Poucos álbuns da discografia do Black Sabbath despertam tantas discussões quanto Seventh Star. Lançado em janeiro de 1986, o trabalho costuma dividir opiniões por fugir da identidade construída pelo grupo ao longo dos anos 1970. Com uma sonoridade voltada ao hard rock e ao AOR, o disco se distancia das características que ajudaram a consolidar o Sabbath como um dos pilares do heavy metal.
O que muitos fãs desconhecem é que essa mudança não aconteceu por acaso. Seventh Star nasceu como um projeto solo de Tony Iommi, que pretendia explorar novas ideias musicais sem a responsabilidade de representar o Black Sabbath. No entanto, uma decisão da gravadora alterou completamente o rumo do lançamento, transformando o álbum em um capítulo oficial da banda e aumentando a sensação de estranhamento entre público e crítica.
Além das mudanças musicais, o período foi marcado por constantes trocas de integrantes, conflitos internos, dificuldades financeiras e problemas pessoais envolvendo parte dos músicos. O resultado foi um álbum que, mais do que apresentar novas canções, acabou registrando um dos momentos mais delicados da trajetória do grupo.
Um projeto que mudou de nome
Depois da saída de Ian Gillan, em 1984, Tony Iommi passou a ser o único integrante remanescente da formação clássica do Black Sabbath. Com Geezer Butler afastado e sem uma formação definida, o guitarrista enxergou naquele momento a oportunidade de desenvolver um trabalho completamente independente da banda.
A ideia inicial era reunir diferentes vocalistas, cada um interpretando uma ou mais músicas. Entre os nomes cogitados estavam Robert Plant, Rob Halford e David Coverdale. A proposta parecia promissora, mas logo encontrou obstáculos relacionados a contratos, agendas e compromissos assumidos por cada artista.
Em sua autobiografia Iron Man, Iommi relembrou as dificuldades enfrentadas durante esse processo. Segundo ele, cada tentativa terminava praticamente da mesma forma: “A coisa ficava sempre assim: ‘ah, não, estamos fazendo um álbum, não posso cantar no seu'”.
Sem conseguir reunir os convidados desejados, o guitarrista resolveu simplificar o projeto. Jeff Fenholt chegou a participar das primeiras gravações, registrando demos de músicas que mais tarde dariam origem a faixas presentes em Seventh Star. Entretanto, quando o produtor Jeff Glixman assumiu os trabalhos, concluiu que o vocalista não era a escolha ideal para o estúdio, encerrando rapidamente essa parceria.
Foi nesse cenário que Glenn Hughes entrou na história. Recém-saído de uma experiência complicada com Gary Moore, o ex-integrante do Deep Purple recebeu um convite para conhecer o material que Iommi vinha desenvolvendo.
Segundo Hughes, ao ouvir “No Stranger to Love”, imediatamente começou a trabalhar na letra ao lado do tecladista Geoff Nicholls. O entrosamento foi praticamente instantâneo. “Na noite seguinte fizemos [a letra de] ‘Danger Zone’. Tony adorou tudo”, recordou o cantor anos depois.
Conforme as gravações avançavam, Iommi percebeu que não fazia mais sentido manter a ideia de vários vocalistas. A performance de Hughes mudou completamente seus planos.
“Eu ia fazer um álbum com vários vocalistas, esse era o plano original. Mas ouvi a voz do Glenn e pensei: ninguém vai fazer melhor do que isso.”

Pressão, excessos e mudança de rumo
Com Glenn Hughes definido como vocalista principal, o projeto ganhou forma rapidamente. Além dele, Tony Iommi reuniu Eric Singer na bateria, Dave Spitz no baixo e Geoff Nicholls nos teclados. As gravações começaram em Los Angeles e foram concluídas em Atlanta, mudança que, segundo Hughes, ajudou a criar um ambiente mais produtivo.
“Foi ali que tudo começou a fluir mais livremente”, recordou o cantor, destacando que “Heart Like a Wheel” foi uma das músicas que consolidaram sua participação efetiva no disco.
A produção também aconteceu em ritmo acelerado. O motivo era simples: o próprio Tony Iommi financiava praticamente todas as sessões de gravação. “Tentamos acabar o mais rápido possível porque era eu pagando”, explicou o guitarrista.
Apesar do bom desempenho em estúdio, os bastidores estavam longe de ser tranquilos. Hughes enfrentava uma fase marcada pelo consumo excessivo de cocaína, algo que o próprio Iommi descreveu como um grande desafio durante as gravações. Ainda assim, o guitarrista nunca escondeu a admiração pela capacidade vocal do parceiro.
“Ele cantava como um sonho, sem esforço algum. Era uma voz dada por Deus.”
Hughes também reconheceu que atravessava um momento complicado em sua vida pessoal, mas acredita que isso não comprometeu seu desempenho artístico.
“Mesmo na minha paranoia de pó, eu ainda conseguia fazer o meu trabalho.”
Enquanto o álbum era finalizado, outra situação começou a gerar desconforto entre os envolvidos. Tony Iommi foi informado de que a gravadora pretendia lançar o trabalho como um disco do Black Sabbath, e não mais como um álbum solo.
A decisão desagradou o guitarrista.
“Eu queria liberdade para fazer um álbum com o som que eu quisesse.”
Glenn Hughes compartilhou da mesma opinião. Para ele, aquele repertório possuía uma identidade completamente diferente da história construída pelo Black Sabbath ao lado de Ozzy Osbourne.
“Sou um cantor de soul. Trabalhar com Tony fora do Sabbath fazia sentido; dentro dele, não.”
Mesmo com a resistência dos músicos, prevaleceu o entendimento da gravadora e do empresário Don Arden de que utilizar o nome Black Sabbath aumentaria significativamente o potencial comercial do lançamento. O disco passou a ser divulgado oficialmente como Black Sabbath featuring Tony Iommi, embora essa identificação tenha desaparecido em diversas reedições posteriores.
Essa mudança alterou completamente a percepção do público antes mesmo do álbum chegar às lojas. O que havia sido pensado como uma nova fase para Tony Iommi passou a carregar toda a expectativa criada em torno de uma banda que, naquele momento, já não possuía praticamente nenhum integrante de sua formação clássica além do próprio guitarrista.
Cinco shows e um fim precoce
Lançado em janeiro de 1986, Seventh Star chegou ao mercado cercado por expectativas que dificilmente poderiam ser atendidas. O público esperava um novo álbum do Black Sabbath, mas encontrou um trabalho que dialogava muito mais com o hard rock e o AOR da época do que com o heavy metal sombrio que tornou a banda referência na década anterior.
Mesmo dividindo opiniões, o disco teve desempenho razoável no Reino Unido, alcançando a 27ª posição nas paradas e permanecendo entre os mais vendidos durante cinco semanas. A recepção, porém, deixou claro que muitos fãs enxergavam aquele trabalho como algo distante da identidade tradicional do Sabbath.
Outro episódio que incomodou Tony Iommi foi a produção do videoclipe de “No Stranger to Love”. Com maquiagem, cenas românticas e uma estética bastante diferente da imagem construída pela banda ao longo dos anos, o resultado desagradou o guitarrista.
“Não tinha nada a ver com o nosso estilo”, afirmou posteriormente.
Se o lançamento do álbum já havia provocado reações divididas, a turnê transformou as dificuldades em uma crise ainda maior. A produção era ambiciosa, com palco de grandes proporções, equipamentos modernos para a época, efeitos de laser e uma estrutura cara que acabou sendo financiada, em grande parte, pelo próprio Iommi.
Glenn Hughes admitiu que nunca se sentiu totalmente confortável com a ideia de interpretar clássicos gravados originalmente por Ozzy Osbourne diante de milhares de fãs do Black Sabbath.
“Eu estava apavorado com a ideia de cantar ‘Iron Man’ para 10 ou 15 mil pessoas.”
Os problemas começaram logo nos primeiros dias da excursão. Além das dificuldades vocais provocadas pelo uso contínuo de cocaína e álcool, Hughes acabou se envolvendo em uma violenta discussão com o stage manager John Downing pouco antes da estreia da turnê. A briga terminou com o cantor sofrendo fraturas no rosto, deslocamento da cavidade ocular e lesões que afetaram ainda mais sua voz.
Mesmo sem condições físicas ideais, Hughes insistiu em subir ao palco. As apresentações em Cleveland, Detroit, East Rutherford, Providence e Worcester evidenciaram que a situação era insustentável. O vocalista lutava para completar os shows enquanto Tony Iommi via o projeto desmoronar diante do público.
Poucos dias depois da quinta apresentação, Hughes deixou oficialmente a turnê. Seu substituto foi Ray Gillen, que assumiu os vocais no restante da excursão e iniciou mais uma das inúmeras mudanças de formação vividas pelo Black Sabbath naquela década.
Com o passar dos anos, Seventh Star passou a ser reavaliado por parte da crítica e dos fãs. Embora continue figurando entre os discos mais controversos da carreira da banda, muitos passaram a enxergá-lo sob outra perspectiva: não como uma tentativa frustrada de dar continuidade ao legado do Black Sabbath, mas como o registro de um projeto que nunca deveria ter carregado esse nome.
O próprio Tony Iommi jamais escondeu que preferia vê-lo reconhecido como o álbum solo que originalmente imaginou. Ainda assim, o lançamento acabou marcando uma fase importante de sua trajetória. Em um momento em que praticamente carregava sozinho o peso da marca Black Sabbath, o guitarrista precisou equilibrar decisões artísticas, pressões comerciais e uma sucessão de problemas internos que colocavam em dúvida o futuro da banda.
Hoje, quase quatro décadas depois, Seventh Star permanece como um dos capítulos mais peculiares da história do Black Sabbath. Mais do que um disco diferente dentro da discografia do grupo, ele funciona como um retrato fiel de uma época em que o nome da banda sobrevivia graças à persistência de Tony Iommi, mesmo quando sua identidade já caminhava por uma direção completamente distinta.
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