Em uma noite em que as tradições juninas disputavam espaço sonoro com as batidas eletrônicas que ecoavam pelas ruas de Maceió, a artista Vita apresentou algo que foi muito além de um show musical. No palco do Rex Jazz Bar, localizado no histórico bairro do Jaraguá, a cantora, atriz e performer transformou seu álbum de estreia solo, VITA’S HOUSE, em uma experiência coletiva que uniu espetáculo teatral, festa ballroom e manifestação política.
A apresentação marcou a estreia da turnê solo da artista no Nordeste e evidenciou não apenas a força de seu primeiro trabalho sem a parceria das Irmãs de Pau, mas também o crescimento de uma cena artística que reivindica novos espaços de representação e pertencimento. Em um ambiente tomado pelo calor, pela expectativa e pela diversidade de públicos, cada minuto de espera parecia fazer parte da própria dramaturgia construída pela cantora.
Quando as portas do espetáculo finalmente se abriram ao som de “SANTO FORTE”, ficou evidente que o público não estava diante de uma apresentação convencional. A fusão entre referências religiosas de matriz africana, house music, cultura ballroom e performance teatral criou um ambiente onde espiritualidade, identidade e celebração coexistiam. A partir daquele momento, VITA’S HOUSE deixava de ser apenas o nome de um álbum para se transformar, literalmente, em um espaço simbólico de acolhimento e resistência.
Uma casa construída no palco
O conceito central de VITA’S HOUSE nasce justamente da ideia de criar um espaço seguro, político e afetivo. O álbum percorre sonoridades que transitam entre música eletrônica, funk, dancehall e house music, enquanto explora temas ligados à espiritualidade, vulnerabilidade, sensualidade e travestilidade.
Em entrevista concedida anteriormente ao portal TMDQA!, Vita explicou a importância dessa construção simbólica dentro do disco. A faixa “TREME A LÍNGUA”, responsável por encerrar o trabalho, exemplifica essa proposta ao abordar Exu como símbolo de autoconhecimento e fortalecimento pessoal.
“Na casa de Exu, travesti faz moradia / Na casa de Exu, encontrei minha pomba-gira / Que me fez mulher saudável, corajosa”.
A artista também explicou a motivação por trás da obra:
“Eu queria construir essa casa como uma fortaleza para outras pessoas e para mim. Iniciar o álbum dessa forma e ter esses momentos é um passo também muito importante.”
A construção desse universo artístico também contou com a participação de nomes importantes da cena LGBTQIAPN+, reunindo artistas e produtores como DJ Caio Prince, TAJ MA HOUSE, Cyberkills, Urias, Candy Mel e Linn da Quebrada. O resultado é um trabalho que amplia as possibilidades estéticas da música pop brasileira contemporânea, ao mesmo tempo em que reafirma a arte como espaço de afirmação identitária.

Nordeste abre as portas
A escolha de Maceió como primeira parada nordestina da turnê solo de Vita não aconteceu por acaso. A relação construída entre a artista e o público local já havia se fortalecido anteriormente, especialmente após a participação das Irmãs de Pau no Maceió Pop Festival de 2025, quando a dupla protagonizou uma das apresentações mais comentadas do evento.
Na ocasião, milhares de fãs acompanharam a performance, transformando o festival em uma celebração coletiva que ajudou a consolidar Vita e Isma como importantes referências artísticas e políticas para a população trans e travesti brasileira.
Esse reconhecimento, entretanto, vai além do sucesso musical. Durante uma pausa na apresentação, Vita destacou a importância do atual momento político para a produção artística LGBTQIAPN+, especialmente em um contexto eleitoral e social marcado por disputas sobre representatividade e direitos.
Em entrevista anterior, a artista comentou:
“Hoje no dia não tem só artistas trans, também temos pensadoras, políticas, médicas… estamos em vários outros lugares. Isso é um reflexo de uma luta política que vieram antes de nós”.
A fala sintetiza uma transformação que ultrapassa o universo da música. O crescimento da presença de artistas trans e travestis em diferentes espaços culturais representa um movimento histórico de ocupação, visibilidade e reconhecimento, ainda atravessado por desafios estruturais e preconceitos persistentes.
Nesse contexto, VITA’S HOUSE funciona não apenas como entretenimento, mas também como documento cultural e ferramenta de afirmação política.
Ballroom, teatro e emoção
Um dos principais diferenciais da apresentação está justamente na forma como Vita utiliza sua formação acadêmica em teatro para construir uma experiência performática complexa e dinâmica. O espetáculo se transforma constantemente, incorporando elementos da cultura ballroom, dança contemporânea, dramaturgia e música popular.
Essa mistura ficou ainda mais evidente quando o show entrou em seu bloco dedicado ao funk. Faixas como “TOUCH MY BODY”, “SALADA” e “VEM PRA RAGGA” provocaram uma explosão coletiva no público, que passou a cantar e dançar praticamente em uníssono.
A combinação entre coreografias, teatralidade e participação do público atingiu seu ápice durante a já celebrada dança das cadeiras promovida pela artista, transformando o palco em um ambiente simultaneamente festivo e performático.
Em um dos momentos mais emocionantes da noite, durante a execução de “AINDA HÁ VERA VERÃO”, Vita dividiu o protagonismo com Bonita Mesaki, uma das principais representantes da cena ballroom de Maceió. O resultado foi uma performance carregada de simbolismo, emoção e reconhecimento coletivo.
O encerramento, naturalmente, ficou reservado para “VITA’S HOUSE”. Mesmo após uma apresentação intensa, a faixa-título conseguiu mobilizar novamente a plateia, transformando o espaço em uma celebração da existência, da sobrevivência e da construção de comunidade.
A apresentação atingiu seu ponto máximo quando Vita convidou público e bailarinos para uma sessão de ballroom coletiva. Entre dips, aplausos e lágrimas, ficou evidente que a proposta artística havia sido plenamente alcançada: construir, ainda que por algumas horas, uma casa onde diferentes corpos, histórias e experiências pudessem finalmente se reconhecer como pertencentes.



