PESQUISA DOS EUA LIGA USO DE CANNABIS A DESENVOLVIMENTO MAIS LENTO EM JOVENS

Estudo com mais de 11 mil adolescentes aponta diferenças no ritmo de evolução cognitiva entre usuários e não usuários da substância
Estudo liga cannabis a desenvolvimento lento em jovens

A relação entre o uso de cannabis e o desenvolvimento cerebral na adolescência voltou ao centro do debate científico após a divulgação de um estudo longitudinal conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego. Considerada uma das maiores investigações do tipo já realizadas nos Estados Unidos, a pesquisa acompanhou mais de 11 mil jovens desde o final da infância até a adolescência, analisando como o contato com a substância pode influenciar funções cognitivas essenciais ao longo do tempo.

Os resultados indicam que adolescentes que relataram uso de cannabis apresentaram um progresso mais lento em áreas como memória, atenção, linguagem e velocidade de processamento quando comparados a colegas que permaneceram abstinentes. Embora muitos participantes tenham iniciado o estudo com níveis semelhantes de desempenho cognitivo, diferenças começaram a surgir à medida que o acompanhamento avançava, sugerindo uma divergência gradual no ritmo de desenvolvimento.

Segundo a principal autora do estudo, a professora assistente de psiquiatria Natasha Wade, os dados devem ser interpretados dentro do contexto da fase da vida analisada. “A adolescência é um período crítico para o desenvolvimento cerebral, e o que estamos vendo é que os adolescentes que começam a usar cannabis não estão melhorando na mesma velocidade que seus pares. Essas diferenças podem parecer pequenas a princípio, mas podem se acumular de maneiras que afetam o aprendizado, a memória e o funcionamento diário.”

estudo acompanha adolescentes ao longo dos anos

Um dos principais diferenciais da pesquisa está em seu formato longitudinal, que permite observar mudanças ao longo do tempo, em vez de apenas registrar um retrato momentâneo. Os participantes foram monitorados por vários anos, com avaliações periódicas de desempenho cognitivo e coleta de dados sobre hábitos de vida, ambiente familiar e saúde mental.

Para aumentar a precisão das informações, os pesquisadores não dependeram apenas de relatos dos adolescentes. Foram utilizados também testes biológicos, incluindo análises de cabelo, urina e saliva, com o objetivo de confirmar o uso de substâncias ao longo do período estudado. Esse cruzamento de dados ajudou a reduzir possíveis inconsistências e fortaleceu a confiabilidade dos resultados.

Durante o acompanhamento, os cientistas observaram que, embora o impacto cognitivo identificado não seja classificado como severo, ele se manifesta de forma consistente em diferentes áreas. A evolução mais lenta não significa necessariamente uma perda imediata de capacidade, mas sim um atraso no ritmo de desenvolvimento quando comparado ao padrão observado em adolescentes que não fazem uso da substância.

Esse tipo de diferença, segundo os autores, pode se tornar mais relevante com o passar dos anos, especialmente em contextos acadêmicos e profissionais, onde habilidades como concentração, memória e processamento de informações desempenham papel central.

Uso de cannabis na adolescência pode estar ligado a alterações no desenvolvimento cognitivo, aponta estudo recente (Foto: Reprodução)

THC e CBD apresentam efeitos distintos

Outro ponto investigado pelo estudo foi a influência de componentes específicos da cannabis. Em um subgrupo analisado, os pesquisadores identificaram que adolescentes expostos ao THC (tetrahidrocanabinol), principal substância psicoativa da planta, apresentaram quedas mais acentuadas no desempenho relacionado à memória.

Já os participantes que utilizaram produtos com predominância de CBD (canabidiol) não demonstraram o mesmo padrão de declínio cognitivo. Ainda assim, os cientistas alertam para a complexidade desse tipo de análise, uma vez que muitos produtos rotulados como contendo apenas CBD podem apresentar pequenas quantidades de THC em sua composição.

Essa distinção entre compostos reforça a necessidade de compreender melhor como diferentes formas de consumo podem impactar o cérebro em desenvolvimento. O estudo não chega a conclusões definitivas sobre todos os mecanismos envolvidos, mas sugere que o tipo de substância consumida pode influenciar diretamente os efeitos observados.

Além disso, os pesquisadores destacam que fatores como frequência de uso, idade de início e contexto social também podem desempenhar papel relevante na forma como o cérebro responde à exposição à cannabis durante a adolescência.

pesquisadores alertam para contexto e limites do estudo

Apesar dos resultados, os próprios autores do estudo ressaltam que não é possível estabelecer uma relação de causa direta entre o uso de cannabis e as diferenças cognitivas observadas. Isso porque outros fatores, como ambiente familiar, características individuais e condições de saúde mental, também podem influenciar o desenvolvimento dos adolescentes.

Para minimizar essas variáveis, a pesquisa buscou controlar aspectos como capacidade cognitiva inicial, histórico familiar e condições socioeconômicas. Ainda assim, os cientistas reconhecem que estudos desse tipo lidam com múltiplas influências simultâneas, o que exige cautela na interpretação dos dados.

Mesmo com essas limitações, o trabalho ganha relevância em um cenário de crescente acesso à cannabis em diferentes regiões. A ampliação da disponibilidade da substância, seja por mudanças legais ou maior aceitação social, torna o tema ainda mais presente no debate público.

Nesse contexto, Natasha Wade reforça a importância da informação como ferramenta de prevenção. “Adiar o uso de cannabis contribui para o desenvolvimento saudável do cérebro. À medida que a cannabis se torna mais amplamente disponível, é importante que famílias e adolescentes entendam como ela pode afetar o cérebro em desenvolvimento.”

A pesquisa, portanto, não apenas amplia o conhecimento científico sobre o tema, mas também levanta questões relevantes sobre educação, saúde pública e o papel da conscientização no acompanhamento de jovens em uma fase decisiva de suas vidas.

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