10 MÚSICAS ALTERNATIVAS PARA SOBREVIVER AO TRÂNSITO SEM SURTAR

Do ruído de garagem à psicodelia brasileira, uma playlist para enfrentar o congestionamento sem recorrer aos clássicos de sempre.
10 músicas alternativas para sobreviver ao trânsito

O aplicativo promete 25 minutos de Músicas. Você sai de casa, percorre três quarteirões e a previsão sobe para 42. Da janela, vê o ônibus cheio, a moto procurando passagem e uma fila que desaparece depois da curva. É nesse momento que a música deixa de ser apenas companhia: ela passa a disputar espaço com a irritação, o tédio e a vontade de estar em qualquer outro lugar.

Esta lista não parte da ideia de que toda canção precisa mencionar carros ou estradas. Algumas combinam com a pressa que não encontra saída; outras ajudam a suportar o tempo parado. Há faixas para acompanhar o caos e faixas para criar distância dele. O percurso passa pelo garage rock, pelo pós-punk, pela psicodelia e pela música independente brasileira. Pode não encurtar o caminho, mas ao menos oferece algo melhor para ouvir do que a buzina do carro ao lado.

1. “Hertz” — Amyl and the Sniffers

Se o trânsito começa com a sensação de que o dia já saiu do controle, “Hertz” é uma abertura adequada. A faixa integra Comfort to Me, segundo álbum do Amyl and the Sniffers, lançado em 2021. Em pouco mais de dois minutos, a banda australiana reúne guitarras ásperas, bateria acelerada e o vocal incisivo de Amy Taylor. Serenidade não é o que ela oferece. O que há aqui é um lugar para gastar parte da impaciência.

Existe uma graça involuntária em ouvir uma música tão inquieta enquanto se espera o sinal abrir pela terceira vez. O corpo acompanha um ritmo que o carro não pode seguir. Por isso, “Hertz” funciona melhor como descarga do que como trilha para dirigir depressa. A velocidade fica toda nos alto-falantes. Quando a faixa termina, talvez o caminho ainda esteja travado, mas você encontrou uma resposta melhor do que discutir com o veículo da frente.


2. “Pontiac 87” — Protomartyr

O título sugere um automóvel, mas “Pontiac 87” vale sobretudo pela maneira como ocupa a mente durante um percurso lento. A música aparece em The Agent Intellect, álbum lançado pelo Protomartyr em 2015. A banda de Detroit trabalha com guitarras tensas e com o vocal de Joe Casey, que soa mais interessado em conduzir uma narrativa inquietante do que em entregar um refrão confortável.

É uma escolha para o trecho em que a irritação inicial cede espaço à observação. Enquanto os carros avançam aos poucos, a faixa cria uma paisagem própria, cheia de detalhes que exigem atenção. O pós-punk do Protomartyr não tenta adoçar a situação; sua força está em dar forma a um mal-estar reconhecível. Quem enfrenta diariamente o mesmo trajeto pode encontrar aí uma companhia inesperada: uma música que entende o peso da rotina sem precisar descrever um engarrafamento.


3. “Passeio” — Boogarins

O nome parece uma promessa otimista para quem está cercado por ônibus e obras na pista. “Passeio”, do Boogarins, integra Sombrou Dúvida, lançado em 2019, e oferece outro tipo de fuga: a vontade de dividir o caminho com alguém. Em meio à psicodelia da banda goiana, a letra aproxima companhia e deslocamento, mesmo quando tudo ao redor parece convidar ao mau humor.

A faixa lembra que uma playlist para o trânsito também precisa saber diminuir a pressão. Ela não tenta vencer as buzinas no volume nem transformar atraso em aventura. Abre espaço para uma ideia mais simples: às vezes, o destino importa menos do que a pessoa que está ao lado. Para quem dirige sozinho, a canção pode trazer à memória um encontro marcado depois do expediente. Para quem está acompanhado, talvez seja o momento de deixar o mapa em paz e começar uma conversa.


4. “Road Train” — King Gizzard & The Lizard Wizard

“Road Train” chama atenção pelo título, mas sua verdadeira ligação com o trânsito está na repetição. A faixa encerra Nonagon Infinity, disco de 2016 concebido para que a última música se conecte à primeira. Assim, o álbum pode recomeçar sem uma pausa claramente definida. Quem já passou vários minutos avançando, parando e repetindo exatamente o mesmo movimento conhece bem a sensação de estar preso num ciclo.

Musicalmente, a banda australiana oferece garage rock pesado, psicodelia e um ritmo que parece empurrar a faixa adiante. O contraste com a fila imóvel rende parte da diversão. Se a viagem for longa, ouvir o disco inteiro acrescenta outra camada à experiência: quando tudo volta ao começo, parece que até a playlist deu uma volta no quarteirão e parou no mesmo lugar. Pelo menos ela encontrou uma forma criativa de fazer isso.


5. “Crosstown Traffic” — Jimi Hendrix

O título parece feito para esta lista, mas há uma ironia: Hendrix usa o tráfego entre bairros como imagem de uma relação difícil, não para relatar um engarrafamento. “Crosstown Traffic” integra Electric Ladyland, álbum lançado pela Jimi Hendrix Experience em 1968. Curta e cheia de movimento, a gravação reúne um riff marcante e camadas de som que fazem muita coisa acontecer em poucos minutos.

Hendrix é o nome mais consagrado desta seleção, mas a inventividade da faixa justifica sua presença entre artistas de diferentes cenas alternativas. Ela brinca com a linguagem da rua sem depender de uma leitura literal sobre carros. Durante uma viagem parada, seu impulso produz o contraste perfeito: a música atravessa a cidade enquanto o motorista ainda espera a próxima abertura do sinal. É um momento para deixar a pressa com a guitarra e manter a atenção no caminho.


6. “Grounds” — IDLES

“Grounds”, presente em Ultra Mono, de 2020, traz o IDLES num registro firme, sustentado por batida marcada, baixo e guitarras que avançam com peso. É música para quando a demora deixa de ser surpresa e passa a ser mais uma exigência do dia. Seu impulso combina com a disposição necessária para continuar depois de um expediente cansativo e de uma viagem que parece se alongar a cada atualização do aplicativo.

Isso não significa transformar o trânsito numa disputa. O interesse está em levar a energia da canção para dentro, onde ela pode ajudar a atravessar o cansaço. Há músicas que apenas preenchem o silêncio de uma viagem; “Grounds” exige presença. Quando a atenção começa a se dispersar depois de muitos minutos na mesma via, sua batida devolve algum ritmo ao trajeto. O carro talvez continue parado, mas a cabeça encontra outro ponto de apoio.


7. “Afrique Victime” — Mdou Moctar

O congestionamento estreita o mundo até ele parecer composto apenas pela próxima conversão. “Afrique Victime” abre outra perspectiva. Na faixa que dá nome ao álbum de 2021, Mdou Moctar combina guitarra elétrica expressiva e o impulso coletivo de sua banda com temas ligados à exploração sofrida por países africanos. Reduzir a música a uma trilha agradável para dirigir deixaria de fora parte importante do que ela comunica.

Sua duração permite acompanhar mudanças de intensidade sem procurar imediatamente a próxima faixa. É uma escolha para trajetos longos, quando já não adianta conferir o horário de chegada a cada minuto. A guitarra prende a atenção, mas a música também convida a descobrir mais sobre o artista nigerino e o contexto de seu trabalho. Uma playlist alternativa cumpre bem seu papel quando, além de ajudar numa tarde difícil, deixa uma descoberta para ouvir novamente em casa.


8. “The Dream” — Thee Oh Sees

Há engarrafamentos que parecem alongar o tempo. Para esses momentos, “The Dream” oferece uma resposta à altura. A faixa integra Carrion Crawler/The Dream, lançamento de 2011 dos Thee Oh Sees, e se desenvolve sobre uma base insistente, atravessada por guitarras e vocais que mantêm a tensão em movimento. É o tipo de música que ocupa a viagem inteira por alguns minutos, sem pedir licença.

Uma composição repetitiva poderia tornar o trajeto ainda mais cansativo. Aqui acontece algo mais interessante: pequenas mudanças passam a importar. Um detalhe na guitarra, uma virada da bateria, uma nova camada de ruído. A atenção sai do relógio e acompanha o que a banda está construindo. Para quem gosta de rock de garagem, este pode ser o ponto alto da lista. Para quem ainda não conhece o grupo, é uma entrada intensa num som que transforma insistência em excitação.


9. “Finger” — Ty Segall

“Finger” começa sem entregar imediatamente toda a sua força. Incluída em Melted, álbum de Ty Segall lançado em 2010, a faixa ganha corpo entre distorção e melodias que resistem ao som áspero. É uma boa companhia para aquela parte do percurso em que tudo parecia resolvido, até surgir outra fila depois da curva. A música também muda de feição, mas de um jeito bem mais prazeroso.

Ty Segall trabalha no encontro entre garage rock e psicodelia, e “Finger” mostra por que uma gravação cheia de arestas pode soar tão viva. O barulho não encobre a canção; faz parte de sua personalidade. Há dias em que uma produção excessivamente limpa parece distante da experiência real de voltar para casa. Esta faixa chega com atrito, como o próprio trajeto. Seu mérito é fazer algo envolvente com ele.


10. “August 10” — Khruangbin

Depois de tanta tensão, a lista termina com espaço para respirar. “August 10” integra Con Todo El Mundo, álbum de 2018 do Khruangbin, e aposta na conversa entre baixo, guitarra e bateria. A faixa dispensa grandes explosões: sua força vem do balanço e da maneira como cada instrumento deixa lugar para os outros.

Ela cabe no fim da viagem, quando já se sabe que reclamar não fará o percurso terminar antes. Também funciona no transporte público, com a cidade passando pela janela e nenhuma obrigação de acompanhar cada mudança do mapa. Entre as músicas desta seleção, é talvez a que menos exige do ouvinte. Isso não a torna menos interessante. Depois de atravessar o ruído da rua e o de várias guitarras, encerrar com um pouco de espaço pode ser exatamente o necessário.


Sobreviver ao trânsito não exige uma playlist permanentemente acelerada. Às vezes, o punk dá vazão à impaciência; em outras, uma faixa psicodélica ajuda a perceber que ainda existe alguma coisa interessante acontecendo durante a espera. O caminho continua longo, e nenhuma música resolve isso. Mas chegar em casa com uma banda nova para pesquisar já é melhor do que levar o congestionamento inteiro junto.

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