CALIFÓRNIA TENTA BARRAR FUSÃO BILIONÁRIA ENTRE PARAMOUNT E WARNER

Estados americanos contestam na Justiça o acordo de US$ 110 bilhões, alegando riscos à concorrência no cinema e na TV por assinatura.
Califórnia tenta barrar fusão entre Paramount e Warner

A tentativa de fusão entre Paramount e Warner Bros. Discovery, avaliada em US$ 110 bilhões (cerca de R$ 565,4 bilhões), ganhou um novo obstáculo nos Estados Unidos. A Califórnia e outros 11 estados ingressaram com uma ação judicial para impedir que a operação seja concluída, alegando que a união das empresas poderá reduzir significativamente a concorrência em setores importantes da indústria do entretenimento.

O processo representa mais um capítulo em uma negociação considerada estratégica para o futuro da Paramount, que pretende fortalecer sua posição diante de concorrentes como Netflix e Disney. Enquanto autoridades estaduais afirmam que a concentração de mercado poderá prejudicar exibidores, operadoras de TV por assinatura e consumidores, a empresa sustenta que a fusão ampliará sua capacidade de investimento e produção de conteúdo.

Estados contestam acordo

A ação foi apresentada por uma coalizão formada pela Califórnia e outros 11 estados norte-americanos. Segundo os procuradores envolvidos, o objetivo é impedir que a Paramount conclua a aquisição da Warner Bros. Discovery antes que o Judiciário analise os impactos concorrenciais do negócio.

O procurador-geral da Califórnia informou que os estados solicitaram formalmente que a companhia suspenda qualquer etapa final da transação até que a disputa seja encerrada. Para as autoridades, a operação poderá concentrar excessivamente o mercado de distribuição cinematográfica e de canais de televisão por assinatura.

“Com este processo, a Califórnia e nossos estados parceiros estão lutando por mercados livres e justos, e não por mercados manipulados. Os Estados Unidos não têm reis no governo nem na economia”, afirmou Bonta em comunicado.”

De acordo com os números apresentados pelos estados, caso a fusão seja aprovada, a empresa resultante passará a controlar aproximadamente 27% do mercado de distribuição de filmes exibidos nos cinemas americanos, além de responder por cerca de 30% da distribuição das grandes produções cinematográficas e por 27% do segmento de canais básicos de TV a cabo.

Os autores da ação argumentam que esse nível de concentração poderá reduzir as opções disponíveis para exibidores e operadoras, além de aumentar o poder de negociação da nova companhia sobre diferentes agentes da cadeia do entretenimento.

A expectativa é que o processo judicial se estenda por vários meses. Esse cronograma pode atrasar significativamente o fechamento da operação e provocar custos adicionais elevados para a Paramount durante o período de espera.

A disputa judicial pode redefinir o futuro de uma das maiores negociações da história recente da indústria do entretenimento.

Empresa rebate críticas

A Paramount rejeitou as alegações apresentadas pelos estados e afirmou que a ação não representa corretamente o funcionamento atual do mercado de entretenimento, marcado pela forte presença das plataformas de streaming e pela competição global.

Em comunicado, a companhia declarou que a iniciativa judicial “distorce a jurisprudência consolidada em matéria antitruste e baseia-se em uma representação equivocada da concorrência na indústria do entretenimento atual”.

A empresa também sustenta que a combinação dos negócios permitirá ganhos operacionais importantes, incluindo a eliminação de estruturas consideradas redundantes. Segundo a Paramount, aproximadamente US$ 6 bilhões em despesas poderão ser reduzidos por meio da integração de áreas corporativas, marketing e outras operações administrativas.

A economia obtida, segundo a empresa, deverá ser direcionada para ampliar a produção de conteúdo. O CEO David Ellison afirmou anteriormente que os estúdios combinados pretendem lançar cerca de 30 filmes por ano, contrariando críticas de que a fusão diminuiria o número de produções disponíveis para os cinemas.

Mesmo assim, representantes de exibidores demonstram preocupação. Proprietários de redes de cinema afirmam que uma empresa com tamanho poder de mercado poderá concentrar investimentos em menos lançamentos ou modificar sua estratégia comercial, afetando a oferta de filmes nas salas de exibição.

A Paramount, por outro lado, insiste que a união fortalecerá sua capacidade competitiva justamente em um cenário no qual empresas tradicionais disputam espaço com gigantes do streaming e novos modelos de distribuição digital.

Disputa pode atrasar negócio

Além das autoridades estaduais, a proposta também enfrenta resistência de parte dos profissionais da indústria audiovisual. Organizações ligadas a atores, roteiristas e outros trabalhadores manifestaram preocupação com possíveis impactos sobre empregos e reestruturações internas após a integração das empresas.

Embora a Paramount afirme que o objetivo seja expandir sua atuação, sindicatos e representantes do setor temem que a busca por redução de custos resulte em cortes de equipes e mudanças na produção audiovisual.

Outro fator que amplia a relevância do caso é que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos já havia aprovado a operação sob o ponto de vista federal, concluindo que a fusão não apresentava problemas relacionados à concorrência. Ainda assim, a legislação americana permite que estados apresentem ações próprias para contestar esse tipo de transação.

O processo também ocorre em meio a observações sobre o contexto político envolvendo a companhia. David Ellison, CEO da Paramount, é filho de Larry Ellison, cofundador da Oracle e empresário que mantém relações próximas com o presidente Donald Trump. Além disso, a empresa contratou ex-integrantes do governo Trump para atuar em diferentes áreas.

Enquanto a batalha judicial avança, a Paramount também enfrenta pressão financeira. Pelo acordo firmado entre as empresas, a companhia deverá pagar aproximadamente US$ 650 milhões em taxas aos acionistas da Warner Bros. Discovery a cada trimestre caso a conclusão da operação ultrapasse o mês de outubro.

Segundo a empresa, atrasos prolongados poderão obrigar uma renegociação do financiamento da compra, aumentar a instabilidade em torno das ações da companhia e, em um cenário extremo, até comprometer definitivamente a concretização da fusão bilionária.

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