Após um hiato de nove anos sem lançar um álbum de estúdio, o Dinamite Club retorna com “Cortisol”, seu terceiro trabalho de carreira e o primeiro desenvolvido integralmente pela atual formação em trio. O disco chega pelo selo Crocante Records e reúne 10 faixas que refletem um período intenso vivido pela banda, marcado por luto, exaustão emocional, mudanças internas e os impactos diretos da pandemia.
Mais do que um simples retorno, “Cortisol” funciona como um registro de sobrevivência. O álbum abandona a abordagem mais leve de trabalhos anteriores e mergulha em uma estética mais pesada e densa, tanto na sonoridade quanto nas letras. Ao longo das faixas, o grupo traduz experiências reais em composições que exploram ansiedade, desgaste psicológico e a dificuldade de seguir em frente diante de perdas e transformações profundas.
um retorno moldado por perdas e mudanças internas
Formado em 2010, o Dinamite Club construiu sua trajetória dentro da cena independente brasileira com uma identidade baseada na fusão entre punk, pop punk e emo. A banda ganhou destaque com “Tiro & Queda” (2013), seguido pelo EP “Do Começo Não Dá Para Enxergar O Fim” (2016) e pelo álbum “Nós Somos Tudo o Que Temos” (2017), ampliando sua presença no circuito alternativo nacional.
No entanto, o intervalo entre o segundo e o terceiro disco foi marcado por acontecimentos decisivos. A perda de Leon, integrante fundador falecido em 2018, somada a mudanças de formação e ao impacto da pandemia, alterou significativamente o rumo da banda. Esse contexto se tornou o principal combustível criativo de “Cortisol”.
A formação atual conta com Bruno Peras (voz e baixo), Márcio Rodrigues (guitarra e voz) e Jaime Xavier (bateria). A configuração em trio exigiu uma reestruturação no processo de composição, influenciando diretamente a dinâmica das músicas. O resultado é um som mais direto, com maior peso instrumental e uma abordagem mais crua.
Márcio Rodrigues destaca que manter a banda ativa ao longo dos anos se tornou um desafio em si. “É cada vez mais desafiador conciliar o tempo e a energia necessária pra manter uma banda com a vida adulta que acelera e massacra a gente.” A fala evidencia o contexto que permeia o novo álbum, onde resistência e permanência se tornam elementos centrais.
Ele também reforça o caráter efêmero dos momentos vividos pela banda. “Cada ensaio, cada show, seja uma celebração, um momento muito rápido, muito passageiro, de uma lógica de mais longo prazo, de muita resiliência que envolve manter uma banda.”

um disco mais pesado e emocionalmente direto
“Cortisol” se apresenta como o trabalho mais intenso da carreira do Dinamite Club. O álbum não tenta suavizar sua mensagem e assume uma abordagem direta, tanto na construção sonora quanto no conteúdo lírico. Segundo Márcio, o disco concentra uma grande carga emocional acumulada ao longo dos anos. “É um disco com muita concentração de sentimento e energia.”
A mudança estética é clara quando comparada aos lançamentos anteriores. “É o disco mais pesado da nossa história e, do ponto de vista da letra, também é mais confessional”, afirma o guitarrista. A escolha por esse direcionamento não foi estratégica, mas sim uma consequência natural das experiências vividas pela banda.
Rodrigues também aponta que ignorar esse contexto não seria coerente. “A gente nunca ia conseguir negligenciar tudo que a gente passou nesse período pra só continuar falando sobre coisa boa. Seria um pouco desonesto da nossa parte.” A declaração reforça o compromisso do álbum com uma narrativa mais honesta e alinhada com a realidade do grupo.
Para Bruno Peras, o processo de criação teve um caráter catártico. “Esse disco realmente foi uma catarse nossa, ele é fruto justamente desse sentimento contra tudo e contra todos.” Ele também destaca o significado do lançamento após tantos obstáculos. “Tudo na nossa história sempre tinha um porém, alguma situação, alguma dificuldade, e pra gente ver esse disco nascer é um momento muito importante.”
Essa intensidade emocional se traduz em faixas que equilibram peso e introspecção, mantendo a essência da banda, mas com uma nova profundidade.
lançamento integral e conceito visual reforçam proposta
Em um cenário onde lançamentos fragmentados em singles se tornaram padrão, o Dinamite Club optou por apresentar “Cortisol” como uma obra completa. A decisão busca proporcionar uma experiência mais imersiva, permitindo que o público absorva o disco em sua totalidade.
Dentro dessa estratégia, a faixa “Invisível” foi escolhida como ponto inicial de divulgação, funcionando como uma conexão entre o passado e a nova fase da banda. A partir da recepção do público e da resposta nos shows, o grupo pretende direcionar a promoção de outras músicas.
A identidade visual do álbum também reforça o conceito apresentado nas letras. A capa, criada por Jaime Xavier, apresenta uma cabeça formada por comprimidos, simbolizando o impacto psicológico dos acontecimentos que influenciaram o disco. A imagem dialoga com temas como saúde mental, tratamento e resistência emocional.
Jaime resume a ideia central da arte: “Não dá pra ser positivo sempre, mas vamos tentar fazer o melhor com o que a gente tem”. Ele também destaca que o trabalho foi desenhado manualmente e posteriormente digitalizado, em contraste com o uso crescente de imagens geradas por inteligência artificial.
Na produção, o álbum contou com Ali Zaher Jr., baixista do CPM 22, responsável pela gravação, mixagem e masterização no Sunrise Studios. O disco também inclui a participação de Renan Sales, da banda Metade de Mim, na faixa “Hoje, Só Amanhã”.
Com “Cortisol”, o Dinamite Club não apenas retorna após um longo período, mas redefine sua própria identidade. O álbum transforma experiências difíceis em expressão artística e reafirma o espaço da banda dentro da música independente brasileira, agora com uma abordagem mais madura, direta e emocionalmente transparente.



