O encontro entre pessoas, a memória e o pertencimento estão no centro de “Sonora Fantasma Te Ama”, segundo álbum da Sonora Fantasma, projeto criado pelo cineasta e músico Diego da Costa. Com lançamento em 17 de setembro de 2026, o disco reúne oito faixas sobre presença, afetos, despedidas e relações humanas. A proposta atravessa letras e arranjos, aproximando rock alternativo e música brasileira.
A abertura, “Vida no Campo”, antecipa essa mistura ao combinar viola caipira, sintetizadores, ruídos, violoncelo e vozes. “Gravar e lançar álbuns se tornou muito mais acessível, de fato. Mas gravar para contabilizar play está longe de ser um desejo. Nosso desejo reside na presença, no contato, no calor humano em lidar com as nossas e outras vontades, os perrengues e as coisas boas”, afirma Diego.
Afeto como ponto de partida
O coração estampado na capa resume parte da proposta. Em vez de abordar o amor apenas pelo lado romântico, o repertório observa relações que permanecem, se desfazem ou precisam ser reconstruídas. As canções tratam de perdas e reencontros, enquanto Diego relaciona essas experiências a um cotidiano marcado por telas, isolamento e cobrança por desempenho.
“É um álbum muito intimista, que busca tratar das relações entre pessoas. Fala de luto, fala de amor, fala de medos, de cuidados, mas talvez isso seja muito político também hoje, né. Talvez tratar dessas relações e tratar dessas dores tem sido uma coisa importante, num contexto em que estamos hiper atomizados e completamente individualizados”, diz.
Produzido por Diego da Costa e Rafael Sartori, o álbum utiliza viola caipira, guitarras, sintetizadores, programações, cordas, metais e coros. Sartori responde ainda pelos arranjos, gravação e mixagem. Luisa Toller criou os arranjos vocais de “Vida no Campo”, “O Brilho das Pedras”, “Depois do Fim” e “Até Amanhã”, além de reger parte do grupo Vozeiral. Paula Caju cuidou da preparação vocal de Diego.
As gravações contam ainda com Dann Carvalho na bateria, Giovanna Lelis Airoldi no violoncelo, Raphael Sampaio no trompete e Feldeman Oliveira no trombone. Em vez de uma banda necessariamente fechada, o projeto incorpora colaboradores ao processo criativo e procura transportar essa dinâmica para as apresentações ao vivo.

Entre o rural e o urbano
“Vida no Campo” estabelece uma ponte direta entre passado e presente. A viola remete ao interior e ao rock rural, enquanto ruídos, sintetizadores e mudanças de intensidade afastam a faixa de uma reprodução nostálgica. Diego cresceu em Socorro e iniciou parte de sua formação artística no interior paulista.
A relação reaparece em “O Brilho das Pedras”, composição de Sá, Rodrix e Guarabyra lançada originalmente em “Terra”, de 1973. A versão da Sonora Fantasma recebe batida de funk nos versos e um encerramento mais pesado. “É importante reverenciar os mestres do passado, a nossa cultura brasileira e saber de onde viemos”, afirma. A releitura reconhece uma referência importante sem simplesmente reproduzir seu arranjo original.
Em “Depois do Fim”, a conexão passa pelo cinema. A composição surgiu para “Dona Elza”, telefilme dirigido por Diego com Hiro Ishikawa, e agora recebe outro arranjo dentro da Sonora Fantasma. A faixa aproxima duas frentes de sua trajetória. Diego também dirigiu “Selvagem”, longa que esteve entre os 15 filmes que disputaram a indicação brasileira ao Oscar de 2022, reforçando sua atuação paralela no audiovisual.
“Chegada”, “Corações Atravessados” e “Cachorros Dançantes” também integram o disco. Já “Bebidas e Defumações” começa como balada ao piano, atravessa referências de Fugazi, Radiohead e Blur, entra em um blues conduzido pelo trompete e termina em samba de gafieira. A mudança de linguagens exemplifica um repertório que evita uniformidade de gênero, mas mantém conexão por meio dos timbres, arranjos e temas recorrentes.
Música feita para o encontro
A preocupação com espaços de convivência acompanha Diego desde a adolescência. Em Socorro, depois de aprender guitarra e violão e formar a Lazo Black, ele participou com amigos da ocupação de um imóvel prometido como futuro centro cultural. O espaço foi limpo e recebeu saraus, bandas, poesia, artistas plásticos e comércio local. Foram seis edições antes da interdição; anos depois, o centro cultural foi instalado no endereço.
Após estudar Midialogia na Unicamp, Diego integrou Nuvens Invisíveis e Mochila de Criança, em Campinas. O audiovisual virou sua atividade profissional, enquanto a composição permaneceu em paralelo. A Sonora Fantasma surgiu quando ele retomou a escrita de músicas e encontrou em Rafael Sartori, antigo companheiro da Lazo Black, o parceiro para produzi-las. O projeto nasceu flexível, podendo funcionar com Diego sozinho ou acompanhado por outros músicos.
“A verdade é que apesar da minha carreira já consolidada no audiovisual, com filme lançado no cinema, na globo e com a qual eu sigo firme, com 43 anos nas costas, eu entendi que o que me dá mais prazer e que gostaria de seguir fazendo da minha vida é fazer música e tocar com outras pessoas e mostrar músicas para mais pessoas”, diz Diego. A fala conecta sua trajetória ao conceito de presença que conduz o álbum.
“Sonora Fantasma Te Ama” foi gravado e mixado no estúdio Regina Horizonte, em Socorro. Vozes, coro, bateria, violoncelo e metais foram registrados no estúdio Juá, em São Paulo, e Alejandra Luciani realizou a masterização no Sugarkane Audio. Felipe Teixeira assina capa e identidade visual, com arte de Liz Medeiros. Entre referências brasileiras, rock alternativo e experiências pessoais, o álbum coloca a convivência no centro de sua proposta musical.













