Com mais de doze anos de estrada e vindo de Minas Gerais, o Black Pantera alcança um momento de evidente maturidade e consolidação com o lançamento do álbum Continental. Em seu quinto disco de estúdio, o trio formado por Charles Gama, Chaene da Gama e Rodrigo Augusto apresenta treze faixas que condensam aquilo que há de mais reconheicível na identidade da banda: peso instrumental, conteúdo consistente e mensagens de urgência social.
O grupo expande horizontes ao demonstrar versatilidade e consistência em um projeto coeso do início ao fim. O impacto da música não se limita à sonoridade, direcionando-se a combater a desigualdade e o racismo de forma direta. O trio permanece fiel à sua proposta ao abordar racismo, ancestralidade, resistência e identidade negra. O resultado é um trabalho potente que estimula a consciência crítica no cenário do metal nacional.
faixas pesadas e feats
A faixa-título abre o álbum da melhor forma possível, sendo veloz, pesada e trazendo aquele tipo de refrão que já nasce feito para ser gritado em coro nos shows. A inserção de um trecho de entrevista do geógrafo e intelectual Milton Santos enriquece a proposta do trio que, para além da música, busca sempre estimular uma consciência crítica no ouvinte. Na sequência, “Serotonina” mantém a velocidade acelerada com a música no talo e traz a primeira participação especial do disco, a rapstar Duquesa, que entrega uma contribuição muito significativa e engrandece a composição com seu trecho poderoso.
Em seguida, “Hórus” desacelera um pouco o ataque para trabalhar uma sonoridade mais cadenciada e envolvente. O nome faz referência ao deus da mitologia egípcia associado aos céus, à realeza e à proteção, famoso pelo conflito com Seth onde teve seu olho restaurado como símbolo de preservação. A letra caminha nesse sentido ao sinalizar o sincretismo religioso e denunciar o racismo que se expressa não em palavras, mas em olhares preconituosos cotidianos, cravando a marcante mensagem “Todos os olhos em mim”.
Uma das maiores surpresas do registro aparece em “Quando Canto”, cuja participação de Sandra Sá poderia soar improvável em um primeiro momento, mas torna o encontro extremamente especial. A voz da convidada se encaixa com total naturalidade na música pesada, que não foi suavizada para isso, fortalecendo uma letra pautada pela ancestralidade, pela memória e pela permanência daqueles que foram desumanizados pela escravidão. O contraste entre a expressividade vocal e a brutalidade instrumental transforma a faixa em um verdadeiro hino com os versos: “Quando canto/ Somos a humanidade/ Daqueles que antes eram mantidos como propriedade/ E mesmo de longe/ Hoje são livres em nós”.
A sequência do repertório traz “Velho Jeans Rasgado” com uma pegada distinta e nítida influência do estilo country, transmitindo uma mensagem de esperança em meio ao caos urbano. Logo depois, a excelente “Negusa Nagast” revela a potencialidade do grupo em trazer conhecimento ligado às origens africanas, utilizando o termo que significa “Rei dos Reis”, título oficial usado pelo Imperador da Etiópia Haile Selassie I, de onde deriva o movimento Rastafari. A faixa cria pontes para pensar resistência e identidade cultural, destacando o simbolismo da Etiópia contra o imperialismo europeu e brilhando na atmosfera ritualística com os trechos “Deixa a gira girar/Que ela vai te guiar/Pro que for melhor”.
parcerias e reflexões
A enérgica “Start the Game”, que já era conhecida do público antes do lançamento oficial do disco, continua funcionando muito bem no conjunto por ser direta, acelerada e acompanhada por uma identidade visual que dialoga diretamente com o universo dos games. Na sequência, a faixa “Obsoleto” traz mais uma participação especial de peso ao contar com Derrick Green, vocalista do Sepultura. A composição expõe de maneira evidente a veia Punk e Hardcore compartilhada entre a banda mineira e o convidado, entregando uma música curta, seca, objetiva e com encaixe perfeito.
Já em “W.P.P.”, o grupo combina novamente impacto instrumental e provocação direta no conteúdo da letra. A música apresenta um nítido potencial para instaurar o caos e abrir grandes rodas nas apresentações ao vivo, mas chama atenção sobretudo pela discussão a respeito dos privilégios desfrutados por pessoas brancas em uma sociedade ainda profundamente marcada pelo racismo estrutural. O ritmo agressivo serve como base para um debate necessário que expõe as distorções sociais que permanecem presentes no cotidiano brasileiro.
Talvez a faixa mais diferente de todo o trabalho seja “Banzo”, que conta com a participação especial de Chico César. Por quase um minuto de execução, a sonoridade nem parece ser de uma música tradicional do Black Pantera, apresentando um refrão grudento e uma dualidade vocal muito interessante entre melodias e vocais agressivos. A partir da segunda metade, a composição alcança uma atmosfera especialmente envolvente e revela um viés mais progressivo que até então não havia aparecido na discografia da banda.
A faixa “Yasuke” traz mais um personagem histórico fundamental ligado à cultura africana, conhecido como o lendário samurai negro do Japão do século XVI que viveu sob a proteção de Oda Nobunaga. A presença de um africano nesse contexto evidencia o protagonismo em uma diáspora inigualável, refletida nos versos “Nascido há milhas e milhas daqui/ Tudo que me resta é essa espada brandir”. A letra conecta essa experiência ao cenário contemporâneo do país que mais recebeu escravizados no trecho “Feudos/Guetos/A memória como um amuleto”.
fechamento e impacto
A conceitual “Sic Mundus” aprofunda a inclinação intelectual do trabalho ao recorrer à expressão latina “Sic Mundus Creatus Est”, associada à tradição hermética e aos ciclos do tempo. A letra estabelece uma ligação coerente com o ciclo histórico e social, utilizando frases marcantes como “o passado se faz presente” e “precisamos nos organizar” para mostrar que as reverberações da escravidão operam no presente. O alerta “ninguém veio do futuro pra nos salvar” reforça que romper esse ciclo depende exclusivamente de uma ação coletiva e consciente no tempo de agora.
O encerramento do álbum com “Punhos Cerrados” é simplesmente fenomenal e perfeito para fechar a obra. A música nasce como um verdadeiro hino para os shows e traz a essência mais pura do Black Pantera. O chamado “Ergam seus braços/ Punhos cerrados” faz imaginar facilmente a plateia com os braços erguidos nos festivais, transformando a apresentação ao vivo em uma imagem coletiva de enfrentamento ao racismo, ao preconceito e às injustiças históricas.
Continental é, portanto, um disco que reafirma a identidade do trio ao mesmo tempo em que demonstra uma clara vontade de expansão artística. O repertório passeia com propriedade por Punk, Hardcore, Metal, momentos cadenciados e atmosferas inesperadas com participações que reforçam o identitário negro. As experimentações servem perfeitamente às ideias centrais do projeto, e as mensagens nunca se desconectam da força bruta das músicas gravadas.
Mais do que um compilado de treze faixas pesadas, a obra se consolida como um trabalho de extrema preciosidade, resistência e memória. O registro entrega música pronta para abrir roda nos shows, mas que também coloca a cabeça do ouvinte para continuar trabalhando mesmo depois que o som termina. O trio mineiro entrega um projeto avassalador que honra sua trajetória e reafirma o poder de transformação da música pesada brasileira.













