ANDREAS KISSER CRITICA FALTA DE RECONHECIMENTO AO SEPULTURA

Guitarrista aponta exclusão do metal em eventos nacionais e questiona visão cultural no Brasil
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O guitarrista Andreas Kisser voltou a provocar debate sobre o espaço do heavy metal dentro da cultura brasileira. Em uma participação divulgada pelo canal “Cortes do Flow Podcast”, o músico comentou a forma como o Sepultura ainda é tratado no próprio país, apesar de sua relevância internacional consolidada ao longo de décadas. Para ele, existe uma barreira histórica que impede o reconhecimento do gênero como parte legítima da identidade musical brasileira.

A fala reacende uma discussão recorrente: até que ponto o Brasil reconhece artistas que constroem carreira global, mas que não se encaixam nos padrões tradicionais da indústria cultural nacional? No caso do Sepultura, essa tensão se torna ainda mais evidente por conta do idioma das músicas e da estética associada ao metal. Kisser, no entanto, defende que esses fatores não deveriam ser usados como critérios de exclusão.

ausência do metal em grandes eventos levanta questionamentos

Durante a entrevista, Andreas Kisser destacou a ausência do Sepultura — e do metal em geral — em eventos de grande alcance popular no Brasil. Um dos exemplos citados foi o Criança Esperança, tradicional campanha televisiva que reúne artistas de diferentes gêneros em apresentações voltadas a causas sociais.

Para o guitarrista, essa ausência evidencia um problema mais profundo de representatividade. Ele argumenta que eventos desse porte deveriam refletir a diversidade cultural do país, incluindo também públicos que se identificam com o metal. Ao comentar o tema, Kisser afirmou: “O Sepultura não é chamado para o Criança Esperança, por exemplo. Isso não é show de entretenimento é um foco para um um assunto muito mais sério onde a sociedade tem que ser representada por um todo e a nação metal não se sente representada num momento como esse”.

A declaração reforça a ideia de que o metal ainda ocupa uma posição marginal dentro da mídia tradicional brasileira, mesmo sendo um gênero com base de fãs consolidada e presença histórica no país. Para Kisser, ignorar essa parcela do público significa reduzir a complexidade cultural da sociedade brasileira.

Além disso, a fala sugere que existe uma desconexão entre o que é consumido por diferentes públicos e o que é efetivamente exibido em grandes plataformas. O metal, apesar de sua relevância global, ainda encontra resistência para ocupar espaços de maior visibilidade no Brasil.

sepultura como agente de difusão da cultura brasileira no exterior

Outro ponto central da fala de Andreas Kisser foi o papel do Sepultura na projeção internacional da cultura brasileira. Ao longo de sua trajetória, a banda se tornou uma das maiores referências do metal mundial, conquistando espaço em mercados historicamente dominados por artistas europeus e norte-americanos.

Kisser destacou esse impacto de forma enfática: “Sem exagero nenhum… depois de Carmen Miranda e Os Mutantes, o Sepultura foi a banda que levou a cultura brasileira para o mundo”. A declaração posiciona o grupo como parte de uma linhagem de artistas que conseguiram romper barreiras geográficas e culturais.

Essa projeção internacional não aconteceu por acaso. O Sepultura construiu uma identidade própria ao incorporar elementos brasileiros em sua sonoridade, especialmente em trabalhos que exploram ritmos, percussões e referências culturais locais. Esse processo ajudou a consolidar a banda como um nome único dentro do cenário global.

Apesar desse reconhecimento fora do país, Kisser aponta que o mesmo nível de valorização não é refletido internamente. Para ele, existe uma dificuldade em reconhecer a importância de artistas que atuam fora dos padrões tradicionais da música brasileira, especialmente quando estão associados a gêneros considerados “alternativos”.

A trajetória do Sepultura evidencia uma contradição: enquanto é celebrado internacionalmente, ainda precisa reivindicar seu espaço dentro do próprio país. Essa dualidade, segundo o músico, revela limitações na forma como o Brasil enxerga sua própria produção cultural.

idioma e identidade cultural no centro do debate

A questão do idioma foi outro ponto abordado por Andreas Kisser. Para o guitarrista, o fato de o Sepultura cantar em inglês não deveria ser usado como argumento para deslegitimar sua identidade brasileira.

Ao comentar o tema, ele foi direto: “Agora porque a gente canta em inglês a gente não é representado como banda brasileira isso é um nacionalismo para mim burro e limitado”. A fala evidencia uma crítica à ideia de que a língua determina a identidade cultural de um artista.

No cenário atual, em que a música circula globalmente de forma cada vez mais rápida, o uso do inglês se tornou uma estratégia comum para alcançar públicos internacionais. No caso do Sepultura, essa escolha foi determinante para expandir sua presença fora do Brasil, sem necessariamente romper com suas origens.

A declaração de Kisser também levanta uma reflexão mais ampla sobre o conceito de nacionalismo cultural. Em um contexto globalizado, definir o que é “brasileiro” na música passa por múltiplos fatores, que vão além do idioma. Elementos como trajetória, estética, influência e contexto histórico também desempenham papel fundamental nessa construção.

Ao trazer esse debate novamente à tona, o guitarrista reforça a necessidade de ampliar o olhar sobre a diversidade cultural do país. Para ele, reconhecer o metal como parte legítima dessa identidade é essencial para construir uma representação mais completa da música brasileira.

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