SÁ & GUARABYRA: COMO A DUPLA SE REINVENTOU APÓS ZÉ RODRIX

A saída de Zé Rodrix poderia ter encerrado aquela história, mas abriu caminho para uma parceria que atravessou mais de cinco décadas
Sá & Guarabyra: a trajetória da dupla após Zé Rodrix

Quando Zé Rodrix deixou Sá, Rodrix & Guarabyra em 1973, uma etapa importante do chamado rock rural brasileiro chegava ao fim. Luiz Carlos Sá e Guttemberg Guarabyra, porém, não encerraram a parceria. Os dois seguiram juntos como Sá & Guarabyra e começaram a construir uma história que, com o passar dos anos, ganharia dimensão própria, com discos, sucessos populares e composições gravadas por outros nomes da música brasileira.

O primeiro grande teste dessa nova configuração veio rapidamente. Em 1974, apenas um ano depois da mudança, a dupla lançou “Nunca”, pela Odeon. O disco estabelecia oficialmente Sá & Guarabyra sem Rodrix e mostrava que a continuidade não seria apenas uma tentativa de preservar o que havia sido feito anteriormente. Havia um novo repertório para apresentar e uma identidade a desenvolver.

A decisão funcionou. Nas décadas seguintes, Sá & Guarabyra construíram uma discografia própria e viram músicas como “Sobradinho”, “Espanhola”, “Dona”, “Sete Marias” e “Caçador de Mim” ocuparem diferentes espaços na cultura brasileira. Algumas permaneceram fortemente associadas à dupla; outras chegaram a públicos ainda maiores por meio de gravações de outros intérpretes.

O curioso é perceber que aquilo que poderia parecer apenas a continuação de um trio acabou se tornando uma carreira de mais de meio século. Quando Sá & Guarabyra anunciaram o encerramento das atividades como dupla, em 2025, eram 53 anos de parceria contabilizados pelos próprios músicos.

A vida depois de Rodrix

“Nunca” é um documento especialmente interessante dessa passagem. O álbum, lançado em 1974, contém 12 músicas. O repertório inclui “As Canções Que Eu Faço”, “Canção da Estrada”, “Justo Momento”, “São Nicolau”, “Verão do Cometa”, “Esses Cabides Vazios”, “Nuvens D’água”, “Divina Decadência”, “Voar É Como o Passarinho” e “Apreciando a Cidade”.

A maior parte das composições é assinada conjuntamente por Sá e Guarabyra. Há duas exceções importantes: “Terras do Sul”, parceria de Sá com Sérgio Hinds, e “Coisa à Toa”, creditada a Sá, Zé Rodrix e Guarabyra. Ou seja, embora marcasse o nascimento fonográfico da dupla, o álbum ainda carregava uma pequena ligação autoral com o período anterior.

Outro detalhe ajuda a colocar “Nunca” dentro da cena brasileira daquele momento: o acompanhamento instrumental ficou a cargo de O Terço. A ficha técnica registra Sérgio Hinds, Flávio Venturini, Moreno, Sérgio Magrão e César das Mercês. O encontro aproxima duas histórias importantes do rock brasileiro dos anos 1970 e mostra que Sá & Guarabyra estavam cercados por músicos que também exploravam possibilidades fora das divisões rígidas entre rock e MPB.

Depois veio “Cadernos de Viagem”, lançado em 1975. Mas seria alguns anos mais tarde que a dupla alcançaria um de seus períodos mais conhecidos.

Em 1977, Sá & Guarabyra lançaram “Pirão de Peixe com Pimenta”. O álbum traz “Sobradinho”, composição dos dois que se tornaria uma das músicas mais identificadas com a dupla, além de “Espanhola”, parceria de Guarabyra com Flávio Venturini. O repertório ainda incluía “Trem de Pirapora”, “João Sem-Terra”, “Coração de Maçã”, “Cinamomo”, “Canção dos Piratas” e “Água Corrente”.

Décadas depois, o próprio Sá recordaria que o disco havia alcançado grande repercussão, destacando justamente “Sobradinho” e “Espanhola” e lembrando o aumento da presença da dupla nas rádios e nos palcos naquele período.

O que começou como uma nova fase nos anos 1970 atravessou gerações e se transformou em uma parceria de mais de cinco décadas.

Quando as músicas cresceram

O sucesso de “Pirão de Peixe com Pimenta” colocou Sá & Guarabyra em uma posição diferente daquela enfrentada no início da carreira como dupla. Em 1979, chegou “Quatro”, trabalho que sucedeu o disco de 1977 e ampliou as possibilidades musicais exploradas pelos dois.

Segundo relato de Sá recuperado pelo Sesc São Paulo, ele pensava naquele momento em uma continuidade de “Pirão de Peixe com Pimenta”. O álbum, entretanto, acabou reunindo caminhos diferentes e registrando uma dupla que já tinha segurança suficiente para não precisar simplesmente repetir a fórmula do trabalho anterior.

Essa consolidação fica ainda mais evidente no começo dos anos 1980.

Entre 27 e 31 de outubro de 1982, Sá & Guarabyra gravaram no Teatro Paulo Eiró, em São Paulo, o material que seria lançado em 1983 como “10 Anos Juntos”. O álbum ao vivo funciona quase como uma fotografia do tamanho que o repertório havia adquirido até então.

Estavam ali “Espanhola”, “Sete Marias” e “Sobradinho”, além de músicas relacionadas à trajetória anterior. Mas o disco também registrou duas composições que teriam enorme circulação: “Dona”, de Sá e Guarabyra, e “Caçador de Mim”, composta por Sá e Sérgio Magrão.

A cronologia é importante porque “Dona” acabaria conhecida por uma parcela enorme do público através de outra interpretação. A gravação do Roupa Nova ganhou projeção nacional ao integrar a trilha de “Roque Santeiro”, exibida pela TV Globo em 1985. O sucesso dessa versão ajudou a levar a composição de Sá & Guarabyra muito além do público que já acompanhava a dupla.

“Caçador de Mim” viveu processo semelhante ao ganhar uma interpretação marcante de Milton Nascimento. Nesse caso, a autoria é de Luiz Carlos Sá e Sérgio Magrão, informação registrada também no álbum “10 Anos Juntos”.

Esse trânsito talvez seja uma das características mais interessantes da trajetória de Sá & Guarabyra. Eles podiam ocupar o palco como intérpretes de um repertório muito particular e, ao mesmo tempo, fazer suas composições viajarem por outras vozes e chegarem a públicos que sequer tinham contato direto com seus discos.

Um som entre dois mundos

O rótulo “rock rural” acompanhou Sá & Guarabyra durante praticamente toda a carreira. Embora seja útil para localizar historicamente aquela música, ele nunca explicou sozinho tudo o que a dupla produziu.

A ideia nasceu de uma aproximação entre elementos ligados ao rock e referências brasileiras, especialmente sonoridades e imagens relacionadas ao interior. Na prática, porém, os discos mostram uma mistura mais ampla. Violões e violas conviviam com guitarras, teclados, baixo e bateria, enquanto as composições podiam olhar para estradas, cidades, paisagens e personagens brasileiros.

Essa combinação fica especialmente evidente quando se observa a distância entre “Nunca” e os trabalhos posteriores. A dupla não abandonou as características que a conectavam às origens, mas também não permaneceu congelada na estética do começo dos anos 1970.

Um registro recentemente recuperado reforça essa percepção. Em março de 2026, o Sesc São Paulo lançou, dentro do projeto Relicário, uma gravação de apresentação realizada por Sá & Guarabyra no Sesc Consolação em 1º de setembro de 1979. O show aconteceu justamente no período em que “Quatro” sucedia o bem-sucedido “Pirão de Peixe com Pimenta”. Das 19 músicas daquele repertório, 11 pertenciam ao álbum que acabara de ser lançado.

O documento é interessante porque permite observar a dupla em pleno desenvolvimento, antes de músicas como “Dona” ampliarem ainda mais seu reconhecimento popular.

Zé Rodrix ainda voltaria a cruzar essa história. Décadas depois da separação, Sá, Rodrix & Guarabyra retomaram a formação original em projetos e apresentações. Isso, no entanto, já acontecia quando Sá & Guarabyra possuíam uma trajetória própria plenamente estabelecida.

O reencontro não transformou os anos sem Rodrix em um intervalo. Ao contrário: quando a formação original voltou a dividir o palco, Sá e Guarabyra já carregavam consigo décadas de repertório criado como dupla.

Ao longo dos anos 1970, Sá & Guarabyra ampliaram uma linguagem que transitava entre rock, folk e referências brasileiras.

Uma parceria de 53 anos

Toda parceria musical muito longa acaba enfrentando mudanças de mercado, público e rotina. Sá & Guarabyra atravessaram a era do LP, a transformação da indústria fonográfica, o CD, a digitalização da música e a chegada do streaming sem abandonar completamente os palcos.

A despedida veio apenas em abril de 2025.

Em comunicado divulgado nas redes sociais, os músicos anunciaram que deixariam de atuar como dupla depois de 53 anos, mas ressaltaram que ambos continuariam suas atividades individuais. A explicação apresentada por eles foi bastante diferente das histórias de rompimentos conflituosos que costumam cercar grupos longevos.

Segundo Sá e Guarabyra, as razões eram “causas naturais”. Os dois já viviam havia bastante tempo em cidades e estados diferentes, situação que os levou a criar raízes e trabalhar com parceiros mais próximos de suas respectivas rotinas. O comunicado também fez questão de esclarecer que a decisão havia ocorrido espontaneamente e sem divergências entre os músicos.

Depois do anúncio, ainda houve apresentações de despedida. Em julho de 2025, por exemplo, Sá & Guarabyra fizeram no Palácio das Artes sua última apresentação em Belo Horizonte como dupla. O show teve 18 músicas e terminou com “Dona” no bis.

O encerramento ajuda a dimensionar o que aconteceu depois daquela primeira ruptura, em 1973. Quando Zé Rodrix saiu, Sá e Guarabyra poderiam simplesmente ter seguido caminhos separados ou carregado por pouco tempo uma versão reduzida do projeto anterior.

Fizeram o contrário.

“Nunca” abriu uma nova discografia. “Pirão de Peixe com Pimenta” trouxe algumas das músicas fundamentais da dupla. “10 Anos Juntos” mostrou que, apenas uma década depois, já existia repertório suficiente para olhar para trás. “Dona”, “Sobradinho”, “Espanhola”, “Sete Marias” e outras composições continuaram circulando muito depois de seus lançamentos originais.

Por isso, olhar para Sá & Guarabyra apenas como os dois músicos que continuaram depois de Zé Rodrix reduz uma história muito maior. A saída do terceiro integrante foi o ponto de partida para uma segunda vida artística que durou mais de meio século.

No fim, a curiosidade está justamente aí: uma separação que poderia significar o encerramento de um projeto acabou abrindo espaço para uma das parcerias mais duradouras ligadas ao rock rural brasileiro.

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