Vanusa e Black Sabbath: Plágio, coincidência sonora ou influência escondida?

Faixa lançada pela cantora brasileira em 1973 levanta suspeitas de semelhança com riffs clássicos do metal
Vanusa e Black Sabbath Plágio, coincidência sonora ou influência escondida

A história da música é cheia de encontros improváveis, coincidências sonoras e influências que atravessam fronteiras sem deixar rastros claros. De tempos em tempos, surgem teorias que desafiam a lógica estabelecida — algumas absurdas, outras intrigantes, e algumas simplesmente impossíveis de ignorar depois que você escuta com atenção. É nesse território que entra uma discussão que vem ganhando força entre ouvintes atentos: teria a cantora brasileira Vanusa, em 1973, antecipado ideias que mais tarde apareceriam em músicas clássicas do Black Sabbath?

A teoria gira em torno da faixa “What You Do”, presente no álbum Vanusa (1973). À primeira audição, trata-se de uma música fora da curva dentro do repertório mais conhecido da artista — com uma sonoridade mais densa, arranjos ousados e uma atmosfera que flerta com o rock psicodélico e até com o peso do hard rock setentista. Mas é ao ouvir com atenção que alguns fãs começam a perceber algo mais específico: semelhanças estruturais e melódicas com riffs que o Black Sabbath tornaria icônicos naquele mesmo período — e até alguns anos depois.

Não se trata de uma acusação direta de plágio. Pelo contrário: o debate que surge aqui é muito mais sutil — e talvez mais interessante. Estamos falando de uma possível conexão invisível entre obras, daquelas que podem nascer de coincidência, de linguagem musical compartilhada ou, em um cenário mais especulativo, de uma influência inconsciente. O tipo de coisa que não aparece nos créditos, mas que intriga quem escuta com atenção.

O riff que acende a discussão

O ponto de partida dessa teoria está no riff principal de “What You Do”. Construído sobre uma base arrastada, com timbres mais graves e uma progressão que carrega certa tensão melódica, ele chama atenção justamente por lembrar — ainda que não de forma idêntica — o riff de abertura de “Sabbath Bloody Sabbath”, lançado pelo Black Sabbath em dezembro de 1973.

A comparação não é imediata para todos os ouvintes, mas, uma vez percebida, torna-se difícil ignorar. A sensação não é de cópia direta, mas de proximidade estética e estrutural, como se ambas as músicas partissem de uma mesma ideia musical ou de caminhos muito parecidos dentro da harmonia.

É importante destacar que esse tipo de semelhança não é incomum na música. Riffs baseados em intervalos específicos, progressões menores e variações rítmicas semelhantes aparecem com frequência em diferentes gêneros, especialmente em um período como os anos 1970, quando o rock estava se expandindo em múltiplas direções ao mesmo tempo.

Ainda assim, a coincidência ganha peso quando se observa a linha do tempo. O álbum de Vanusa foi lançado meses antes do disco do Black Sabbath. Ou seja: do ponto de vista cronológico, existe uma janela possível — ainda que improvável — para algum tipo de contato indireto.

Mas aqui é fundamental manter os pés no chão: não há qualquer registro, entrevista ou documento que comprove que Tony Iommi ou qualquer membro do Black Sabbath tenha ouvido Vanusa. A teoria se sustenta exclusivamente na escuta comparativa.

O trecho final e a ligação com “Dirty Women”

Se a semelhança com “Sabbath Bloody Sabbath” já seria suficiente para levantar sobrancelhas, o que realmente intensifica a discussão é o trecho final de “What You Do”. É nesse momento que alguns ouvintes identificam um outro ponto curioso: uma aproximação com o riff presente em “Dirty Women”, faixa lançada pelo Black Sabbath em 1976, no álbum Technical Ecstasy.

Aqui, a diferença temporal é ainda maior — três anos separam as gravações. Isso torna a coincidência ainda mais intrigante para quem defende a teoria, já que não estamos falando de músicas lançadas simultaneamente, mas de ideias que parecem reaparecer com o tempo dentro da obra da banda britânica.

Mais uma vez, é importante evitar conclusões precipitadas. A semelhança não é literal, nem tecnicamente idêntica. O que existe é uma proximidade de clima, construção melódica e sensação sonora, especialmente na forma como o riff se desenvolve e se resolve.

Esse tipo de percepção costuma dividir opiniões. Para alguns, é apenas um exemplo clássico de como músicos diferentes podem chegar a soluções semelhantes. Para outros, é o tipo de coincidência que levanta dúvidas legítimas — principalmente quando ocorre mais de uma vez.

Vanusa em fase experimental nos anos 70 — uma artista que ousou ir além do esperado e acabou, décadas depois, entrando em uma das teorias mais curiosas envolvendo o Black Sabbath. (Foto: Reprodução)

Vanusa além do estereótipo

Para entender por que essa teoria faz algum sentido dentro de um contexto mais amplo, é preciso olhar com mais atenção para o próprio álbum Vanusa (1973). Longe de ser apenas mais um disco dentro da MPB tradicional, ele apresenta uma artista disposta a experimentar, arriscar e dialogar com sonoridades que estavam em ebulição no cenário internacional.

A presença de guitarras com mais peso, arranjos menos convencionais e uma atmosfera por vezes sombria mostram uma Vanusa que foge completamente da imagem popularmente associada à cantora. É justamente esse lado menos conhecido que permite que comparações como essa surjam.

Naquele período, o Brasil vivia um momento musical extremamente fértil, mesmo sob as limitações impostas pela ditadura militar. Artistas exploravam novas linguagens, misturando rock, psicodelia, música brasileira e influências estrangeiras de forma única. Nesse contexto, não é absurdo imaginar que ideias semelhantes estivessem sendo desenvolvidas em diferentes partes do mundo ao mesmo tempo.

O que talvez chame mais atenção é o fato de que esse tipo de som, vindo de uma artista brasileira, não tenha ganhado a mesma projeção internacional que bandas britânicas tiveram. Isso cria um efeito curioso: quando uma semelhança é percebida, ela soa quase como uma inversão de expectativa — como se o fluxo de influência pudesse ter sido o oposto do que normalmente se imagina.

Coincidência, linguagem comum ou inspiração inconsciente?

Chegamos, então, ao ponto central da discussão. Diante dessas semelhanças, qual é a explicação mais plausível?

A primeira — e mais conservadora — é a de coincidência musical. Riffs baseados em estruturas semelhantes podem surgir de forma independente, especialmente em gêneros que compartilham referências comuns, como o blues e o rock.

A segunda possibilidade envolve o que podemos chamar de linguagem musical compartilhada. Nos anos 1970, músicos de diferentes países estavam absorvendo influências parecidas, experimentando com timbres, distorções e estruturas harmônicas que naturalmente levavam a resultados próximos.

Já a terceira hipótese — mais especulativa — é a de inspiração inconsciente. Nesse cenário, alguém do Black Sabbath poderia ter tido contato com a música de Vanusa de forma indireta, sem registrar conscientemente essa influência, mas ainda assim incorporando elementos dela em sua própria criação.

Casos desse tipo já foram discutidos na história da música. Um dos mais conhecidos envolve George Harrison, que foi acusado de ter reproduzido, ainda que sem intenção, elementos de outra composição em “My Sweet Lord”. Isso mostra que a ideia de influência inconsciente não é absurda — apenas difícil de provar.

No caso específico de Vanusa e Black Sabbath, porém, falta o elemento essencial: evidência concreta. Sem registros, declarações ou conexões documentadas, a teoria permanece no campo da interpretação.

Ainda assim, isso não diminui seu valor. Pelo contrário. Esse tipo de discussão revela algo importante: a música é um território aberto, onde conexões inesperadas podem surgir a qualquer momento. E, às vezes, essas conexões dizem tanto sobre quem escuta quanto sobre quem criou.

No fim das contas, a melhor forma de abordar essa história é simples: ouvir. Colocar lado a lado “What You Do”, “Sabbath Bloody Sabbath” e “Dirty Women”. Prestar atenção nos detalhes, nas sensações, nas estruturas.

Porque, mais do que provar qualquer coisa, o que essa teoria oferece é algo talvez ainda mais interessante: um novo olhar sobre obras que muita gente achava que já conhecia completamente.

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