Brasília voltou a provar, na noite da última quarta-feira (13), que continua sendo um dos polos mais pulsantes da música instrumental brasileira. O SUPERJAZZ Festival, realizado no Centro Cultural Banco do Brasil, reuniu artistas, músicos e público em uma celebração marcada pela improvisação, pela mistura de estilos e pela atmosfera quase hipnótica criada no palco montado pelo Coletivo Superjazz. A edição contou com uma apresentação especial da gig do coletivo e teve como um dos pontos altos da programação a participação do trombonista Josiel Konrad, que encerrou a noite com intensidade e domínio absoluto do palco.
Com público atento do começo ao fim, o festival reforçou o espaço que Brasília vem ocupando dentro do circuito nacional da música alternativa e instrumental. O evento também mostrou como iniciativas independentes têm conseguido transformar encontros musicais em experiências coletivas cada vez mais amplas, conectando jazz, hip hop, música brasileira, soul e elementos eletrônicos em uma mesma linguagem.
A proposta do SUPERJAZZ Festival foi além de um simples show. A ideia era criar uma grande experiência de troca entre artistas e plateia, valorizando o improviso e a liberdade criativa como elementos centrais da noite. E foi exatamente isso que aconteceu ao longo das apresentações no CCBB.
A força coletiva da Superjazz tomou conta da noite
Idealizado pelo Coletivo Superjazz, o festival carregou a mesma essência que consolidou o projeto como uma das iniciativas mais relevantes da cena instrumental contemporânea de Brasília. A apresentação da gig do coletivo funcionou como um grande organismo vivo, em que cada músico parecia impulsionar o outro em tempo real, criando camadas sonoras que mudavam constantemente ao longo da noite.
A atmosfera construída no palco misturava momentos mais contemplativos com explosões rítmicas intensas. O público respondeu imediatamente à proposta, acompanhando cada virada instrumental e cada improviso mais ousado com atenção rara para um evento desse porte. Mesmo nos trechos mais experimentais, havia uma sensação clara de unidade entre músicos e audiência.
Um dos elementos mais marcantes da apresentação foi justamente essa ausência de barreiras entre estilos. O SUPERJAZZ transitou por referências do jazz tradicional, grooves ligados ao funk e à música negra, passagens próximas do neo soul e momentos que dialogavam diretamente com a música urbana contemporânea. Tudo isso sem soar forçado ou excessivamente técnico.
Ao invés de transformar a noite em uma exibição de virtuosismo isolado, o coletivo apostou em construção de ambiente e comunicação direta com quem estava presente. Essa característica acabou tornando a experiência mais acessível até mesmo para quem não acompanha regularmente a cena instrumental.
O CCBB também contribuiu para essa atmosfera. O espaço ofereceu estrutura confortável e ajudou a valorizar tanto a qualidade sonora quanto a proposta estética do festival. O clima de encontro cultural ficou evidente desde os primeiros minutos do evento, com público diverso ocupando o espaço de maneira bastante orgânica.

Josiel Konrad encerrou o festival com presença dominante
Se a apresentação do Coletivo Superjazz já havia elevado o nível da noite, a entrada de Josiel Konrad ampliou ainda mais a intensidade do festival. O trombonista assumiu o palco com presença forte e conduziu um encerramento carregado de personalidade, técnica e conexão direta com o público.
Conhecido por misturar jazz, música afro-brasileira, rap e influências periféricas em sua sonoridade, Josiel apresentou uma performance que conseguiu equilibrar sofisticação musical e impacto popular. Seu trombone funcionava quase como uma extensão da própria voz, alternando momentos melódicos com ataques mais agressivos e improvisações expansivas.
A resposta da plateia foi imediata. Conforme o show avançava, o público passou a interagir mais intensamente com cada mudança de dinâmica, criando uma energia crescente até os minutos finais da apresentação. Em vários momentos, a sensação era de que o festival havia se transformado em uma grande jam coletiva, exatamente como propunha a ideia central do evento.
Outro ponto importante da apresentação foi a naturalidade com que Josiel transitou entre estilos e atmosferas diferentes. Sem perder identidade, o músico incorporou elementos contemporâneos à linguagem do jazz instrumental, aproximando sua performance de públicos variados e reforçando a força atual da música instrumental brasileira fora dos circuitos mais tradicionais.
O encerramento aconteceu de maneira explosiva, mas também emocional. Ao final da apresentação, a sensação geral era de que o público havia participado de algo difícil de encaixar em apenas um gênero musical. O SUPERJAZZ Festival acabou funcionando mais como uma experiência cultural ampla do que como um evento convencional de shows.

Brasília reforça seu espaço na cena instrumental brasileira
O sucesso da edição realizada no CCBB também ajuda a reforçar um movimento que vem crescendo nos últimos anos em Brasília: a valorização de projetos ligados à música instrumental contemporânea e às experiências híbridas entre jazz, música urbana e cultura independente.
Historicamente conhecida por sua força no rock e na música autoral, a capital federal passou a abrigar também uma nova geração de artistas interessados em improvisação, experimentação sonora e fusão de linguagens. O Coletivo Superjazz surge justamente dentro desse contexto, criando pontes entre diferentes cenas e ampliando o alcance da música instrumental na cidade.
Eventos como o SUPERJAZZ Festival mostram que existe público para propostas menos convencionais, especialmente quando elas conseguem dialogar de maneira mais aberta com outras linguagens musicais contemporâneas. Ao invés de restringir o jazz a um nicho específico, o festival apresentou o gênero como algo vivo, urbano e em constante transformação.
A presença de nomes como Josiel Konrad também reforça esse caráter contemporâneo da cena instrumental atual, aproximando tradição e modernidade em uma mesma experiência sonora. O resultado foi uma noite marcada por improviso, conexão coletiva e forte identidade artística.
Mais do que apenas um evento isolado, o SUPERJAZZ Festival deixou a impressão de que Brasília segue consolidando um circuito cultural capaz de dialogar com diferentes públicos sem abrir mão da experimentação. E, ao final da noite no CCBB, ficou evidente que essa mistura entre liberdade criativa, groove e encontro coletivo continua sendo uma das linguagens mais vivas da música brasileira atual.





















