A banda OVM apresentou oficialmente o EP “Senóides”, novo lançamento que amplia o universo conceitual desenvolvido pelo trio desde o álbum de estreia “A Mosca”, lançado em 2018. Composto pelas faixas “Vestida” e “Senóide 1 / Senóide 2”, o trabalho mergulha em temas ligados à saúde mental, paranoia, memória e instabilidade emocional, consolidando o caminho que levará ao segundo disco da carreira, “Exúvios”, previsto para ser revelado integralmente até outubro de 2026.
O novo EP chega como mais um capítulo do projeto conduzido pela banda dentro do selo Casalago Records. A proposta sonora mistura elementos de rock alternativo, indie e atmosferas melancólicas, enquanto as letras exploram desconfortos psicológicos e relações humanas sob uma ótica intimista e narrativa. O resultado é um trabalho que reforça a identidade artística construída pelo grupo ao longo dos últimos anos.
Produzido, mixado e masterizado por Gui Godoy, “Senóides” também evidencia uma preocupação estética na forma como suas músicas se conectam entre si. As duas faixas funcionam como extensões de um universo já iniciado anteriormente, ampliando histórias e sensações apresentadas em trabalhos passados. O EP já está disponível nas plataformas digitais.
“Vestida” revisita personagens apresentados em “A Mosca”
A primeira faixa do EP, “Vestida”, funciona como uma espécie de elo narrativo dentro da discografia da banda. Segundo os integrantes, a música estabelece uma conexão direta com “Nua”, canção que abria o álbum “A Mosca”. Enquanto a faixa de 2018 apresentava um cenário marcado por violência e exumação de cadáveres, a nova composição retorna no tempo para mostrar momentos anteriores aos acontecimentos descritos naquela narrativa.
“Essa faixa é uma pausa, um suspiro, diante de todo o conceito de nosso segundo LP ‘Exúvios’”, afirma a banda.
“Ela trata de um conto narrado em terceira pessoa, e é o segmento anterior à música ‘Nua’, que abria o primeiro LP ‘A Mosca’. Naquela música, descrevia-se a exumação de cadáveres, sendo uma delas uma mulher, todos vítimas de um crime. Em ‘Vestida’, vemos parte do que ocorreu antes do crime cometido, o início em que ela está feliz e vai celebrar algo com seus familiares.”
Musicalmente, a faixa aposta em uma abordagem mais suave e contemplativa. O grupo revelou que a composição nasceu a partir de uma revisita feita por Dan Nascimento ao material original de “Nua”, dessa vez utilizando o violão como base principal. A mudança na dinâmica instrumental acabou influenciando diretamente o desenvolvimento da nova letra e da melodia.
“Como ela soava mais lírica e mais suave que a primeira, a letra e melodia foram compostas pelo Mancin com a ideia de revelar outra parte daquela mesma história. Ela ora tem tons de melancolia, ora tons de alegria contida”, completa o grupo.
Essa dualidade emocional aparece de maneira clara ao longo da música. A faixa alterna momentos delicados e melancólicos com passagens mais luminosas, criando um contraste que reforça o clima de antecipação trágica presente na narrativa. OVM utiliza essa construção para aprofundar a experiência emocional do ouvinte e fortalecer os vínculos entre suas obras.

“Senóide 1 / Senóide 2” transforma instabilidade em linguagem musical
Enquanto “Vestida” funciona como expansão narrativa do passado da banda, “Senóide 1 / Senóide 2” direciona o foco para a temática central de “Exúvios”: os conflitos mentais e emocionais. A faixa explora os ciclos da esquizofrenia a partir de mudanças estruturais e texturas sonoras que acompanham as diferentes fases descritas na letra.
Segundo o trio, a primeira metade da música representa momentos de crise intensa, marcados por pensamentos intrusivos, paranoia e delírios. Já a segunda parte apresenta um breve estado de estabilidade psicológica, conhecido como fase residual dentro do transtorno.
“A primeira parte trata de pensamentos intrusivos e resultantes de paranoias e delírios quando quem sofre do transtorno está em crise, a fase ativa.”
“A segunda parte apresenta um curto momento de estabilização dos pensamentos, chamada fase residual. O medo de que a crise venha novamente e que o aponte como centro de atenções do público julgador está expresso nas palavras ‘e se o ciclo vencer, eu não vou suportar os olhos desse povo’”, explica a banda.
A própria estrutura musical da faixa foi construída para refletir essa sensação de instabilidade. O ponto de partida surgiu a partir de uma linha de baixo criada por Mancin em um compasso incomum de 7/8. A escolha rítmica ajudou a criar um sentimento constante de tensão e deslocamento, reforçando a proposta psicológica da composição.
Com o passar dos meses, a música ganhou novas camadas instrumentais com contribuições de Dan Nascimento e Eddie, ampliando ainda mais a densidade sonora da faixa. O resultado é uma composição fragmentada, inquieta e emocionalmente intensa, alinhada à proposta conceitual do EP.
OVM consolida identidade dentro do rock alternativo brasileiro
Formada em 2014, a OVM vem construindo uma trajetória marcada pela combinação entre letras densas, crítica existencial e arranjos que transitam entre o peso e a melancolia. O grupo é formado por Mancin, Dan e Eddie, músicos que transformaram antagonismos emocionais e desconfortos psicológicos em parte central da identidade artística da banda.
Entre as influências assumidas pelo trio estão nomes como Radiohead, Nirvana, Queens of the Stone Age, Pink Floyd e Chico Buarque. Essas referências aparecem tanto nas construções atmosféricas quanto na forma narrativa das composições.
Desde “A Mosca”, lançado em 2018, o grupo vem apostando em uma abordagem autoral focada em conflitos internos, observações da psique humana e relações de fragilidade emocional. Em “Senóides”, esses elementos aparecem de maneira ainda mais madura, tanto nas letras quanto na arquitetura sonora das músicas.
O EP também funciona como preparação para “Exúvios”, álbum que vem sendo apresentado em capítulos ao longo de 2026. A proposta fragmentada permite que cada lançamento explore aspectos específicos do conceito maior desenvolvido pela banda, criando uma experiência contínua para o público.
Ao unir narrativas densas, estruturas pouco convencionais e atmosferas emocionalmente carregadas, o novo trabalho reforça a posição da OVM como um dos nomes que vêm explorando caminhos mais experimentais dentro do rock alternativo nacional contemporâneo.



