Brasília segue consolidando seu espaço no cenário do cinema brasileiro com produções que conquistam reconhecimento dentro e fora do país. Em um momento de destaque para o audiovisual do Distrito Federal, as diretoras Anne Pinheiro Guimarães e Denise Vieira chamam atenção por obras que unem memórias, identidade, protagonismo feminino e diferentes formas de retratar a capital. Enquanto Pequenas Criaturas chega às salas de cinema após acumular premiações e participações em festivais internacionais, Sabes de Mim, Agora Esqueça amplia a visibilidade da produção de Ceilândia ao conquistar um importante prêmio na França. Apesar das diferenças de linguagem, os dois filmes compartilham um olhar sensível sobre mulheres, território e transformação, mostrando como histórias locais podem dialogar com públicos de diferentes países.
Brasília como cenário
A relação afetiva entre Anne Pinheiro Guimarães e Brasília está no centro da construção de Pequenas Criaturas. Nascida na capital, a cineasta transformou lembranças da infância e da adolescência em matéria-prima para um longa que utiliza a cidade dos anos 1980 como pano de fundo para uma narrativa intimista. O resultado foi uma obra premiada como Melhor Filme na mostra Première Brazil, do Festival do Rio, além de integrar a disputa pelo prêmio de melhor estreia em um segmento do Festival Internacional de Gotemburgo, na Suécia.
Em cartaz nos cinemas de Brasília, o filme acompanha Helena, personagem interpretada por Carolina Dieckmann. A trama parte de uma situação aparentemente comum: a protagonista se muda para uma nova cidade com o marido e os filhos, mas vê sua rotina mudar completamente quando ele precisa viajar a trabalho. Sozinha, cercada por caixas de mudança ainda fechadas e diante de uma realidade desconhecida, Helena passa a questionar escolhas pessoais e o rumo de sua própria vida.
Segundo Anne, o roteiro nasceu da observação sobre como determinadas fases da infância ajudam a moldar a personalidade das pessoas. A diretora estabelece um paralelo entre sua própria trajetória e os personagens do filme.
“Eu nasci em Brasília, depois, voltei para a cidade com 8 anos, a idade do personagem do Dudu (na tela, Lorenzo Mello), e morei aqui até os 15 anos, idade do personagem do André (Théo Medon). Fiquei pensando em tudo que acontece com uma criança nesse período, nos anos 1980, tão formador de quem a gente se torna mais tarde.”
Ela também destaca que sua ligação com Brasília permanece intensa, independentemente dos trabalhos realizados em outras partes do mundo.
“Eu amo Brasília. A cidade é um espaço emocional, um lugar onde tudo é muito impregnado pelas minhas lembranças, um lugar onde o passado e o presente convivem em tudo.”
Ao abordar temas ligados à maternidade, identidade e autonomia feminina, o longa utiliza a arquitetura, os espaços amplos e a atmosfera característica da capital como elementos que dialogam diretamente com o estado emocional da protagonista.

Ceilândia ganha o mundo
Enquanto Anne revisita memórias da capital, Denise Vieira leva para as telas uma Ceilândia reinventada por meio da ficção científica e da fantasia. Seu longa Sabes de Mim, Agora Esqueça conquistou recentemente um prêmio no Festival International de Cinéma de Marseille, na França, ampliando a presença internacional do cinema produzido no Distrito Federal.
A produção parte de uma pesquisa realizada pela diretora sobre mulheres que atuavam como prostitutas durante o período de construção de Brasília. Em vez de reconstruir esses acontecimentos de forma documental, Denise optou por desenvolver uma narrativa híbrida, em que realidade e imaginação caminham juntas.
“No filme, tratamos de um lugar distópico, em tempo indefinido, e partimos de uma pesquisa que fiz sobre prostitutas no período da construção de Brasília. Usamos hibridismo na construção das personagens, com as atrizes trazendo experiências e desejos delas para as personagens, na base da fantasia.”
Na história, personagens femininas atravessam diferentes períodos históricos até chegar a um futuro indefinido, em que mulheres enfrentam novas restrições para ocupar os espaços públicos. O filme mistura crítica social, elementos fantásticos e reflexões sobre resistência, colocando mulheres no centro da narrativa.
A diretora também explica que uma das inspirações veio de um raro registro histórico relacionado às profissionais do sexo que participaram da formação da cidade.
“Existiu uma imagem, talvez a única de arquivo, feita das mulheres (profissionais do sexo) pioneiras na cidade. No filme, elas atravessaram tempos e chegam a uma era indefinida, em que mulheres são impedidas de estar nas ruas.”
Com formação em Arquitetura, Denise construiu sua carreira cinematográfica principalmente na prática. Depois de se mudar para Ceilândia, em 2012, iniciou uma parceria com o cineasta Adirley Queirós, que também integra a equipe de produtores executivos do longa premiado.
Desafios fortalecem cinema
Apesar do reconhecimento conquistado em festivais nacionais e internacionais, produzir cinema independente no Distrito Federal continua sendo um trabalho marcado por desafios financeiros, logísticos e estruturais. Denise Vieira afirma que a realidade exige que muitos profissionais acumulem diferentes funções para garantir que os projetos saiam do papel.
“É uma luta constante, principalmente porque não sou só diretora, sou produtora. Trago o desafio da concentração de atividades, de correr para captar patrocínio e de fazer tudo, até investir na divulgação.”
Além de dirigir seus próprios filmes, ela atua frequentemente na direção de arte de outras produções. Recentemente participou da equipe do curta Máquina Humana, que explora uma misteriosa epidemia de dança em uma escola e exigiu uma construção visual voltada para o fantástico.
Em Sabes de Mim, Agora Esqueça, Denise também buscou representar as personagens de maneira livre, tratando desejos e experiências sem amarras narrativas tradicionais.
“Tratamos de nossos desejos de uma maneira aberta, sem nos preocupar com o olhar do outro, num campo de fantasia e de realização.”
Os trabalhos de Anne Pinheiro Guimarães e Denise Vieira mostram caminhos distintos dentro do audiovisual brasiliense, mas convergem ao destacar personagens femininas, explorar a identidade do Distrito Federal e ampliar o alcance do cinema produzido na região. Ao conquistar espaço em festivais importantes e chegar ao circuito comercial, as duas diretoras reforçam o crescimento da produção local e demonstram que histórias nascidas em Brasília e na Ceilândia podem dialogar com espectadores de diferentes culturas, fortalecendo a presença do cinema do DF no cenário nacional e internacional.



