CANECÃO É TEMA DE NOVO DOCUMENTÁRIO EXIBIDO NO IN-EDIT BRASIL

Produção apresentada no festival reúne depoimentos de artistas, profissionais e frequentadores ligados à tradicional casa de shows carioca
Canecão é tema de documentário exibido no In-Edit

O documentário Canecão – Tantas emoções está entre os títulos selecionados para a Mostra Brasil da 18ª edição do In-Edit Brasil – Festival Internacional do Documentário Musical, que acontece entre os dias 17 e 28 de junho, em São Paulo. A produção dirigida e roteirizada por Bruno Levinson revisita parte da trajetória do Canecão, espaço que funcionou durante décadas no Rio de Janeiro e recebeu apresentações de nomes importantes da música brasileira.

Ao longo de 87 minutos, o filme reúne depoimentos de artistas, empresários, funcionários e profissionais que acompanharam diferentes momentos da história da casa. A narrativa procura recuperar lembranças associadas ao local, abordando tanto apresentações marcantes quanto situações de bastidores que fizeram parte da rotina do espaço.

Sem pretender apresentar um panorama completo de mais de quatro décadas de atividades, a produção adota um recorte específico sobre a história do Canecão. O documentário chega em um momento em que o antigo espaço volta a ser discutido por conta dos planos de reabertura como centro cultural, atualmente prevista para 2027.

O recorte escolhido para contar essa história

A trajetória do Canecão como casa de espetáculos começou em 1969, quando a cantora Maysa inaugurou oficialmente uma fase dedicada à realização de shows musicais. Nas décadas seguintes, o local recebeu artistas de diferentes gêneros e consolidou espaço no circuito cultural carioca.

Apesar dessa longa história, o documentário concentra boa parte de sua atenção na geração pop que ganhou força nos anos 1980. A estreia do espetáculo “Radioatividade”, da Blitz, aparece como um dos marcos utilizados para ilustrar as transformações vividas pela casa naquele período.

Essa escolha também se reflete na lista de entrevistados. Entre os participantes estão Bruno Gouveia, Evandro Mesquita, Fernanda Abreu, Leo Jaime, Lobão, Paulo Ricardo, Ritchie e Roberto Frejat, nomes ligados ao rock e ao pop brasileiro daquela década.

Embora o Canecão tenha sido palco de importantes temporadas da MPB nos anos 1970, esse período recebe menos espaço na narrativa. Ainda assim, algumas referências surgem ao longo do filme, especialmente por meio dos relatos dos entrevistados e das imagens de arquivo utilizadas para contextualizar a importância do local em diferentes épocas.

Em determinado momento, Lobão define o Canecão como “o templo sagrado da MPB”, observação que ajuda a lembrar o papel desempenhado pela casa antes da chegada da geração pop que ocupa boa parte do documentário.

O resultado é uma abordagem concentrada em determinadas fases da trajetória do espaço, sem a intenção de abranger todos os acontecimentos que marcaram seus mais de quarenta anos de funcionamento.

Elymar Santos compartilha lembranças de uma noite decisiva no Canecão em entrevista para o filme. (Foto: Reprodução / Vídeo)

Relatos de quem viveu o cotidiano da casa

Além dos artistas, o documentário reserva espaço para profissionais que trabalharam no Canecão ao longo dos anos. Funcionários, produtores e representantes do setor cultural ajudam a compor um retrato do funcionamento da casa para além dos espetáculos apresentados ao público.

Entre os depoimentos está o de Zélia Duncan, que relembra a emoção de ver seu nome anunciado pela primeira vez no tradicional letreiro instalado na entrada do local. Segundo a cantora, aquele momento simbolizava uma etapa importante na carreira de muitos artistas brasileiros.

A empresária Marilena Gondim também participa do filme e apresenta uma visão menos idealizada sobre os bastidores do Canecão. Em seu depoimento, ela reconhece a relevância cultural do espaço, mas lembra que a rotina de trabalho nem sempre era simples.

“O Canecão não era só um casa de shows. Era o lugar onde todo mundo queria estar”, afirma.

Logo depois, ela acrescenta:

“Não era fácil trabalhar no Canecão. Era tudo muito informal. Apesar de pior, o Canecão era melhor”.

Além dos relatos de artistas e empresários, o documentário inclui depoimentos de profissionais que atuaram em diferentes áreas da estrutura da casa. Essas participações ajudam a mostrar como o funcionamento do espaço dependia de uma ampla equipe que trabalhava longe dos holofotes.

Ao reunir essas perspectivas distintas, a produção procura registrar memórias que vão além dos grandes espetáculos, abordando também experiências ligadas ao cotidiano do local e às relações construídas nos bastidores.

Elymar Santos e outras memórias lembradas pelo filme

Entre os artistas entrevistados, Elymar Santos aparece como uma das figuras associadas ao Canecão ao longo de diferentes momentos de sua carreira. O cantor relembra experiências vividas no local e comenta a relação construída com o público durante as temporadas realizadas na casa.

Seu depoimento integra uma série de relatos que buscam recuperar lembranças de artistas que passaram pelo palco carioca em diferentes períodos. O foco não está necessariamente nos aspectos históricos da música brasileira, mas nas experiências pessoais e profissionais associadas ao espaço.

Outro personagem importante do documentário é o produtor artístico Jerson Alvim, que faleceu em 2025 aos 83 anos. Durante décadas, ele atuou como intermediador entre artistas, empresários e a administração da casa, participando diretamente da organização de inúmeros espetáculos.

Entre as histórias compartilhadas por Alvim está um episódio envolvendo um breve impasse entre Chico Buarque e Tom Jobim relacionado ao calendário de apresentações. Casos como esse ajudam a ilustrar os desafios enfrentados nos bastidores de uma agenda que frequentemente reunia alguns dos maiores nomes da música brasileira.

O documentário também faz referências a espetáculos lembrados até hoje por frequentadores e profissionais do setor, como Brasileiro, profissão: esperança, apresentado por Clara Nunes e Paulo Gracindo em 1974, e Chico Buarque & Maria Bethânia, de 1975. Essas menções surgem de forma pontual, reforçando que a produção opta por destacar apenas parte da extensa trajetória do local.

Ao final, Canecão – Tantas emoções apresenta um conjunto de depoimentos e recordações sobre uma casa que fez parte da cena cultural brasileira por mais de quarenta anos. Sem tentar esgotar o assunto, o documentário reúne diferentes perspectivas sobre um espaço que acompanhou mudanças importantes na música popular do país e continua presente na memória de artistas, profissionais e frequentadores.

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