O Festival de Cannes costuma chamar atenção por suas estreias aguardadas, celebridades no tapete vermelho e disputas acirradas pela Palma de Ouro. Mas, entre os eventos paralelos mais queridos do público e da imprensa especializada, existe uma premiação que há anos conquista espaço por seu tom inusitado e afetivo: a Palma Canina. Em 2026, quem roubou a cena foi Yuri, uma cachorrinha resgatada no Chile que se tornou protagonista do filme “La perra”, dirigido por Dominga Sotomayor.
A premiação informal aconteceu nesta sexta-feira (22), em uma praia no calçadão de Cannes, mantendo a tradição descontraída do evento criado em 2001. O reconhecimento celebra atuações de cães no cinema e acabou se transformando em um símbolo alternativo do festival francês, atraindo curiosidade tanto do público quanto de cineastas. Neste ano, o prêmio ganhou ainda mais repercussão por destacar uma produção latino-americana protagonizada por uma cadela abandonada que encontrou nas telas um novo destino.
Além da presença da diretora chilena, o longa também chama atenção por contar com o brasileiro Selton Mello no elenco. “La perra” foi exibido na Quinzena dos Realizadores, uma das mostras paralelas mais importantes de Cannes, conhecida por valorizar produções autorais e cineastas de linguagem mais experimental.
Uma premiação que virou tradição em Cannes
Criada à margem da programação oficial do Festival de Cannes, a Palma Canina nasceu quase como uma brincadeira entre críticos e jornalistas apaixonados por cinema e animais. Com o passar dos anos, porém, o prêmio ganhou notoriedade internacional e passou a fazer parte do imaginário do festival. Hoje, muitos espectadores aguardam o anúncio dos vencedores com o mesmo entusiasmo reservado a algumas categorias tradicionais.
A cerimônia mantém um espírito descontraído, distante do formalismo habitual das grandes premiações do cinema. O troféu entregue aos vencedores é uma coleira vermelha de couro, símbolo que acabou se tornando marca registrada do evento. Ao receber o prêmio por Yuri, Dominga Sotomayor demonstrou emoção ao comentar a conquista do longa chileno.
“Não poderia imaginar um prêmio mais especial para ‘La perra’”, declarou a diretora durante a cerimônia.
O reconhecimento também reforça a crescente presença de produções latino-americanas em festivais internacionais. Nos últimos anos, Cannes tem aberto espaço para narrativas mais intimistas e regionais, especialmente filmes que exploram questões humanas através de perspectivas pessoais e simbólicas. Em “La perra”, a relação entre uma mulher isolada em uma ilha chilena e uma cachorrinha abandonada funciona justamente como metáfora emocional para temas ligados à memória, solidão e trauma.
Outro detalhe que chamou atenção nesta edição foi o destaque feminino. Tanto “La perra” quanto o filme que recebeu o Grande Prêmio do Júri foram dirigidos por mulheres e protagonizados por cadelas, algo celebrado pelos jurados durante o evento.

O enredo de “La perra” e a relação entre Silvia e Yuri
Apresentado na Quinzena dos Realizadores, “La perra” acompanha Silvia, uma coletora de algas que vive isolada em uma ilha do Chile. Sua rotina muda quando ela encontra Yuri, uma filhote abandonada, e decide adotá-la quase sem pensar. A partir desse encontro, o filme constrói uma narrativa emocional marcada por lembranças dolorosas, conflitos internos e descobertas pessoais.
Segundo Dominga Sotomayor, a adoção da cachorrinha acontece de forma impulsiva, mas acaba desencadeando questões profundas na vida da protagonista. Em entrevista à AFP, a diretora explicou que Silvia acolhe Yuri sem imaginar o impacto emocional que a presença do animal provocaria.
A relação entre humanos e cães já apareceu diversas vezes no cinema como elemento afetivo ou dramático, mas “La perra” aposta em uma abordagem mais contemplativa e simbólica. O isolamento geográfico da personagem principal contribui para a atmosfera introspectiva do filme, enquanto Yuri funciona como catalisadora de emoções reprimidas.
Outro aspecto que despertou interesse do público foi o fato de Yuri ter sido interpretada por duas cachorras diferentes — uma filhote e uma adulta. Ambas foram resgatadas no Chile e posteriormente adotadas por famílias, segundo revelou a diretora. O detalhe acabou ampliando ainda mais a identificação emocional em torno da produção.
A presença de Selton Mello no elenco também ajudou a aproximar o longa do público brasileiro. O ator vem consolidando uma carreira internacional discreta, participando de produções autorais e projetos ligados ao circuito de festivais. Sua participação em “La perra” chamou atenção especialmente entre os espectadores latino-americanos presentes em Cannes.
Palma Canina reforça o lado afetivo do cinema
Apesar do tom informal, a Palma Canina se tornou uma das tradições mais queridas de Cannes justamente por revelar um lado menos rígido do festival. Em meio às disputas acirradas por prêmios oficiais, o evento dedicado aos cães oferece uma pausa leve e bem-humorada, mas sem deixar de valorizar o impacto emocional que os animais exercem nas histórias cinematográficas.
Ao longo dos anos, diversos filmes conhecidos passaram pela premiação. Entre os vencedores históricos está Brandy, cão que apareceu em “Era uma vez em… Hollywood”. Na ocasião, Quentin Tarantino recebeu pessoalmente o prêmio em nome do animal. Já em 2021, Tilda Swinton aceitou a homenagem pelos próprios cães após suas participações em “The Souvenir”.
Nesta edição, além de Yuri, o Grande Prêmio do Júri ficou com Lola, uma border terrier presente no filme “I see buildings fall like lightning”, dirigido pela britânica Clio Barnard. O resultado reforçou o protagonismo feminino da seleção de 2026, algo destacado pelos jurados durante a cerimônia.
Mais do que uma curiosidade do festival, a Palma Canina também evidencia como os animais continuam ocupando espaço importante no cinema contemporâneo. Seja em dramas intimistas, aventuras familiares ou grandes produções hollywoodianas, cães frequentemente se transformam em personagens capazes de gerar forte conexão emocional com o público.
No caso de Yuri, a trajetória ganhou um simbolismo ainda mais forte por envolver uma cachorrinha abandonada que acabou se tornando uma das figuras mais comentadas de Cannes neste ano. Entre flashes, entrevistas e aplausos, a cadela chilena conseguiu transformar uma história de abandono em um dos momentos mais afetivos do festival francês.



