Brian May e o Kiss construíram carreiras marcadas por grandes palcos, identidades visuais reconhecíveis e públicos espalhados pelo mundo. Embora Queen e Kiss tenham seguido propostas diferentes, as duas bandas acabaram frequentemente comparadas durante a ascensão do rock de arena. A presença de figurinos, iluminação elaborada e apresentações grandiosas alimentou paralelos, mesmo quando os repertórios preservavam características próprias. Na prática, as duas formações ajudaram a transformar concertos de rock em experiências planejadas para impressionar também fora do universo estritamente musical. Em uma declaração recuperada anos depois, o guitarrista britânico explicou como enxerga essa aproximação e destacou a dedicação dos músicos americanos ao projeto que criaram.
A relação entre May e integrantes do Kiss também ultrapassa as comparações feitas pela imprensa e pelos fãs. Eric Singer participou da banda solo do guitarrista do Queen em 1998, enquanto Gene Simmons já descreveu o músico como um amigo de longa data. Simmons chegou a recordar publicamente uma festa de aniversário dos anos 1990 para a qual o britânico havia sido convidado. A proximidade nunca significou trajetórias compartilhadas, mas criou ocasiões em que a admiração entre nomes centrais dos dois grupos apareceu de maneira bastante espontânea. Esse contato ajuda a contextualizar uma opinião que combina respeito profissional, leitura sobre as diferenças entre os grupos e uma inesperada preferência dentro da discografia da banda mascarada.
Caminhos de Queen e Kiss
O comentário mais detalhado de Brian May apareceu no livro “Por trás da máscara: A biografia oficial”, publicado em 2003. Ele reconheceu semelhanças entre as duas bandas, mas apontou prioridades iniciais distintas.
“Eu gosto muito do Kiss. O Queen era frequentemente comparado ao Kiss. Éramos uma espécie de equivalentes. Eles eram a versão americana e nós, a versão inglesa. Acho que começamos com ideias um pouco diferentes. O Kiss começou mais focado na parte visual e, com o tempo, caminhou em direção à música. Acho que nós fizemos o caminho inverso: começamos pela música e, depois, fomos incorporando mais elementos visuais. Tenho grande admiração pelo Kiss porque eles se entregam por completo. Eles tinham sua visão, tinham seu sonho e foram atrás dele com tudo.”
A observação resume duas estratégias do espetáculo de arena. O Kiss colocou maquiagem, figurinos e personagens no centro da apresentação, enquanto o Queen ampliou gradualmente a teatralidade de suas performances.
Apesar dessa diferença inicial, May concentra sua avaliação na convicção do quarteto americano. Para ele, a força do Kiss está na disposição de sustentar uma visão própria. A fala evita uma disputa e aproxima caminhos distintos que chegaram a escala semelhante, sem transformar as diferenças de linguagem em uma hierarquia de valor artístico no rock.

Uma favorita inesperada
A admiração de Brian May também alcança o repertório do Kiss. O guitarrista tem carinho especial por “Crazy Crazy Nights”, do álbum “Crazy Nights”, de 1987. A escolha pertence a uma fase diferente daquela que consolidou a imagem clássica da banda.
Paul Stanley revelou essa preferência em uma entrevista concedida à Classic Rock em 2015. O vocalista e guitarrista recordou um encontro ocorrido durante uma apresentação televisiva compartilhada com o Queen:
“Anos atrás, tocamos em um programa de TV com o Queen, e Brian [May] veio até mim e perguntou: ‘vocês vão tocar ‘Crazy Crazy Nights’? Porque essa é minha música favorita’. Foi muito engraçado ouvir isso dele. É uma boa música.”
Lançada como single, “Crazy Crazy Nights” representa o período em que o Kiss apostava em uma produção alinhada ao hard rock radiofônico da década de 1980. A faixa foi escrita por Paul Stanley, Adam Mitchell e Bruce Kulick e ganhou espaço especialmente entre o público europeu, tornando-se uma das canções mais reconhecidas daquela formação.
O relato de Stanley mostra que a preferência de May foi manifestada diretamente, longe de qualquer lista retrospectiva. O interesse do guitarrista por uma música daquele período também reforça que sua relação com o repertório do Kiss não se limita aos discos mais celebrados da fase mascarada original.
O detalhe lembrado por Kulick
Bruce Kulick, guitarrista do Kiss entre 1984 e 1996, acrescentou outro detalhe. À VRP Rocks, afirmou que Brian May conhecia “Crazy Nights” e sabia quem havia gravado o solo. Para Kulick, o reconhecimento teve peso especial.
“A única coisa que ele conhecia do Kiss era ‘Crazy Nights’. De certa forma, você vive em uma bolha quando faz parte de algo tão gigantesco quanto o Queen, que é a verdadeira realeza do rock, não apenas no título. Mas ele conhecia meu solo em ‘Crazy Nights’. Sabia que era meu, e isso é emocionante.”
A lembrança revela atenção a um crédito que poderia passar despercebido. Kulick entrou no grupo durante a fase sem maquiagem e participou de “Asylum”, “Crazy Nights”, “Hot in the Shade” e “Revenge”.
Brian May, por sua vez, iniciou a carreira no 1984 e depois integrou o Smile antes de formar o Queen com Roger Taylor e Freddie Mercury. Com a chegada de John Deacon, o grupo se tornou um dos maiores nomes do rock. Fora da banda, May lançou trabalhos solo e colaborou com artistas como Black Sabbath, Foo Fighters, Meat Loaf, Paralamas do Sucesso e Five Finger Death Punch. Sua declaração sobre o Kiss expõe uma admiração construída tanto pelo espetáculo quanto pela música.













