GANGRENA GASOSA: A BANDA QUE CRIOU O SARAVÁ METAL

Do underground carioca ao nome Gangrena Vodu, grupo construiu uma trajetória singular ao misturar música pesada, humor e referências às religiões de matriz africana
Gangrena Gasosa: a história da banda que criou o saravá metal

Poucas bandas brasileiras criaram uma identidade tão imediatamente reconhecível quanto a Gangrena Gasosa. Surgido no Rio de Janeiro em 1990, o grupo encontrou um caminho próprio ao aproximar metal e hardcore de percussões, pontos e referências visuais ligadas às religiões de matriz africana. A combinação recebeu dos próprios músicos um nome que atravessaria as décadas: saravá metal.

A ideia nasceu cercada de irreverência. Em vez de reproduzir o imaginário europeu frequentemente associado ao metal extremo, a Gangrena Gasosa colocou em cena Exus, Pombagiras, caboclos e outras figuras presentes na cultura religiosa brasileira. Os integrantes adotaram personagens, figurinos e nomes associados a esse universo, enquanto as músicas combinavam peso, humor ácido e elementos que dificilmente apareciam juntos dentro do rock nacional.

O que poderia ter permanecido como uma curiosidade do underground carioca ganhou discos, turnês, mudanças de formação e uma história que atravessou mais de três décadas. Em 2026, porém, essa trajetória chegou a um capítulo inesperado. Depois de anos de disputa judicial envolvendo o direito de utilização do nome Gangrena Gasosa, a formação que vinha mantendo o grupo em atividade passou a se apresentar provisoriamente como Gangrena Vodu.

O nascimento do saravá metal

A Gangrena Gasosa surgiu em um período particularmente movimentado do underground brasileiro. A história do grupo remonta a 1990, quando Cid Mesquita e Ronaldo “Chorão” Lima decidiram montar uma banda após assistirem a uma apresentação do Ratos de Porão. O objetivo inicial era simples e pouco pretensioso: formar um grupo que eventualmente pudesse abrir um show da banda paulista.

A Gangrena, entretanto, precisava de algo que a diferenciasse das inúmeras bandas de metal, punk e hardcore que circulavam naquele período. Foi nesse contexto que surgiu a ideia de misturar música pesada com referências que estavam muito mais próximas do cotidiano brasileiro. O imaginário religioso ligado à umbanda e a outras tradições afro-brasileiras começou a aparecer nas músicas, nos nomes dos personagens e nos figurinos utilizados pelos integrantes.

Enquanto boa parte do metal extremo buscava inspiração em demônios, mitologias europeias e símbolos importados, a Gangrena Gasosa encontrou seu repertório visual e temático dentro do próprio Brasil. Exu Caveira, Zé Pelintra, Omolu, Pombagira e outras figuras passaram a dividir espaço com guitarras distorcidas, vocais agressivos e uma postura herdada do hardcore. A percussão também ganharia importância crescente na sonoridade.

A primeira demo, “Saravá Metal – Santo de Casa Também Faz Milagre!”, apareceu em 1991 e já carregava o termo que definiria o estilo. O primeiro álbum, “Welcome to Terreiro”, lançado na primeira metade dos anos 1990, consolidou a proposta. O próprio título brincava com “Welcome to the Jungle”, do Guns N’ Roses, antecipando uma característica recorrente da banda: pegar referências conhecidas do rock e reorganizá-las dentro de um universo deliberadamente brasileiro.

O conceito ganhou ainda mais força com “Smells Like a Tenda Spirita”, lançado na virada para os anos 2000. Outra vez, o título fazia uma paródia evidente, agora de “Smells Like Teen Spirit”, do Nirvana. A essa altura, porém, o saravá metal já não dependia apenas dos trocadilhos ou dos figurinos. Percussões e referências musicais afro-brasileiras estavam incorporadas à própria estrutura das canções.

A teatralidade dos shows transformou as referências do saravá metal em uma das marcas mais reconhecíveis da Gangrena Gasosa.

Religião, humor e identidade

A presença de símbolos religiosos fez com que a Gangrena Gasosa frequentemente fosse interpretada apenas pela aparência. A proposta, entretanto, passou por mudanças importantes desde os primeiros anos. O que nasceu com forte componente de provocação e deboche acabou desenvolvendo uma relação mais cuidadosa com as tradições utilizadas como referência.

Os integrantes já explicaram publicamente que os personagens apresentados no palco fazem parte de uma representação artística. Um show da Gangrena Gasosa não deve ser confundido com um ritual religioso. Ao mesmo tempo, diferentes músicos ligados ao grupo tiveram proximidade pessoal com religiões de matriz africana, e a banda passou a demonstrar preocupação crescente com a maneira como determinadas entidades e símbolos eram retratados.

Esse amadurecimento não eliminou o humor. Trocadilhos, paródias e exageros continuaram fundamentais para a identidade do grupo. Títulos como “Se Deus É 10, Satanás É 666” ajudam a entender uma banda que nunca pretendeu tratar o metal com solenidade. A provocação funciona justamente porque mistura elementos aparentemente incompatíveis sem pedir licença para nenhuma das cenas das quais se aproxima.

A escolha também colocou a banda diante da intolerância religiosa. Angelo Arede, vocalista conhecido no grupo como Zé Pelintra, já relatou que integrantes receberam ameaças físicas e religiosas depois que o trabalho da Gangrena ganhou exposição entre públicos religiosos conservadores. A utilização de símbolos da umbanda e de outras tradições afro-brasileiras acabou sendo interpretada por algumas pessoas como satanismo, reproduzindo uma associação historicamente utilizada contra essas religiões.

Dentro desse contexto, a Gangrena Gasosa acabou ocupando uma posição curiosa. Uma ideia inicialmente construída para provocar o próprio metal passou também a expor preconceitos existentes fora dele. Sem abandonar a irreverência, a banda transformou elementos brasileiros em componentes permanentes de sua música e criou uma estética que dificilmente poderia ser confundida com a de qualquer outro grupo.

Uma história cheia de mudanças

A Gangrena Gasosa nunca teve uma formação completamente estável. Diversos vocalistas, guitarristas, baixistas, bateristas e percussionistas participaram de diferentes momentos da banda. Essa rotatividade ajudou a construir sua história, mas também acabaria contribuindo para uma disputa que ultrapassou os bastidores da música.

O conflito ganhou força em 2016, quando antigos integrantes começaram a discutir apresentações relacionadas à formação clássica e ao álbum “Welcome to Terreiro”. A divergência passou a envolver o direito de utilização do nome Gangrena Gasosa. Angelo Arede solicitou naquele ano o registro da marca no Instituto Nacional da Propriedade Industrial, o INPI, enquanto Cid Mesquita, integrante da formação original, apresentou oposição ao pedido. Os dois lados passaram a defender versões diferentes sobre quem teria legitimidade para utilizar o nome.

A situação também envolveu acusações públicas e alegações de ameaças entre os envolvidos. Em 2018, Arede apresentou uma queixa-crime por calúnia e difamação contra antigos integrantes. Cid Mesquita negou as acusações. O episódio transformou uma divergência entre músicos de diferentes fases em uma disputa jurídica que continuaria muito depois daquele primeiro embate.

O capítulo mais recente surgiu em setembro de 2026. Em decorrência de uma decisão judicial, a formação liderada por Angelo Arede ficou impedida de utilizar o nome Gangrena Gasosa e, desde 4 de setembro, passou a atuar provisoriamente como Gangrena Vodu. Segundo Arede, a decisão não é definitiva e existe recurso aguardando julgamento no Superior Tribunal de Justiça, o STJ. Cid Mesquita, por sua vez, mantém sua própria versão sobre a disputa e questiona o processo de registro da marca.

Por isso, Gangrena Vodu é atualmente o nome utilizado pela formação que vinha mantendo a Gangrena Gasosa em atividade. A alteração não significa que toda a história anterior deva ser rebatizada: discos, shows e acontecimentos das últimas décadas pertencem à trajetória construída sob o nome Gangrena Gasosa. O novo nome marca, até que exista uma definição judicial diferente, uma nova etapa dessa mesma formação.

As mudanças de formação atravessaram a trajetória da Gangrena Gasosa e ajudaram a moldar diferentes fases do saravá metal.

Uma banda difícil de copiar

As mudanças internas nunca impediram que o saravá metal continuasse sendo desenvolvido. Depois de “Welcome to Terreiro” e “Smells Like a Tenda Spirita”, a discografia ganhou trabalhos como “Se Deus É 10, Satanás É 666”, “Gente Ruim Só Manda Lembrança Pra Quem Não Presta”, o EP “Kizila” e “Figa of the Dark”, lançado em 2024.

“Figa of the Dark” mostrou que a fórmula ainda permitia novas combinações mais de três décadas depois da criação da banda. O disco trouxe nove faixas e participações de músicos de diferentes pontos da música brasileira. O repertório manteve o humor, a crítica e as referências religiosas e suburbanas que acompanham o grupo, ao mesmo tempo em que ampliou alguns elementos dos arranjos.

Em 2026, antes da mudança de nome, a Gangrena Gasosa também realizou sua primeira turnê pela Europa. A banda passou por Alemanha e Áustria levando para outro continente justamente aquilo que a tornou diferente no Brasil: metal e hardcore combinados a batuques e referências à umbanda. A experiência fechou simbolicamente um círculo iniciado no começo dos anos 1990, quando jovens músicos cariocas resolveram substituir parte do imaginário importado do metal por elementos encontrados muito mais perto de casa.

Agora, essa história continua sob circunstâncias diferentes. Gangrena Vodu é o nome provisoriamente adotado pela formação que vinha se apresentando e lançando trabalhos como Gangrena Gasosa, enquanto a disputa judicial permanece em andamento. O futuro do nome original ainda depende dos desdobramentos do processo e, por isso, qualquer conclusão definitiva seria precipitada.

O que já pode ser tratado como parte da história do metal brasileiro é a criação do saravá metal. Independentemente de quem venha a utilizar juridicamente o nome Gangrena Gasosa, a mistura construída desde 1990 atravessou formações, discos, conflitos e gerações. Poucas bandas brasileiras conseguiram transformar referências locais em uma linguagem tão própria. Gangrena Gasosa foi o nome que tornou essa linguagem conhecida. Em 2026, Gangrena Vodu passou a representar um novo capítulo de uma história que, aparentemente, ainda está longe de terminar.


A trajetória da Gangrena Gasosa mostra como uma ideia surgida no underground pode adquirir significado muito maior do que seus próprios criadores provavelmente imaginavam. O saravá metal nasceu irreverente, atravessou mudanças de formação, amadureceu sua relação com as referências religiosas que utiliza e chegou a públicos muito além da cena carioca.

A disputa pelo nome acrescentou um capítulo turbulento a essa história e levou à adoção provisória de Gangrena Vodu em setembro de 2026. Ainda assim, o conflito jurídico não resume o legado construído desde 1990. O elemento realmente difícil de disputar é a importância de uma banda que decidiu olhar para a própria cultura quando grande parte do metal brasileiro ainda buscava suas principais referências fora do país — e acabou criando algo que ninguém conseguiu reproduzir da mesma maneira.

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