O músico sergipano Luno, conhecido pelo trabalho com a Plástico Lunar e pela atuação na Banda dos Corações Partidos, lançou “Seres de Pano”, segundo single de Mantracaru, seu próximo álbum solo. Disponível nas plataformas digitais, a faixa parte de uma imagem ligada ao artesanato e ao imaginário popular: pequenos bonecos de tecido ocupando uma antiga casa do interior, cercados por linhas, retalhos e madeira enquanto o som distante de um sino marca a passagem do tempo. A ambientação funciona como ponto de partida para uma composição que mistura memória, fantasia e questões relacionadas ao comportamento humano.
Os personagens foram criados por Luno como figuras simbólicas capazes de representar fragilidade, desejo e manipulação. O tecido, que pode ser costurado, perfurado, remendado ou transformado, aparece como metáfora para uma existência construída tanto pelas próprias decisões quanto pelas interferências externas. “A metáfora está nessa fragilidade: somos feitos de escolhas, mas também de pressões, desejos, relações e marcas que vão nos moldando. A música não dá uma resposta; ela deixa no ar a dúvida sobre até onde vai a nossa vontade e onde começa a influência do mundo sobre nós”, afirma o músico.
Um disco de contrastes
A proposta de “Seres de Pano” também ajuda a ampliar o universo apresentado anteriormente por “Colorida Barca”, primeiro single de Mantracaru. Enquanto a faixa anterior se aproximava de ideias como partida, transformação e esperança, o novo lançamento aposta em uma atmosfera mais misteriosa, na qual nem tudo o que determina os caminhos individuais parece estar sob controle. “Achei importante que o segundo single ampliasse essa percepção e mostrasse que o álbum não segue uma única atmosfera, mas transita entre luz e sombra, esperança e tensão, encantamento e crítica”, explica Luno.
Essa mudança também aparece na construção musical. “Seres de Pano” começa apoiada no piano acústico, com uma abordagem íntima e melancólica, antes de ganhar novos elementos. Efeitos sonoros ajudam a construir o cenário imaginativo, enquanto cordas e percussão sinfônica aumentam gradualmente a intensidade. A composição desemboca em uma sequência de riffs que reúne referências de indie rock, psicodelia e rock progressivo. Luno aponta ainda influências das trilhas de Danny Elfman para filmes de Tim Burton e aproximações com a sonoridade do Radiohead.
Os arranjos de cordas ficaram a cargo do maestro James Bertisch, que também gravou tímpano e tam-tam. A faixa conta com músicos da Orquestra Sinfônica de Sergipe: Thiago Salvino no violoncelo, Fabíola Fontele na viola, além de Junior Vanzella e Francisco Júnior nos violinos. Gabriel Perninha assume a bateria. Produzida por Léo Airplane e Luno Torres, a música integra um disco pensado como uma travessia entre cotidiano, elementos míticos, espiritualidade e diferentes interpretações sobre as relações e contradições humanas.
Mantracaru chega cinco anos depois de Homo Pacificus, primeiro álbum solo de Luno, lançado em 2021. O novo trabalho aproxima psicodelia brasileira, jazz, rock progressivo, referências nordestinas e música indiana, com influências de nomes como A Barca do Sol, O Terço, Os Mutantes, Sá, Rodrix & Guarabyra, Ednardo e Tetê Espíndola. “Acho que essas duas músicas já revelam que Mantracaru é um disco de contrastes fabulosos. Tem esperança, esquisitice, transcendência, crítica social, tudo convivendo em um mesmo universo. E ainda tem bastante coisa para aparecer: outras histórias e outros climas que atravessam o disco”, diz Luno.
O projeto foi realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo, por meio do Ministério da Cultura, Governo Federal, Governo do Estado de Sergipe e Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe (FUNCAP/SE).














