O Dizturbia, projeto criado por Dani Buarque, da The Mönic, e pelo guitarrista e beatmaker Fabrizio Martinelli, conhecido por trabalhos com Hateen, Maguerbes e Street Bulldogs, inicia uma nova etapa com o lançamento do single duplo “Trégua”. O trabalho reúne a faixa que dá nome ao lançamento e “Inadequado (Sou um ET)”, ampliando a discografia construída pela dupla desde o EP de estreia “Sabor Novidade”, lançado pela Deck em 2025. As duas músicas já estão disponíveis nas plataformas digitais e reforçam a combinação de elementos eletrônicos, guitarras e produção independente que acompanha o projeto desde sua formação.
A novidade também funciona como ponto de partida para um plano maior. Dani e Fabrizio pretendem apresentar seis músicas, todas cantadas em português, antes da chegada do primeiro álbum do Dizturbia, prevista para o segundo semestre de 2027. A quantidade de material surgiu naturalmente durante pouco mais de dois anos de composição, conciliados com outros trabalhos dos músicos. “Quando piscamos, já tinham passado todos esses meses, e a gente já tinha 13 músicas feitas e mais umas 10 ideias em andamento”, conta Dani. Com um repertório crescente nas mãos, os dois decidiram começar a revelar gradualmente a identidade que deverá nortear o futuro disco.
Trégua entre peso e beats
A faixa “Trégua” ocupa a linha de frente dessa nova fase e apresenta um encontro entre guitarras carregadas e uma base eletrônica de caráter mais lo-fi. A música foi construída integralmente durante uma sessão na casa da dupla, passando da base instrumental à letra no mesmo processo criativo. Fabrizio iniciou a composição a partir de um beat, enquanto as demais camadas foram sendo incorporadas até que a faixa chegasse ao formato definitivo, mantendo o contraste entre textura eletrônica e peso das guitarras.
A letra parte de um tema menos frequente no repertório do Dizturbia: os relacionamentos amorosos. Em vez de seguir por uma abordagem romântica convencional, a composição trata do desgaste emocional provocado por relações complexas e da sensação de permanecer constantemente em alerta. O conflito aparece justamente na convivência entre afeto, responsabilidade e pressão, criando uma espécie de impasse emocional que serve de fio condutor para a música.
Dani destaca especialmente o trabalho de guitarra realizado por Fabrizio no refrão, elemento que, para ela, ajuda a desenvolver a narrativa para além das palavras. “Ela é especial para a gente. Sou apaixonada pela guitarra que ele fez no refrão, sinto que ela conta a história do jeito dela”, diz Dani. A música também está entre as favoritas de Fabrizio dentro do material composto até agora e representa uma das poucas ocasiões em que a dupla direcionou sua escrita diretamente para uma relação romântica.
A vocalista resume a ideia central como uma contradição entre possuir algo valioso e, ao mesmo tempo, sofrer com a necessidade constante de protegê-lo. “Sabe aquela sensação de ter um diamante nas mãos, mas sentir o peso de estar em alerta o tempo todo justamente por isso? É quando o esforço para cuidar de algo tão precioso começa a machucar. A música fala desse paradoxo entre o amor e a pressão que o próprio amor pode trazer”, explica a vocalista.

Um ET em meio ao absurdo
Se “Trégua” mergulha em conflitos afetivos, “Inadequado (Sou um ET)” desloca o olhar para uma sensação de inadequação diante do mundo. A faixa está entre as primeiras composições criadas por Dani e Fabrizio para o Dizturbia e, assim como outras músicas do projeto, começou a partir de um beat eletrônico. A primeira versão tinha uma construção mais simples e chegou a agradar Dani, mas Fabrizio considerava que ainda faltava alguma coisa para definir melhor a personalidade da música.
A transformação veio quando a faixa ganhou uma nova base, bem mais pesada e marcada por uma espécie de punk eletrônico. O resultado aproxima elementos de stoner rock de uma pulsação dançante, criando uma música que preserva o peso das guitarras sem abandonar a possibilidade de funcionar em uma pista. A mudança também evidencia a liberdade do Dizturbia para circular entre referências sem estabelecer uma divisão rígida entre rock e música eletrônica.
“Talvez seja a mais electro de todas que a gente já lançou”, resume Dani. Essa característica instrumental acompanha uma letra voltada ao sentimento de não pertencimento. A ideia de ser um “ET” aparece como metáfora para observar uma sociedade que passou a tratar situações absurdas como parte normal da rotina. Alienação social, anestesia coletiva e decadência entram nesse cenário sem transformar a composição em uma narrativa literal ou fechada.
A percepção de deslocamento funciona, portanto, como ligação entre a sonoridade inquieta e o conteúdo da letra. Em vez de apresentar respostas para o desconforto retratado, a música explora a estranheza de perceber o ambiente ao redor e não se reconhecer completamente nele. Dani sintetiza essa leitura de maneira direta: “Se eu pudesse resumir, é uma música sobre como só não ficou maluco quem não entendeu o que está acontecendo.”
DIY conduz nova fase
Por trás das duas músicas está uma característica que acompanha o Dizturbia desde o início: a lógica do “Do It Yourself”, ou faça você mesmo. Dani e Fabrizio mantêm controle direto sobre diferentes etapas do processo criativo, enquanto a produção musical fica sob responsabilidade do próprio Fabrizio. Essa dinâmica permite que beats, guitarras, letras e experimentações sejam desenvolvidos dentro do universo da dupla, sem a necessidade de separar rigidamente composição, arranjo e produção.
O método também ajuda a explicar por que o repertório cresceu enquanto o projeto dividia espaço com as demais atividades dos músicos. Em pouco mais de dois anos, foram acumuladas 13 músicas concluídas e aproximadamente dez ideias ainda em desenvolvimento. O volume de material abriu espaço para pensar não apenas em lançamentos isolados, mas em uma sequência capaz de apresentar diferentes lados do Dizturbia antes da chegada de seu primeiro trabalho em formato de álbum.
A estratégia prevê seis faixas em português lançadas antes do disco, colocando “Trégua” e “Inadequado (Sou um ET)” como as primeiras peças dessa sequência. Embora compartilhem elementos eletrônicos e guitarras, as duas músicas seguem caminhos distintos tanto nos temas quanto nos arranjos. A escolha oferece uma amostra da amplitude que Dani e Fabrizio pretendem explorar enquanto revelam aos poucos o repertório desenvolvido nos últimos anos.
Com lançamento pela Deck, o single duplo já pode ser ouvido nas principais plataformas digitais. O primeiro álbum do Dizturbia, por sua vez, está planejado para o segundo semestre de 2027. Até lá, a proposta é continuar apresentando as novas composições gradualmente, permitindo que cada faixa revele uma parte do trabalho que a dupla vem construindo entre beats eletrônicos, guitarras pesadas, produção própria e letras em português.













