PAPANGU LANÇA CELESTIAL UNINDO ROCK PROGRESSIVO E TRADIÇÃO NORDESTINA

O grupo paraibano expande suas fronteiras sonoras e traz reflexões profundas sobre a tecnologia no novo álbum de estúdio.
Papangu lança o álbum Celestial gravado em fita analógica

A banda Papangu, indubitavelmente um dos nomes mais instigantes, corajosos e inventivos do rock progressivo e da música experimental contemporânea brasileira, acaba de lançar oficialmente o seu aguardado terceiro álbum de estúdio, intitulado Celestial. O novo trabalho explora um universo lírico e conceitual profundamente alinhado a rituais ancestrais de proteção do corpo e do espírito, propondo uma reflexão filosófica urgente e necessária sobre a própria condição humana diante do avanço desenfreado e acelerado da dita inteligência artificial no mundo moderno. Expandindo a rica imagética nordestina por meio de um campo léxico extremamente singular e próprio, o grupo costura com maestria influências marcantes da literatura de cordel, de artes audiovisuais múltiplas, da literatura modernista e do realismo mágico. De acordo com o tecladista e vocalista Rodolfo Salgueiro, “O homem entregue à máquina precisa reafirmar sua humanidade”, síntese precisa e poética para o conceito central que permeia e estrutura todo o projeto musical.

Disponível em todas as plataformas digitais de streaming e marcando simbolicamente a estreia oficial do grupo no catálogo do prestigiado selo Deck, o projeto retrata poeticamente a iminência da perda da essência humana e a urgência de buscar amparo e proteção contra aquilo que já está sobre nossos ombros, fenômenos cada vez mais comuns à era em que vivemos. Com uma sonoridade visceral marcada pela forte e inegável identidade cultural do Nordeste brasileiro, a obra une tradição popular e inovação vanguardista para criar um painel sonoro envolvente, multifacetado e densamente conceitual. As composições capturam as angústias e incertezas de tempos difíceis enquanto oferecem um verdadeiro refúgio poético através da arte, consolidando uma ponte sólida entre o regionalismo e a música experimental. Essa rica construção reflete o amadurecimento constante do quarteto paraibano no cenário musical independente.

Gravação analógica em Berlim

A identidade sonora registrada nas faixas de Celestial reflete exatamente aquilo que o público encontra e testemunha durante as apresentações ao vivo do grupo, entregando uma fusão sem fronteiras de referências que abrangem desde King Crimson e Magma até Hermeto Pascoal, Mestre Ambrósio e Oranssi Pazuzu. A mistura audaciosa e original entre rock progressivo, MPB, metal extremo, zeuhl, ciranda e forró foi batizada bem-humoradamente pelos próprios músicos da banda como rock troncho. O cuidadoso processo de produção e registro do disco ocorreu de forma totalmente analógica em fita magnética de duas polegadas, ao longo de nove dias intensos de trabalho dentro de um estúdio na cidade de Berlim, utilizando equipamentos vintage que resgatam e valorizam o timbre característico e orgânico das décadas de 1960, 1970 e 1980. Poucos ajustes foram feitos na etapa final de mixagem, pois as particularidades sonoras vieram naturalmente do próprio processo de captação.

A opção consciente por esse formato de gravação tradicional preservou a espontaneidade e a energia bruta das execuções originais no ambiente de estúdio, reduzindo intervenções digitais na etapa de pós-produção. Conforme pontua o guitarrista e vocalista Pedro Francisco, “O formato analógico permitiu que a gente gravasse aquilo que a gente sentia. É um processo que faz com que você já pense no resultado final na hora de gravar, e isso colabora muito para a criação”. Essa abordagem exigiu precisão técnica, foco, entrega total e uma sinergia absoluta entre os integrantes durante as sessões, resultando em uma experiência auditiva rica, dinâmica, orgânica e pulsante, repleta de nuances instrumentais que ressaltam o talento individual e coletivo dos músicos.

Além da riqueza timbrística proporcionada pelo uso de equipamentos clássicos e lendários, a escolha pelo método analógico exigiu tomadas de decisão imediatas e corajosas durante as performances em conjunto no estúdio. Para além do puro efeito estético, ouvir o disco inteiro é sentir a energia vibrante da banda tomando riscos na hora da execução. Como explica o baixista e vocalista Marco Mayer, “O quanto posso improvisar, o quão intenso eu preciso tocar determinada parte, o que eu preciso fazer para podar minha individualidade para funcionar melhor no som em conjunto, são coisas que você não consegue fazer se for gravar no computador”. A disposição para assumir riscos em tempo real traduz a verdade da banda, transformando a escuta de cada faixa em uma jornada imersiva, crua e intensamente humana.

Complementando com perfeição a narrativa sonora conjurada em Celestial, o projeto ganha sua verdadeira contrapartida visual no trabalho detalhado de Juliana Lapa, renomada artista plástica pernambucana que assina o tríptico encarregado de emoldurar o disco. Em três painéis marcantes e altamente expressivos, a artista cria, acorda, emudece e subtrai cores e formas que lembram, afirmam e duvidam da própria paisagem sonora desenvolvida ao longo de todo o repertório do álbum. O resultado final é um trabalho coeso, maduro e profundamente marcante, reafirmando o Papangu como uma das forças mais autênticas, instigantes e criativas da cena contemporânea brasileira, ao unir resgate histórico, sofisticação instrumental e uma visão artística totalmente singular e poderosa.

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