porém, o desfecho é bem diferente: o debatedor que tenta diminuir o espaço feminino acaba se dando mal”, explica Gonzales.
O diretor também recorreu ao imaginário do cinema de terror e ficção científica, especialmente ao filme “A Mulher de 15 Metros”. A referência aparece na construção de imagens que ampliam simbolicamente a presença das integrantes da banda. Elementos característicos das produções de baixo orçamento, conhecidas como cinema B, ajudam a estabelecer uma estética exagerada, utilizada para ironizar as tentativas de diminuir a importância das mulheres.
A proposta visual dialoga com uma discussão recorrente sobre representatividade na indústria musical. “Em um ambiente historicamente machista como o mercado da música, o clipe coloca o resto da presença masculina onde ela realmente deve estar: servindo de suporte e base para exaltar a importância e o protagonismo feminino”, resume Rabu. A escolha estética transforma o confronto apresentado na letra em uma narrativa que mistura humor, crítica social e referências cinematográficas.

Mulheres na cena independente
Para Glenda Maldita, uma das vocalistas da 808 Punks, o debate levantado pela música precisa alcançar também os espaços culturais que costumam defender discursos de liberdade e diversidade. A artista observa que a identificação com movimentos alternativos não impede a reprodução de comportamentos discriminatórios. “A cena independente não está livre do machismo só porque se diz alternativa e ‘underground’”, afirma, ao comentar situações vividas por mulheres nesse circuito.
Entre os problemas mencionados estão episódios de assédio, questionamentos sobre capacidade técnica e dificuldades de participação em atividades de produção e organização. Essas situações, segundo a vocalista, podem aparecer mesmo em ambientes que publicamente rejeitam preconceitos. A contradição reforça a necessidade de discutir como as relações profissionais são construídas dentro da música independente, especialmente nos bastidores dos eventos e nas decisões sobre programação.
“Não queremos ser exceção, atração especial ou a banda feminina da noite. Queremos tocar, produzir, organizar e ocupar esses espaços sem ter nossa capacidade questionada por sermos mulheres.” A declaração de Glenda aponta para uma reivindicação de igualdade nas condições de trabalho e reconhecimento artístico. O objetivo apresentado pela cantora é que a participação feminina deixe de ser tratada como circunstância excepcional dentro de um cenário predominantemente masculino.
O posicionamento também ajuda a contextualizar a escolha de “Respeita as Mina” como lançamento audiovisual da banda. Ao colocar essas questões no centro da narrativa, a 808 Punks procura estimular discussões entre artistas, produtores, organizadores e público. A abordagem não se limita aos episódios mais explícitos de discriminação, alcançando práticas cotidianas que podem influenciar oportunidades profissionais e a permanência de mulheres na cena.
Outubro Rosa e próximos shows
A coincidência do lançamento com o Outubro Rosa ganhou significado particular diante do tratamento enfrentado por Ana Blancato. A compositora relaciona sua experiência com o câncer de mama às diferentes situações de resistência presentes na vida das mulheres. “A força da mulher vem de todos os lados, de dentro de casa, da maca, da luta e do rojão. Nós estamos em diversas lutas todos os dias e perseveramos. Principalmente por nós, pelas nossas e pelas que virão… Uma por todas e todas por uma! Vencendo o câncer do machismo e o de mama!”
Glenda Maldita ressalta, entretanto, que o debate não deve ficar concentrado nas campanhas de outubro. “Nosso videoclipe fala sobre poder, autonomia e respeito em uma sociedade que ainda tenta controlar nossos corpos, nossas escolhas e nossos espaços. Não queremos romantizar a força feminina como se fosse obrigação das mulheres aguentar tudo.” A declaração reforça a intenção de manter essas questões em discussão independentemente do calendário de conscientização.
Atualmente, a 808 Punks reúne André Paumgartten, Glenda Maldita, Prixxx, Xandee Farias, Formigão e JotaErre. O grupo vem ampliando sua circulação com apresentações no Brasil e no exterior, incluindo uma primeira turnê pela Alemanha. André destaca a experiência em uma ocupação punk administrada por mulheres como um dos momentos marcantes da viagem. A agenda também contempla apresentações no Uruguai, além de planos para visitar a Argentina no próximo ano.
Nos próximos meses, a banda seguirá divulgando seu trabalho em festivais e apresentações próprias. Entre os compromissos estão shows no Rio de Janeiro, em Belford Roxo, São Gonçalo e Montevidéu. “Em dezembro vamos fechar o ano com a nossa festa 808 Party no Imperator, no Rio, com a MC Carol”, revela André. “Estamos doidos pra rodar o Brasil todo”, completa. A programação encerra um período de circulação internacional e novos lançamentos para o grupo carioca.
808 Punks – Próximas apresentações
30/10 – Rio de Janeiro (RJ)
Participação no lançamento do tributo ao Black Future, no Circo Voador, com abertura da Plebe Rude.
31/10 – Belford Roxo (RJ)
Pink Punk Party – Taverna do Troll, com MC Taya, Morrida e Mamãe Caos.
01/11 – Santa Cruz (RJ)
Bonde Festival – Areninha Sandra Sá, com MC Taya, TRAMA, Project Skyline e Miçanga.
02/11 – São Gonçalo (RJ)
Festival Fora da Curva – Rock’n Beer, com MC Taya, Stay Safe, Texuga e Mamãe Caos.
06/11 – Montevidéu (Uruguai)
El CLVB 27.
05/12 – Rio de Janeiro (RJ)
808 Party – 808 Punks convida MC Carol, no Imperator.













