A banda OVM, de Jundiaí (SP), disponibilizou nas plataformas digitais o single duplo Não Toque, formado pela faixa-título e por “Ponto Cego”. O lançamento marca mais um passo na construção de Exúvios, segundo álbum do grupo, projeto desenvolvido ao longo de aproximadamente cinco anos e que aborda diferentes transtornos psicológicos, seus reflexos na vida cotidiana e as consequências sociais provocadas por essas condições.
Mantendo uma identidade sonora que mistura indie rock, britpop, rock alternativo e influências do big beat britânico, a OVM aposta em contrastes entre melodias envolventes e letras densas. A proposta permanece alinhada ao conceito explorado desde os primeiros lançamentos que antecipam o disco, reforçando uma narrativa construída em capítulos e conectando diferentes histórias em torno da saúde mental.
Não Toque e o contraste
A principal faixa do lançamento utiliza o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) como ponto de partida para sua narrativa. Em vez de transformar o peso do tema em uma sonoridade igualmente carregada, a OVM segue um caminho oposto. A música apresenta guitarras marcantes, harmonias vocais e uma base rítmica pulsante, criando uma atmosfera dançante inspirada pelo indie-dance-rock e pelo big beat britânico, mas sem recorrer à eletrônica típica desse gênero.
Esse contraste entre forma e conteúdo se tornou uma das características da banda. Enquanto a letra explora pensamentos repetitivos, angústia e conflitos internos, os arranjos conduzem o ouvinte por uma experiência musical vibrante, fazendo com que a reflexão aconteça de maneira menos previsível.
A estratégia faz parte da identidade artística desenvolvida pelo grupo desde seus primeiros trabalhos. Segundo a própria banda, a intenção nunca foi criar uma correspondência direta entre letra e instrumental, mas utilizar os dois elementos como camadas complementares capazes de provocar diferentes sensações durante a audição.
Ao apresentar o conceito de Exúvios, a OVM resumiu essa proposta de forma objetiva em declaração publicada anteriormente pelo Blog n’ Roll:
“A ideia é provocar o desejo de dançar através dos arranjos e grooves, enquanto expomos as incoerências e pensamentos intrusivos que afetam a sociedade.”
A combinação entre grooves acessíveis e letras que tratam de temas delicados reforça a proposta do novo álbum, que procura abordar questões ligadas à saúde mental sem recorrer a soluções simplistas ou narrativas lineares.

Ponto Cego amplia tema
Enquanto “Não Toque” aposta em ritmo acelerado, “Ponto Cego” segue uma direção bastante diferente. A faixa é construída como uma balada marcada por guitarras inspiradas no britpop e no indie rock, criando um ambiente introspectivo que acompanha o tema da composição.
A letra trata da dificuldade enfrentada por pessoas que convivem com depressão profunda e ideação suicida, mas escondem seus sentimentos até mesmo de familiares e amigos. Em vez de apresentar respostas ou conclusões definitivas, a música desenvolve uma narrativa baseada justamente nessa distância entre aquilo que acontece internamente e aquilo que as pessoas ao redor conseguem perceber.
O crescimento melódico da parte final amplia essa sensação. Um coro coletivo passa a acompanhar os instrumentos sem eliminar completamente o sentimento de isolamento descrito durante toda a composição. O resultado mantém aberta a interpretação do ouvinte, característica recorrente nas obras da banda.
A história de “Ponto Cego” também chama atenção pelo próprio processo de criação. A composição nasceu antes mesmo da formação oficial da OVM. Em sua primeira versão, intitulada “Entrega”, possuía outra temática, outra melodia e uma estrutura bastante diferente da atual.
Anos depois, o grupo decidiu revisitar o material utilizando a experiência adquirida ao longo da carreira. O sintetizador presente na gravação original foi retirado, abrindo espaço para guitarras, baixo e novos elementos de cordas, aproximando a faixa da identidade sonora construída pela banda em seus trabalhos mais recentes.
O coro que encerra a música também possui um significado especial. As vozes foram gravadas por familiares, amigos e integrantes da banda Viúva Fantasma, outro nome do catálogo da Casalago Records, ampliando o caráter coletivo da gravação.
Exúvios ganha forma
O single duplo chega após outros capítulos lançados ao longo de 2026. Antes dele, a OVM apresentou Depois?, formado pela faixa-título, dedicada à ansiedade, e por “As Pedras”, composição que discute dependência química, mecanismos de fuga e sofrimento psíquico.
Na sequência veio o EP Senóides, reunindo “Vestida” e “Senoide 1 / Senoide 2”. Nesta última, a banda utiliza diferentes movimentos musicais para representar momentos de crise e estabilização relacionados à esquizofrenia, incluindo uma introdução construída em compasso 7/8. O lançamento também retoma acontecimentos apresentados anteriormente em A Mosca, álbum de estreia da banda.
Todas essas músicas fazem parte de um projeto planejado durante aproximadamente cinco anos. Para garantir unidade sonora ao álbum, os integrantes registraram praticamente todos os instrumentos utilizando o mesmo equipamento e dentro das mesmas sessões de gravação, preservando características de timbre e produção ao longo de todo o repertório.
A produção, mixagem e masterização das etapas anteriores ficaram sob responsabilidade de Gui Godoy, produtor e fundador da Casalago Records.
Formada em Jundiaí em 2014, a OVM reúne atualmente Tiago Mancin (voz, guitarra e violão), Danilo Nascimento (guitarra, violão e backing vocals) e Edmilson “Eddie” de Souza (baixo).
O grupo nasceu a partir de encontros voltados inicialmente para interpretações de artistas como Blur, Nirvana e Franz Ferdinand. Pouco tempo depois, as composições próprias passaram a ocupar o centro do projeto, culminando no lançamento de A Mosca, em 2018. O disco utilizava a perspectiva de um inseto observando conflitos humanos e já estabelecia uma marca que continua presente: melodias acessíveis convivendo com letras voltadas a questões existenciais.
Nos anos seguintes, a banda lançou “Presente”, sobre o cotidiano de uma pessoa com depressão, “Ad Nauseam”, dedicada aos efeitos do excesso de informações na internet — indicada ao Prêmio Gabriel Thomaz de Música Brasileira na categoria Melhor Música — além dos EPs Egorama (2023) e Perversum Relegere (2025). Entre as influências assumidas pelo trio estão Radiohead, R.E.M., Nirvana, Queens of the Stone Age, Sonic Youth, Pink Floyd, Chico Buarque, Secos & Molhados e Os Mutantes, referências que ajudam a compor a identidade musical desenvolvida agora em Exúvios.













