O cantor e compositor Alex Sant’Anna lançou uma releitura de “Menina Jesus”, composição de Tom Zé originalmente apresentada no álbum “Correio da Estação do Brás”, de 1978. A gravação conta com a participação da cantora sergipana Mamah, prima de segundo grau do tropicalista, e marca o início da divulgação de “O Futuro é do Pretérito”, quinto trabalho solo do músico baiano radicado em Aracaju. A nova versão combina elementos do rock alternativo com referências da música nordestina, preservando a temática social da composição original.
A escolha da faixa também representa a realização de um projeto antigo. Alex mantém a canção em seu repertório há anos e chegou a considerar sua gravação nos discos “Enquanto Espera” (2015) e “Baião Amargo” (2020). “Este é o primeiro single do meu novo disco, O Futuro é do Pretérito. Pra abrir as portas desse disco, lanço Menina Jesus, canção de Tom Zé que já está no meu repertório há tanto tempo que muita gente já me perguntou se era minha. Eu neguei, claro, mas fiquei feliz em saber que alguém chegou a cogitar que essa obra-prima pudesse ser minha”, conta Alex.
Releitura e novo disco
A relação entre Alex Sant’Anna e Tom Zé inclui dois shows do tropicalista que tiveram apresentações de abertura realizadas pelo músico, há aproximadamente 15 anos. Agora, a composição ganha uma abordagem marcada por guitarras distorcidas, bateria pesada e arranjos de cordas. A introdução utiliza piano e uma instrumentação mais contida, enquanto a passagem para o verso “Bença, mãe” apresenta uma mudança de intensidade. A produção musical é assinada por Leo Airplane e pelo próprio Alex, com produção executiva de Nah Donato. “Agora, para O Futuro é do Pretérito, finalmente eu consegui, e acredito que veio no momento certo, porque a música dialoga com o conceito do álbum”, afirma.
A participação de Mamah acrescenta uma ligação familiar com o autor da composição. “E falando em prima, convidei Mamah, com seu sangue de Irará, pra cantar comigo nesta canção”, diz Alex. Natural da cena musical sergipana, a cantora iniciou sua trajetória em 2018 e lançou o EP “Elã” em 2021. Também participou de trabalhos com Táia, NG Lampião da Rima e Bricelet, além de atuar como backing vocal e integrar o Coletivo Sergipano de Mulheres no Samba. Já Alex começou profissionalmente em 1997, participou da fundação da banda Naurêa e desenvolveu uma carreira solo que inclui quatro álbuns anteriores.
O novo disco também apresenta uma reflexão sobre diferentes percepções do tempo. Inicialmente chamado “Feito Benção”, o projeto recebeu outro título durante o processo de composição. “À medida que fui compondo as canções, percebi que um tema estava recorrente, que era a questão do tempo. Falo de passado, presente e futuro e, algumas vezes, da simultaneidade entre eles. Aí resolvi renomear o disco”, explica Alex. Entre as referências conceituais estão o livro “Futuro Ancestral”, de Ailton Krenak, e os estudos sobre tempo espiralar desenvolvidos por Leda Maria Martins, que abordam as relações entre ancestralidade, memória e continuidade cultural.
“Os dois conceitos partem de matrizes culturais diferentes, a cosmovisão banto e iorubá de Leda e a perspectiva indígena de Krenak, mas convergem de forma profunda. Ambos usam o ancestral não como algo que ficou no passado, mas como uma tecnologia de sobrevivência para o futuro”, diz o artista. Essa perspectiva aparece também em “Pretérito Perfeito”, outra composição do repertório, que traz o verso “o presente enrosca o futuro e o futuro engravida o passado”. Com quase três décadas de atividade musical, Alex Sant’Anna amplia sua discografia enquanto revisita uma obra que aborda migração, pertencimento e expectativas de ascensão social. “Menina Jesus” já está disponível nas plataformas digitais, enquanto os demais detalhes do quinto álbum deverão acompanhar as próximas etapas de divulgação.













