RUA DAS PRETAS LANÇA “POVO BRASILEIRO” E APROFUNDA IDENTIDADE ATLÂNTICA

Projeto de Pierre Aderne apresenta álbum e curta que exploram formação cultural entre Brasil, África e Portugal
RUA DAS PRETAS 1 crédito AF Rodrigues

O projeto Rua Das Pretas, idealizado por Pierre Aderne, apresenta o álbum e curta-metragem “Povo Brasileiro”, uma obra que se propõe a investigar as origens culturais e históricas que moldaram o Brasil a partir de conexões transatlânticas. Inspirado no pensamento do sociólogo Darcy Ribeiro, o trabalho busca compreender os encontros, conflitos e transformações que deram origem à identidade brasileira, evitando abordagens nostálgicas ou simplificadoras.

Gravado em junho de 2025 na Casa Darcy Ribeiro, em Maricá, no Rio de Janeiro, o projeto reúne artistas de diferentes territórios ligados pela língua portuguesa. A proposta vai além de um registro musical: trata-se de uma experiência artística que conecta história, política e cultura em um mesmo eixo criativo, atravessando gêneros e tradições sem estabelecer hierarquias.

um projeto musical que atravessa oceanos e histórias

“Povo Brasileiro” nasce de uma reflexão sobre o Atlântico como espaço de trocas, tensões e reinvenções culturais. A partir desse ponto de vista, Pierre Aderne constrói uma narrativa que não se limita a contar a história do Brasil, mas sim a dar voz às contradições que marcaram sua formação. O resultado é um trabalho que dialoga com o passado, mas se posiciona firmemente no presente.

A gravação na Casa Darcy Ribeiro, projetada por Oscar Niemeyer e inspirada nas aldeias Tupinambá, reforça o conceito do projeto. O espaço não apenas abriga o registro, mas também simboliza a ideia de um Brasil construído a partir de múltiplas influências, muitas vezes conflitantes.

Musicalmente, o álbum reúne uma variedade de estilos que refletem essa diversidade: samba, samba de roda, ijexá, morna, fado, capoeira e pontos de candomblé coexistem em um mesmo ambiente sonoro. A proposta não busca uniformidade, mas sim evidenciar as diferenças e conexões entre essas manifestações.

As letras são assinadas por Pierre Aderne, enquanto as melodias contam majoritariamente com a colaboração de Moacyr Luz. A direção musical e os arranjos ficam a cargo de Kiko Horta, que também divide a produção com Aderne. Essa combinação de criadores resulta em um trabalho que equilibra intenção conceitual e execução musical.

colaboração internacional e identidade coletiva

O projeto Rua Das Pretas se consolida como um espaço de encontro entre artistas de diferentes origens. Nesta fase, participam nomes como a cantora cabo-verdiana Zulu, a fadista portuguesa Ana Margarida Prado, o multi-instrumentista Nilson Dourado, a flautista Letícia Malvares e Jurema De Candia, além de músicos ligados ao Cordão do Boitatá.

A presença de artistas brasileiros como Paulino Dias, Quininho da Serrinha, Edu Neves, Aquiles, Everson Moraes, Bruno Aguilar, Tadeuzinho, Luis Barcelos e Carlinhos 7 Cordas amplia ainda mais o alcance do projeto, criando um diálogo entre tradição e contemporaneidade.

Aderne define o conceito central do trabalho ao afirmar:

“Neste enredo da lavagem das caravelas, intuímos com quantos ´paus-brasis se fez o mar. Na oralidade cantada e tocada dessa língua portuguesa, brasileira e africana, onde se escuta os sons da mata, o espírito dos povos originários, a ressonância dos berimbaus, o balanço salgado Atlântico de Benguela à Bahia, que dá a luz ao povo brasileiro, abrindo janelas, olhos e ouvidos de sua comunidade — principalmente nesta altura que à geopolítica fecha portas à diversidade.“

Moacyr Luz também destaca o valor artístico da obra:

“Acho que numa época onde grande parte da produção cultural é confundida com outro tipo de entretenimento, gravar músicas, propor arranjos, como desse trabalho do ´Povo Brasileiro´ da Rua Das Pretas, é muito significativo, quase um norte.”

Kiko Horta reforça a dimensão simbólica do projeto:

“O encontro com a poesia de Pierre Aderne e Moacyr e um projeto tão simbólico como a Rua das Pretas abriu portas para uma travessia musical de muitos encantos.”

Músicos do Rua Das Pretas em sessão intimista de gravação, evidenciando o caráter coletivo e transatlântico do projeto. (Foto: A.F. Rodrigues)

curta-metragem e expansão do conceito visual

Além do álbum, “Povo Brasileiro” também se desdobra em um curta-metragem dirigido por Pierre Aderne, com roteiro assinado em parceria com Jorge Araújo. Filmado entre Rio de Janeiro e Lisboa, o filme amplia a proposta do projeto ao explorar visualmente as conexões entre os territórios.

A direção de fotografia reúne profissionais como Daniel Lobo, Markão Oliveira e Samir Abujanra, enquanto a montagem e o uso de inteligência artificial generativa ficam a cargo de Edson Rosas. O resultado é um trabalho que busca traduzir, em imagens, a complexidade das relações culturais abordadas no álbum.

Rosas descreve o processo criativo do vídeo:

“A gênese estética do imaginário visual de Povo Brasileiro […] manifesta-se como uma profunda arqueologia de referências.”

O clipe utiliza recursos de vídeo generativo para criar uma espécie de cartografia simbólica do Brasil, conectando diferentes regiões e elementos naturais em uma narrativa visual contínua. A proposta é construir uma representação contemporânea do país, destacando sua diversidade geográfica e cultural.

agenda de shows e continuidade do projeto

O lançamento de “Povo Brasileiro” também será acompanhado por apresentações ao vivo. Entre os shows confirmados estão uma apresentação em Paris, no L’Ermitage, no dia 12 de maio, e outra no Rio de Janeiro, no Festival Remexe Rio, no dia 24 de maio, na Praça XV.

Esses eventos reforçam o caráter itinerante do Rua Das Pretas, que ao longo dos anos se consolidou como um projeto de circulação internacional, promovendo encontros entre artistas e públicos de diferentes contextos.

Com mais de uma década de trajetória, Pierre Aderne já levou o projeto para palcos na Europa e nos Estados Unidos, além de realizar colaborações com nomes como Seu Jorge, António Zambujo, Melody Gardot e Tito Paris.

“Povo Brasileiro” surge, portanto, como mais um capítulo dessa proposta contínua de aproximação cultural, ampliando o debate sobre identidade, memória e pertencimento no contexto da língua portuguesa.

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