A cidade de Salvador volta a receber um dos eventos mais importantes da música instrumental brasileira nos próximos dias. Entre 27 e 31 de maio, o bairro do Rio Vermelho será tomado pela programação da sétima edição do Festival Salvador Jazz, que reúne artistas de diferentes gerações e estilos em apresentações gratuitas no Largo da Mariquita. Em 2026, o evento reforça sua proposta de aproximar o jazz de outras linguagens musicais e destaca nomes como Amaro Freitas e Sandra Sá entre as principais atrações.
Com expectativa de receber mais de 15 mil pessoas durante os cinco dias de atividades, o festival aposta em uma programação ampla, que vai além dos shows. A iniciativa inclui masterclasses, encontros formativos e debates voltados para músicos, estudantes e admiradores da música instrumental. A ideia da organização é criar um ambiente de troca artística e valorização da produção nacional, especialmente de artistas ligados às raízes afro-brasileiras.
A curadoria desta edição ficou sob responsabilidade da produtora cultural Fernanda Bezerra e do músico e historiador Fabrício Mota. Segundo os organizadores, a intenção foi ampliar ainda mais o diálogo entre o jazz e ritmos brasileiros, africanos, soul, R&B e MPB, reforçando o caráter diverso da música produzida no país. O resultado é uma programação que mistura tradição, improvisação e novas sonoridades em um dos bairros mais simbólicos da capital baiana.
Festival amplia diálogo entre jazz e música afro-brasileira
Ao longo de suas edições, o Festival Salvador Jazz consolidou espaço dentro do circuito cultural brasileiro por apresentar uma leitura menos tradicional do jazz. Em vez de se limitar às referências clássicas norte-americanas, o evento passou a valorizar encontros entre a música instrumental e ritmos ligados à cultura afro-diaspórica brasileira.
Essa proposta aparece com força na programação deste ano. Entre os destaques do sábado, dia 30 de maio, está o show do pianista pernambucano Amaro Freitas, conhecido internacionalmente pela forma como mistura jazz contemporâneo com maracatu, frevo e ritmos populares do Nordeste. O músico se tornou uma das figuras mais celebradas da nova geração do jazz brasileiro e deve apresentar repertório marcado por improvisação, intensidade rítmica e forte conexão com as tradições culturais pernambucanas.
A mesma noite contará ainda com apresentações da contrabaixista Camila Rocha, da banda Skanibais e do grupo A Cor do Som. Conhecida por unir rock progressivo, jazz e música brasileira, A Cor do Som segue como referência para artistas interessados em cruzamentos sonoros fora do convencional.
Já o grupo Skanibais leva ao palco uma proposta marcada pela fusão entre ska jamaicano e ritmos nordestinos. Essa combinação reforça justamente a identidade plural que o festival busca apresentar ao público. A diversidade estética também aparece na escolha dos artistas convidados, que transitam entre instrumental, soul, reggae, música afro-baiana e experimentações contemporâneas.
Segundo os organizadores, o objetivo do festival é mostrar como o jazz pode dialogar naturalmente com diferentes tradições musicais brasileiras sem perder sua essência ligada à improvisação e à liberdade criativa.

Sandra Sá reforça defesa da música brasileira no evento
No domingo, 31 de maio, a programação ganha outro grande destaque com a apresentação de Sandra Sá. Dona de uma das vozes mais reconhecidas da soul music brasileira, a cantora sobe ao palco levando repertório construído ao longo de mais de quatro décadas de carreira.
Além da importância musical, Sandra Sá também chamou atenção recentemente por comentar a valorização insuficiente de artistas brasileiros diante da forte presença de referências internacionais na indústria cultural. Em nota divulgada pelo festival, a cantora fez uma reflexão sobre a necessidade de união entre músicos nacionais e da valorização das raízes culturais brasileiras.
“O nosso tambor é muito forte, né, gente? Nosso tambor é uma força incrível. Só que aqui no Brasil, ninguém fala mais em Frank Sinatra do que em Emílio Santiago. Imperdoável falar assim. Aí falam assim tantos em tantos caras, tantos cantores, tantos artistas gringos. E aqui a gente tem uma ‘crioleva’ da melhor qualidade, mas tá faltando a consciência do próprio artista. O próprio artista insiste em estar junto e misturado, quando deveriam estar ‘unidos e liquidificados’. A gente devia estar assim porque o nosso som é foda, o nosso som é a realidade, é a verdade, é o sangue. Sabe? É a veia, é a alma. Tá faltando a gente se conscientizar e estar mais atento”.
A declaração repercutiu entre músicos e admiradores da cena brasileira por tocar em um debate antigo sobre reconhecimento cultural e fortalecimento da música nacional. A presença de Sandra Sá no festival também reforça a proposta do evento de aproximar o jazz de gêneros como soul, funk e música negra brasileira.
No mesmo dia, o público também poderá assistir aos shows do Grupo Garagem e do coletivo Aguidavi do Jêje, formado por percussionistas ligados ao Terreiro do Bogum. A apresentação promete destacar ritmos percussivos afro-baianos e reafirmar a conexão entre ancestralidade, espiritualidade e música.
Programação gratuita fortalece cena cultural em Salvador
Além dos shows principais, o Festival Salvador Jazz mantém sua tradição de oferecer atividades educativas voltadas para formação artística e troca de experiências. Entre os dias 27 e 29 de maio, serão realizadas masterclasses com músicos convidados e profissionais da área fonográfica.
Entre os temas confirmados estão “Blues: do Mississippi ao Rio Vermelho”, ministrada por Eric Assmar, “Sambando pra chegar”, com Tedy Santana, e “Como nasce um fonograma: Processos fonográficos para Artistas Independentes”. As atividades procuram aproximar estudantes e artistas independentes dos bastidores da produção musical contemporânea.
A proposta educativa se tornou uma das marcas do festival ao longo dos anos. Mais do que reunir apresentações musicais, o evento busca criar um espaço permanente de valorização da cultura instrumental brasileira e de fortalecimento da cena independente.
Outro ponto destacado pela organização é o acesso gratuito às atividades. Em um cenário onde grandes festivais frequentemente possuem ingressos elevados, a realização de uma programação aberta ao público amplia o alcance cultural do evento e fortalece a ocupação artística de espaços urbanos em Salvador.
Com shows concentrados no Largo da Mariquita, no coração do Rio Vermelho, o Festival Salvador Jazz também movimenta o bairro historicamente associado à vida cultural da capital baiana. Restaurantes, bares e espaços culturais da região costumam receber aumento no fluxo de visitantes durante os dias de programação.
A combinação entre música instrumental, ritmos afro-brasileiros e acesso gratuito ajuda a explicar o crescimento do festival nos últimos anos. Em 2026, a expectativa é que o evento consolide ainda mais sua posição entre os principais encontros dedicados ao jazz e à música brasileira contemporânea.



