O cantor e compositor Neil Young voltou a enfrentar Donald Trump na Justiça americana por causa da utilização de suas músicas em eventos políticos. Desta vez, o artista pede uma indenização de US$ 10 milhões, aproximadamente R$ 54 milhões, alegando que sua composição “Rockin’ in the Free World” foi reproduzida sem autorização durante um comício realizado em Youngstown, no estado de Ohio. A apresentação aconteceu em 12 de outubro, dentro das atividades relacionadas às eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos.
A nova disputa retoma um conflito que acompanha a relação entre o músico canadense e o presidente americano desde 2015. Young já havia questionado publicamente o uso de seu repertório pela campanha republicana e chegou a apresentar uma ação judicial em 2020. Embora aquele processo tenha sido encerrado posteriormente, o episódio recente reacendeu a discussão sobre direitos autorais, licenciamento musical e a utilização de obras artísticas em manifestações partidárias, especialmente quando seus criadores discordam das posições defendidas pelos responsáveis pelos eventos.
Uma disputa que vem de longe
O primeiro desentendimento público entre Neil Young e Donald Trump aconteceu durante a campanha presidencial de 2015, quando “Rockin’ in the Free World” foi utilizada em um evento do então candidato republicano. Na ocasião, o cantor manifestou sua insatisfação e afirmou que não havia autorizado a associação de sua música à candidatura. A controvérsia ganhou repercussão justamente porque Young já demonstrava posicionamentos políticos diferentes daqueles apresentados por Trump em seus discursos.
Em 2020, a divergência chegou oficialmente aos tribunais. O músico entrou com uma ação alegando violação de direitos autorais pelo uso de duas composições: “Rockin’ in the Free World” e “Devil’s Sidewalk”. Segundo a acusação, ambas haviam sido reproduzidas em eventos ligados à campanha presidencial sem a autorização necessária. O processo acabou encerrado depois que a equipe do republicano assumiu o compromisso de não voltar a utilizar as gravações sem o devido licenciamento.
Agora, segundo as informações divulgadas sobre a nova ação, Young sustenta que o compromisso anterior não teria sido respeitado. A música teria tocado antes da entrada de Trump no palco durante o comício de 12 de outubro. O artista considera que essa reprodução configura uma nova infração, independentemente da existência de conflitos anteriores entre as partes. A acusação, entretanto, ainda depende de análise judicial e de eventual manifestação da defesa.
Além da indenização milionária, o cantor solicita medidas que impeçam o comitê de campanha de voltar a utilizar suas composições sem autorização. A intenção é evitar que situações semelhantes se repitam em futuros eventos políticos. Após a notificação formal, a parte acionada geralmente dispõe de 21 dias para responder à acusação ou apresentar uma contestação. Até o momento das informações divulgadas, nenhuma audiência havia sido marcada para examinar o caso.

O significado da canção
Lançada em 1989, “Rockin’ in the Free World” integra o álbum Freedom e permanece entre as músicas mais conhecidas de Neil Young. Embora seu refrão tenha uma sonoridade frequentemente associada a celebrações patrióticas, a composição apresenta uma perspectiva crítica sobre problemas sociais americanos. Seus versos abordam pobreza, dependência química, pessoas em situação de rua e contradições presentes no discurso de liberdade dos Estados Unidos naquele período histórico.
Essa diferença entre o refrão e o conteúdo das estrofes é um dos argumentos destacados pelo músico na disputa. Young considera inadequado que sua obra seja utilizada para promover uma agenda política que, segundo sua interpretação, contraria a mensagem original. No documento judicial mencionado pela imprensa, o cantor descreve a visão expressa pela composição como “o oposto de tudo o que Donald J. Trump defende”.
A discussão também envolve uma questão jurídica importante: a discordância política de um compositor, isoladamente, não determina necessariamente se a execução pública de sua obra constitui infração. Nos Estados Unidos, determinadas licenças podem permitir a reprodução de músicas em eventos, dependendo das condições contratuais e dos direitos envolvidos. Por isso, a análise de casos semelhantes costuma considerar quem autorizou a execução, quais licenças estavam disponíveis e se existiam restrições aplicáveis.
O episódio evidencia como uma canção pode adquirir significados diferentes conforme o contexto em que é apresentada. Enquanto determinadas campanhas recorrem a músicas populares para criar identificação com o público, seus autores podem rejeitar a associação com candidatos ou movimentos específicos. No caso de Young, a divergência é especialmente evidente porque o artista continua utilizando a mesma composição para expressar suas próprias convicções políticas em apresentações públicas.
Música e posicionamento político
A utilização de “Rockin’ in the Free World” em manifestações políticas também faz parte da trajetória recente de Neil Young. Em setembro, durante uma apresentação ao lado de Willie Nelson, o músico encerrou o show interpretando a composição e repetindo “Take America Back!”, expressão que pode ser traduzida como “retomem a América”. A apresentação reforçou a presença de temas políticos em seu repertório, característica recorrente desde os primeiros trabalhos de sua carreira.
Em outubro, a música voltou a aparecer em um contexto de mobilização política, desta vez interpretada por Bruce Springsteen, Dave Grohl e Tom Morello durante o festival ativista Power to the People. A participação desses artistas demonstra como a composição continua circulando entre diferentes gerações do rock, especialmente em apresentações relacionadas a debates sociais e manifestações públicas.
Nascido em Toronto, no Canadá, Neil Young iniciou sua trajetória musical em grupos locais antes de se mudar para os Estados Unidos e integrar o Buffalo Springfield. Posteriormente, desenvolveu uma extensa carreira solo, colaborou com o Crazy Horse e participou do Crosby, Stills, Nash & Young. Sua discografia reúne trabalhos de folk, rock e experimentações elétricas, frequentemente acompanhados por comentários sobre questões políticas e ambientais.
A nova ação foi apresentada em 26 de outubro de 2026, em um tribunal federal da Virgínia, contra o Trump 47 Committee, organização ligada ao presidente, e não contra Trump pessoalmente. O processo deverá examinar a alegada reprodução não autorizada e os pedidos de indenização e restrição de uso. Enquanto não houver uma decisão judicial, as acusações permanecem como alegações apresentadas pela equipe de Young.













