STRIGAH ESTREIA COM ZOETIA E UNE METAL, MISTICISMO E CRÍTICA SOCIAL

Primeiro álbum da banda paulista chega ao streaming explorando temas ambientais, espiritualidade e os conflitos da vida contemporânea
Strigah lança Zoetia com metal experimental e crítica social

A cena do metal brasileiro ganha um novo capítulo com o lançamento de Zoetia, álbum de estreia da banda Strigah. Disponibilizado nas plataformas digitais pela Coffinjoe Records, o trabalho apresenta uma proposta que transita entre metal moderno, progressive metal, industrial e elementos experimentais, construindo uma identidade sonora marcada por contrastes, atmosferas densas e reflexões sobre o mundo atual.

Formada por Kaio Felipe (vocais), Samanta Tica (baixo), Eleonardo de Paula (bateria) e Matheus Figueredo (guitarra), a Strigah utiliza o disco como um espaço para abordar temas que vão da crise ambiental às inquietações espirituais. O título do álbum nasceu de um conceito criado pelo próprio grupo, combinando as palavras “zoe”, associada à vida, e “goetia”, ligada a práticas místicas. O resultado é uma ideia que os músicos definem como um “feitiço da vida”, servindo como eixo central para todas as composições.

Ao longo das faixas, Zoetia propõe uma jornada que parte da indignação diante das estruturas modernas e avança em direção a uma reconexão simbólica entre ser humano, natureza e espiritualidade. O álbum chega como uma declaração artística ambiciosa, construída para quem busca experiências musicais fora dos formatos convencionais.

Uma sonoridade construída sem fórmulas previsíveis

Musicalmente, Zoetia se destaca pela combinação de peso e complexidade. A banda explora grooves marcantes, mudanças rítmicas frequentes, polirritmias e construções pouco convencionais, evitando estruturas previsíveis e apostando em uma dinâmica que mantém o ouvinte constantemente atento.

Ao mesmo tempo, o grupo abre espaço para momentos melódicos e atmosferas contemplativas. Vozes processadas, efeitos de profundidade e passagens mais introspectivas surgem entre os trechos mais agressivos, criando contrastes que ajudam a reforçar o conceito do álbum.

A proposta da Strigah não é abandonar as raízes do metal, mas reorganizar elementos familiares sob uma lógica própria. O resultado é uma obra que dialoga com diferentes vertentes do gênero sem se limitar a uma única classificação.

Entre as influências citadas pela banda estão nomes brasileiros como Deafkids, Sodade, Última Theoria, Haru e a Corja e Bebê Feio. No cenário internacional, referências como Fear Factory, Meshuggah, Deftones, Northlane, Brujeria e Five Pointe O ajudam a explicar parte da diversidade sonora presente no trabalho.

Essa combinação de influências contribui para que Zoetia funcione como um disco que transita entre o agressivo e o contemplativo, equilibrando técnica, peso e experimentação ao longo de toda a experiência.

A formação da Strigah aposta em atmosferas sombrias e experimentação para dar vida ao universo conceitual de Zoetia. (Foto: jmiguelr)

Natureza, cidade e tecnologia como campos de conflito

As letras do álbum ocupam papel central na narrativa construída pela Strigah. O grupo utiliza diferentes cenários para discutir temas ligados à degradação ambiental, violência social, colonialismo, alienação tecnológica e crise existencial.

A própria banda descreve o trabalho como um tratado sobre ambientes. Esses ambientes incluem a natureza ameaçada pela exploração econômica, os centros urbanos marcados pela desigualdade, os espaços digitais que redefinem relações humanas e os territórios internos onde ocorrem conflitos emocionais e espirituais.

Em “A propriedade é roubo”, por exemplo, a discussão gira em torno da exploração da terra, da destruição ambiental e da disputa por territórios. A música faz referência a figuras ligadas à defesa das florestas, como Bruno Pereira, Dom Phillips e Dorothy Stang.

Já “Espírito da cidade” desloca o foco para os grandes centros urbanos. A faixa apresenta imagens associadas à repressão, ao controle social e às tensões que surgem em contextos marcados pela desigualdade.

A crítica ao afastamento entre humanidade e natureza ganha destaque em “Xamanismo urbano”. A composição associa temas como agronegócio, queimadas, contaminação ambiental e violência contra povos indígenas à perda de vínculos ancestrais e ecológicos.

Outro momento marcante aparece em “Florestas digitais”, que leva a discussão para o universo tecnológico. A faixa reflete sobre a crescente mediação da vida por dispositivos, redes sociais e ambientes virtuais, questionando os impactos desse processo na experiência humana contemporânea.

Espiritualidade, simbolismo e afirmação artística

Além das questões sociais e ambientais, Zoetia dedica grande parte de sua narrativa à exploração de elementos espirituais e simbólicos. O álbum reúne referências ao gnosticismo, à cabala judaica, à bruxaria tradicional e a diferentes tradições místicas.

Em “Maldito Demiurgo!”, a banda utiliza conceitos ligados ao gnosticismo para discutir ego, desejo e as ilusões construídas pela mente humana. A música apresenta uma reflexão sobre conflitos internos e sobre a busca por significado em meio às contradições da existência.

“Memória do mar” aborda temas relacionados ao retorno, à continuidade da vida e à possibilidade de transformação permanente. Já “Eu sou Tetsuo” mergulha em imagens de mutação corporal, violência urbana e perda de identidade, dialogando com referências da cultura cyberpunk e do imaginário pós-industrial.

A instrumental “O voo do Simorgh” também ocupa papel importante na estrutura narrativa do disco. Inspirada no pássaro mitológico da tradição persa, a composição funciona como uma passagem para “A quebra dos vasos”, faixa que aborda conceitos ligados ao Tikkun e à ideia de reparação espiritual presente na cabala.

Para a Strigah, o álbum representa uma etapa importante de consolidação artística. Ao reunir crítica política, reflexão filosófica e experimentação sonora, a banda busca estabelecer uma identidade própria dentro do cenário independente brasileiro.

O trabalho conta com mixagem e masterização assinadas por Yukio Hara. A arte da capa foi desenvolvida por Jennifer Erny, enquanto a diagramação e arte final ficaram sob responsabilidade de Luiz Alcamim. As fotografias promocionais são de Chev e os videoclipes têm produção da RageBox Prod.

Como próximo passo, a Strigah prepara um show especial de lançamento de Zoetia no Hot Pub, em Santo André. A apresentação será registrada em vídeo e servirá de base para um novo clipe previsto para os próximos meses.

Leia Também:

Deixe um comentário