O próximo capítulo da trajetória do Mastodon já está oficialmente concluído. Segundo o baterista e vocalista Brann Dailor, o aguardado nono álbum de estúdio da banda foi finalizado após um processo intenso e emocionalmente desgastante. O trabalho também marca o primeiro registro do grupo sem o guitarrista e vocalista Brent Hinds, que deixou a formação em março de 2025 e morreu meses depois em um acidente de motocicleta em Atlanta.
A expectativa em torno do novo material aumentou nos últimos meses justamente pela combinação de fatores que cercam o projeto: a ruptura de uma formação histórica de 25 anos, a morte de um dos integrantes mais reconhecidos da banda e a chegada do guitarrista canadense Nick Johnston, que assumiu os shows recentes do grupo e deve aparecer no novo disco.
Durante entrevista ao Blabbermouth, Dailor falou abertamente sobre o impacto emocional que influenciou a criação do álbum. Segundo ele, boa parte das composições vinha sendo trabalhada há cerca de dois anos, enquanto os integrantes atravessavam momentos delicados dentro e fora da banda.
Um álbum criado em meio ao caos
Ao comentar sobre o processo de gravação, Brann Dailor revelou que o disco acabou absorvendo naturalmente toda a carga emocional vivida pela banda nos últimos anos. O músico afirmou:
“Estamos muito animados com isso. Foi um disco difícil de fazer. Foi um período muito emocional para nós. Eu perdi minha mãe, passamos por toda essa turbulência com Brent, e então ele faleceu. Tem sido difícil. Está tudo na música, está tudo nas canções, e estou animado para lançar isso no mundo porque estamos guardando esse material há um tempo.”
O baterista ainda explicou que muitas ideias começaram a surgir antes mesmo da saída definitiva de Brent Hinds. Segundo ele, a banda vinha trabalhando lentamente nas estruturas das músicas enquanto tentava lidar com questões internas e pessoais.
“Muito do que compõe este álbum, pelo menos os esqueletos do disco, estava guardado conosco há cerca de dois anos. Muita coisa estava acontecendo.”
A fala de Dailor ajuda a contextualizar o tom mais denso que muitos fãs já esperam do sucessor de “Hushed And Grim”, álbum duplo lançado em 2021. A obra anterior já havia sido marcada por temas ligados à morte e ao luto, especialmente após o falecimento do empresário da banda, Nick John.
Agora, o novo trabalho parece expandir ainda mais essa atmosfera emocional, mas sob circunstâncias ainda mais delicadas. Além da morte da mãe de Dailor, o grupo precisou atravessar o fim da convivência criativa com Brent Hinds, figura fundamental para a identidade sonora do Mastodon desde o início dos anos 2000.

A relação conturbada com Brent Hinds
Durante a entrevista, Dailor também comentou sobre os últimos meses de convivência musical com Brent Hinds antes da saída do guitarrista. Segundo ele, o músico já demonstrava pouco interesse em continuar participando ativamente das sessões de composição.
“Não. É tudo material novo. Infelizmente, no fim das contas, era difícil fazê-lo aparecer no espaço de ensaio. Ele estava interessado em fazer outras coisas, o que tudo bem. Foi um período confuso.”
Em outro trecho, Dailor descreveu o comportamento livre de Hinds e disse que tentava incentivá-lo a voltar a participar das jams e criações da banda.
“Eu era o cara dizendo: ‘Vamos lá, cara. Aparece aqui. Vamos criar riffs’. Ele era um espírito livre. Queria sair pilotando sua motocicleta e fazendo outras coisas. Ia para onde o vento levasse. Infelizmente, isso não incluía aparecer no ensaio para trabalhar em riffs.”
Mesmo admitindo certa frustração, Dailor afirmou que entendia o posicionamento do antigo companheiro de banda.
“Eu fiquei tranquilo com isso. Pensei: ‘Cara, todo mundo pode fazer o que quiser da vida. Se você está infeliz e não quer mais estar aqui fazendo isso, descubra o que te faz feliz e vá fazer’.”
A separação oficial foi anunciada em março de 2025, quando o Mastodon informou que a decisão havia sido tomada “mutuamente” após “25 anos monumentais juntos”. Pouco tempo depois, Brent Hinds passou a fazer declarações públicas mais duras, chegando a chamar os ex-companheiros de “seres humanos horríveis” em uma postagem nas redes sociais.
A morte do guitarrista aconteceu em agosto de 2025. Segundo informações da polícia de Atlanta, Hinds pilotava uma motocicleta Harley-Davidson quando foi atingido por um SUV em um cruzamento da cidade. O músico foi encontrado inconsciente no local e teve a morte confirmada pelos paramédicos.
Relatórios posteriores indicaram que ele trafegava acima do limite de velocidade no momento do acidente.
O futuro do Mastodon após a perda
Mesmo diante da tragédia, o Mastodon decidiu seguir em frente. A banda manteve os compromissos ao vivo e começou a trabalhar com novos músicos para ocupar temporariamente a posição deixada por Hinds.
Inicialmente, o grupo contou com o guitarrista Ben Eller em uma apresentação especial no festival Tool In The Sand, realizado na República Dominicana. Depois disso, Nick Johnston passou a assumir os shows da turnê de 2025 e ganhou espaço dentro do universo criativo da banda.
Conhecido por sua carreira solo instrumental e colaborações com nomes como Polyphia e Periphery, Johnston surge como uma escolha técnica e moderna para ajudar o Mastodon nesta nova fase.
Ao longo de mais de duas décadas, o grupo construiu uma das carreiras mais respeitadas do metal contemporâneo. Desde “Remission”, lançado em 2002, até “Hushed And Grim”, o Mastodon acumulou nove discos presentes na Billboard 200 e recebeu seis indicações ao Grammy, vencendo em 2018 com “Sultan’s Curse”.
Agora, o novo álbum carrega um peso diferente. Mais do que apenas um lançamento aguardado, o disco representa um encerramento simbólico de uma era marcada pela presença de Brent Hinds e pela estabilidade rara de uma formação que permaneceu intacta por 25 anos.
Para os fãs, a expectativa gira em torno de como toda essa experiência emocional será transformada em música. E, pelas palavras de Brann Dailor, esse sentimento parece ter sido incorporado diretamente nas composições.



