O Cabaret Voltaire fará sua primeira apresentação no Brasil justamente durante a turnê que marca a despedida dos palcos. O grupo britânico, um dos nomes fundamentais para o desenvolvimento da música industrial, se apresenta em 6 de março de 2027, sábado, no Cine Joia, em São Paulo. Liderada pelo integrante original Stephen Mallinder, a atual formação desembarca no país após retomar atividades ao vivo e revisitar uma trajetória iniciada em Sheffield na década de 1970. A apresentação será única no Brasil e integra a etapa final de uma história que atravessou diferentes momentos da música eletrônica.
A passagem pelo país também coloca diante do público brasileiro um repertório que ajudou a aproximar experimentação, pós-punk, funk, ruído e música eletrônica de pista. Ao longo de diferentes fases, o Cabaret Voltaire tornou-se referência para artistas ligados ao industrial, EBM, techno, synthpop e à cena gótica. Ministry, Nitzer Ebb e Front 242 estão entre os nomes associados à influência do grupo. Trent Reznor, do Nine Inch Nails, também apontou as primeiras gravações da banda como inspiração para o How to Destroy Angels. A realização do show em São Paulo é da Maraty.
Da experiência para a pista
Criado em Sheffield em 1973, o Cabaret Voltaire surgiu tratando o próprio processo de gravação como parte essencial da composição. Trechos de televisão e rádio, sintetizadores, instrumentos processados e manipulações de voz eram incorporados às faixas sem a preocupação de seguir estruturas tradicionais. A abordagem dialogava com o dadaísmo e com técnicas de recorte associadas ao escritor William Burroughs, criando uma linguagem marcada por repetição, ruído e tensão.
Richard H. Kirk, Stephen Mallinder e Chris Watson formaram o núcleo original responsável por consolidar essa identidade em trabalhos como Mix-Up (1979), The Voice of America (1980) e Red Mecca (1981). Nesse período, elementos da música negra norte-americana, especialmente electro e hip-hop, também passaram a alimentar a pesquisa do trio. Em vez de abandonar a experimentação, o grupo começou a encontrar maneiras de transformar suas texturas eletrônicas em estruturas capazes de funcionar também na dança.
Red Mecca tornou-se um dos registros mais lembrados dessa fase. Faixas como “Spread the Virus” e “A Thousand Ways” exemplificam o equilíbrio entre pulsação, vozes processadas e atmosferas desconfortáveis. Em 2019, a Pitchfork colocou o álbum na quarta posição de sua lista dos 33 melhores discos industriais, reconhecimento que reforçou a importância histórica de um trabalho lançado quase quatro décadas antes.
A relação com as pistas ganhou ainda mais espaço posteriormente. The Crackdown (1983), produzido com Flood, e Micro-Phonies (1984) deram contornos mais definidos ao baixo, às programações e às vozes. “Just Fascination”, “Sensoria” e “Do Right” pertencem a esse momento, quando a banda ampliou sua circulação sem abandonar o caráter experimental. The Crackdown chegou ao 31º lugar da parada britânica de álbuns.

Uma influência que se espalhou
Essa aproximação com a dança levou Kirk e Mallinder a Chicago, onde trabalharam com Marshall Jefferson, figura importante da house music, no álbum Groovy, Laidback and Nasty (1990). O disco inclui faixas como “Hypnotised” e “Easy Life” e aprofundou uma relação que vinha sendo construída havia anos. Em entrevista à Northern Transmissions, Kirk explicou que electro e hip-hop norte-americanos já influenciavam as escolhas musicais do grupo e sua busca por estruturas mais acessíveis.
O impacto dessas experiências ultrapassou a própria discografia do Cabaret Voltaire. Martin Moscrop, do A Certain Ratio, contou à revista Crack que tentou reproduzir em sua banda a maneira como Kirk fazia a guitarra assumir características próximas às de um sintetizador. O produtor britânico Surgeon também destacou a amplitude sonora do grupo ao comparar diferentes momentos de seu catálogo, mostrando como a banda continuou oferecendo referências para músicos de gerações posteriores.
A influência alcançou ainda artistas ligados ao techno. O espanhol Oscar Mulero colocou discos do Cabaret Voltaire entre suas primeiras descobertas importantes na música eletrônica no fim dos anos 1980. Essa capacidade de circular entre cenas ajuda a explicar por que o grupo aparece como referência em vertentes distintas, mesmo sem permanecer preso a uma única fórmula sonora durante sua trajetória.
Com isso, a estreia brasileira acontece cercada por um peso histórico pouco comum para uma primeira visita. O público encontrará uma banda cuja produção atravessou mudanças profundas na música eletrônica e deixou marcas em diferentes cenas. O fato de o encontro ocorrer durante a despedida acrescenta outro elemento à apresentação: para quem acompanha o Cabaret Voltaire no Brasil, a estreia também será a última oportunidade de assistir ao grupo no país.
A despedida chega ao Brasil
A fase final começou a ganhar forma em 2025, quando Mallinder e Watson voltaram a trabalhar juntos como Cabaret Voltaire para celebrar os 50 anos da primeira apresentação do grupo, realizada em Sheffield em maio de 1975. O reencontro ocorreu depois da morte de Richard H. Kirk, em 2021. Nos anos anteriores, Kirk havia mantido sozinho o projeto, retornando aos palcos no Berlin Atonal em 2014 e lançando Shadow of Fear em 2020.
Os arranjos desenvolvidos para os shows britânicos de 2025 foram posteriormente documentados em But What Time Is It Really?, lançado em 24 de abril de 2026. A edição digital reúne 16 faixas e apresenta novas versões de músicas como “Yashar”, “Just Fascination”, “Nag Nag Nag” e “Sensoria”, além da peça “Tinsley Viaduct”. O registro funciona como retrato da maneira encontrada pela formação atual para levar esse repertório novamente aos palcos.
Parte desse material deve servir de referência para a apresentação marcada no Cine Joia. O show coloca São Paulo dentro da Final Tour e oferece ao público brasileiro um contato tardio, porém simbólico, com uma banda que passou décadas influenciando diferentes caminhos da música eletrônica. A estreia acontece justamente quando o Cabaret Voltaire decidiu encerrar sua atividade ao vivo, transformando a data em um encontro sem perspectiva de repetição.
O Cabaret Voltaire se apresenta no Cine Joia, na Praça Carlos Gomes, 82, Liberdade, em São Paulo, no sábado, 6 de março de 2027. Os ingressos estão disponíveis pela Fastix. A realização é da Maraty, com apoio da Powerline Music & Books. Para o público brasileiro, a Final Tour encerra uma espera de décadas com uma única apresentação, reunindo estreia e despedida na mesma noite.













