FILMES SOBRE BELCHIOR, ELZA E NEY ESTREIAM NO FESTIVAL DO RIO

Documentários dedicados também a Aldir Blanc e Maria Alcina integram a programação da 28ª edição do evento, marcada para outubro no Rio de Janeiro.
Festival do Rio exibe filmes sobre Belchior, Elza e Ney

A música brasileira terá espaço de destaque na 28ª edição do Festival do Rio, programada para ocorrer entre 1º e 11 de outubro, na capital fluminense. A programação reúne documentários dedicados a Aldir Blanc, Belchior, Elza Soares, Maria Alcina e Ney Matogrosso, artistas de diferentes gerações e trajetórias, mas com presença marcante na cultura nacional. As produções serão distribuídas por mostras competitivas e sessões especiais do festival, abordando desde discos históricos até bastidores de processos criativos.

Entre os títulos anunciados estão “Alucinação”, “Elza”, “Aldir Blanc – Resposta ao tempo”, “Alegria Brasil – Estrelando Maria Alcina” e “Ney por trás das máscaras”. Os filmes exploram momentos distintos da música brasileira e também ajudam a recuperar contextos políticos, sociais e culturais relacionados aos artistas retratados. Parte das produções chega ao evento em caráter competitivo, enquanto outras serão apresentadas dentro de segmentos voltados a perfis e trajetórias.

Belchior e Elza em foco

“Alucinação”, dirigido por Renato Terra, Marcos Caetano e Leo Caetano, integra a mostra competitiva Première Brasil Documentário. A produção parte do álbum lançado por Belchior em 1976 para construir um retrato do Brasil durante a década de 1970, período marcado pela ditadura militar e pela repressão. Em vez de tratar apenas da trajetória pessoal do compositor cearense, o longa utiliza as canções como caminho para revisitar aquele contexto.

O disco “Alucinação”, que completa 50 anos em 2026, permanece como um dos trabalhos mais reconhecidos da carreira de Belchior. O documentário confronta as músicas do álbum com imagens produzidas naquele período, buscando ampliar a leitura de composições que abordavam juventude, deslocamento, comportamento e as tensões do país. O projeto tem participação de Globo Filmes, GloboNews e Canal Brasil.

Na mesma competição estará “Elza”, dirigido por Eryk Rocha. O documentário apresenta Elza Soares a partir da própria voz da cantora, acompanhando uma trajetória que atravessou mais de seis décadas da música brasileira. Projetada nacionalmente no fim dos anos 1950, Elza manteve atividade artística até 2022, quando morreu aos 91 anos, deixando uma discografia marcada por constantes mudanças de repertório e linguagem.

A produção, realizada pela Globo Filmes e GloboNews, coloca a artista no centro da narrativa, recuperando sua visão sobre carreira, música e experiências pessoais. A presença dos dois filmes na competição aproxima histórias bastante diferentes, mas ligadas pela maneira como Belchior e Elza transformaram inquietações de suas épocas em trabalhos que continuaram circulando entre novas gerações.

“Alucinação”, de Belchior, conduz o documentário por um Brasil marcado pela repressão dos anos 1970.

Aldir Blanc e Maria Alcina

A Mostra Retratos da Première Brasil receberá “Aldir Blanc – Resposta ao tempo”, documentário dirigido e roteirizado por Marcus Fernando e Hugo Sukman. O título faz referência ao bolero composto por Aldir Blanc e Cristovão Bastos, conhecido especialmente pela gravação feita por Nana Caymmi em 1998. Antes de ganhar o nome definitivo, o projeto havia sido anunciado como “Aldir Blanc – Ourives do palavreado”.

O longa procura entrar no universo criativo do compositor carioca, responsável por uma obra fortemente associada ao cotidiano do Rio de Janeiro. Parceiro de nomes como João Bosco e Guinga, Aldir transformou bairros, personagens, conversas e situações urbanas em matéria-prima para canções e crônicas. O documentário concentra atenção especialmente no subúrbio e na Zona Norte carioca, territórios recorrentes em sua produção.

Também na Mostra Retratos estará “Alegria Brasil – Estrelando Maria Alcina”, escrito e dirigido pela cineasta Elizabete Martins Campos. O filme acompanha a história da cantora mineira, revelada nacionalmente em um festival de música em 1972. Dona de interpretação e presença de palco particulares, Maria Alcina se tornou uma personagem pouco convencional dentro da música popular brasileira daquele período.

Sua postura também provocou reações da censura durante a década de 1970. O comportamento expansivo e libertário da cantora foi encarado como afronta por setores do governo ditatorial, fazendo com que sua trajetória artística também carregasse marcas daquele ambiente político. O documentário recupera esse percurso e coloca Maria Alcina entre as figuras revisitadas pelo Festival do Rio a partir de suas próprias singularidades.

Ney fora dos holofotes

Fora da competição, “Ney por trás das máscaras” amplia a presença da música na programação. O documentário é dirigido por Esmir Filho, cineasta responsável por “Homem com H”, cinebiografia de Ney Matogrosso lançada em 2025. Desta vez, porém, o foco deixa de ser uma reconstrução ampla da vida do cantor para acompanhar outro momento relacionado à sua imagem e ao alcance de sua obra.

A produção acompanha os bastidores do processo criativo do desfile da Imperatriz Leopoldinense em homenagem a Ney Matogrosso. A escola de samba leva para a avenida referências ligadas à carreira e à estética do artista, conhecido por construir uma identidade visual tão reconhecível quanto sua voz. O filme observa justamente o trabalho necessário para transformar essas referências em elementos de um desfile de Carnaval.

Ao mesmo tempo, Esmir Filho busca registrar Ney fora do ambiente tradicional dos palcos. A proposta de “Ney por trás das máscaras”, coprodução da Globo Filmes, é aproximar o público de aspectos menos expostos do cantor, estabelecendo um contraste com figurinos, maquiagem, iluminação e personagens que fizeram parte de sua presença cênica durante décadas de carreira.

Com os cinco documentários, o Festival do Rio reúne diferentes caminhos para observar a memória musical brasileira no cinema. Belchior, Elza Soares, Aldir Blanc, Maria Alcina e Ney Matogrosso aparecem sob perspectivas próprias, sem que os filmes precisem seguir uma mesma fórmula biográfica. A programação aposta tanto na recuperação histórica quanto em registros de criação, identidade e comportamento ligados à obra desses artistas.

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