SONORA FANTASMA TRANSFORMA DESPEDIDA DO PAI EM NOVO SINGLE EMOCIONANTE
Faixa "Até Amanhã" antecipa o álbum Sonora Fantasma te ama e marca uma fase mais intimista da banda, inspirada por perdas pessoais, luto e recomeços.
Redação SOM DE FITA
Cinco anos após lançar Adeus Mundo Véio, a Sonora Fantasma inicia um novo capítulo de sua trajetória com o single “Até Amanhã”, primeira amostra do álbum Sonora Fantasma te ama, previsto para setembro. Liderado pelo cineasta e músico Diego da Costa, diretor do longa Selvagem, o projeto troca parte da crítica social que marcou o trabalho anterior por composições centradas em experiências pessoais. A nova canção nasceu da lembrança do último encontro entre Diego e seu pai, transformando uma despedida cotidiana em uma reflexão sobre o luto, a ausência e a força das memórias. O lançamento também apresenta uma nova identidade sonora para a banda, aproximando influências do indie rock de elementos característicos da música brasileira.
Uma despedida em canção
“Até Amanhã” surgiu após a morte do pai de Diego da Costa, quando o músico passou a revisitar a última conversa que teve com ele. Na ocasião, ambos acreditavam que se encontrariam novamente no dia seguinte, uma expectativa comum que acabou adquirindo um significado completamente diferente após a perda.
“‘Até amanhã’ é uma despedida carinhosa. Nela está implícito que, no outro dia, veremos a pessoa a quem nos dirigimos. O dia seguinte está sempre em perspectiva. Esperamos ver o outro, abraçá-lo e contar o que se passou na sua ausência. Mas nem sempre é possível. Essa canção fala de quando nos despedimos cotidianamente de alguém sem saber que não o veremos mais”, diz Diego.
A frase “De onde sou, à noite estou só” permaneceu ecoando na cabeça do artista logo após o falecimento do pai e acabou servindo como ponto de partida para a composição. Ainda faltava, porém, encontrar a sonoridade ideal para transmitir aquele sentimento.
A inspiração inicial apareceu depois de um show intimista do Yo La Tengo, realizado no Cine Joia, em São Paulo. Diego imaginou criar uma faixa que unisse referências da banda norte-americana com elementos da obra de Jorge Ben.
“Pensei que essa música poderia ser uma mistura de Yo La Tengo com Jorge Ben. Essa mistura não aconteceu”, admite.
Apesar de o resultado ter seguido outro caminho, a ideia ajudou a construir a base da composição. Posteriormente, o produtor Rafael Sartori assumiu os arranjos, acrescentando baixo, sintetizadores e definindo a identidade sonora da faixa.
Mesmo com a música praticamente pronta, Diego ainda buscava uma forma mais precisa de traduzir seus sentimentos na letra. Foi então que convidou Vinícius Cabral, integrante das bandas Godofredo e The Innernettes, para colaborar na versão definitiva.
“Ela era tão pessoal que eu não estava conseguindo achar as palavras justas para alguns dos versos. Em menos de uma hora, o Vinícius me devolveu a letra com as alterações”, conta. “Desde o início, a música se chamava ‘Até Amanhã’, mas eu tinha muitas dúvidas. Ele me disse para abraçar o título e me lembrou do Noel Rosa.”
A lembrança da composição homônima de Noel Rosa influenciou também a gravação. Durante as sessões de estúdio, Diego apresentou a música para Lu Toller, responsável pelos arranjos vocais do disco.
“A Lu prontamente fez um arranjo de voz com as manas do Vozeiral. De improviso, a frase que dá nome à música entrou também na letra: ‘até amanhã, se Deus quiser’.”
Diego da Costa transforma uma despedida pessoal em ponto de partida para a nova fase da Sonora Fantasma. (Foto: Iago Mati)
Novo disco muda o foco
“Até Amanhã” encerrou o processo de composição de Sonora Fantasma te ama, álbum que começou a ser desenvolvido em 2022 e passou por diversas interrupções provocadas por acontecimentos pessoais vividos por Diego da Costa.
Segundo o músico, o disco chegou a ser planejado para ser lançado antes, mas as circunstâncias fizeram com que o cronograma fosse alterado diversas vezes.
“Diversas questões pessoais atravessaram o projeto e só agora estamos conseguindo lançar esse novo álbum. Já tenho novas composições esperando para serem gravadas”, afirma.
A mudança de direção artística também reflete uma transformação nas temáticas abordadas pela Sonora Fantasma. Enquanto Adeus Mundo Véio nasceu durante o início da pandemia e trazia reflexões sobre política, capitalismo, tecnologia e possíveis mudanças sociais, o novo trabalho concentra sua narrativa em experiências individuais.
“Eu escrevi as primeiras letras acreditando, ingenuamente, que poderíamos mudar o planeta, mudar nossos hábitos e nos livrar dos bilionários e das big techs. Por fim, o que se mostrou foi o contrário. Estamos completamente dominados”, diz.
Mesmo assim, Diego explica que a inquietação presente no primeiro álbum permanece, mas agora direcionada para questões mais íntimas.
“Sonora Fantasma te ama é um álbum muito mais intimista. Os temas principais são perdas, dores pessoais, lutos e finais de relacionamentos. A gente também trata muito do não pertencimento, de ser um exilado, às vezes um exilado de si mesmo. Há conflitos geracionais e um certo bucolismo ao cantar sobre o campo, o contato com a terra e a vida do ser humano com a natureza”, explica.
Influências e novas sonoridades
Na construção do novo álbum, Diego voltou a trabalhar ao lado do produtor Rafael Sartori. Enquanto o músico assina as composições, ambos dividem a produção artística do disco, que amplia a paleta sonora apresentada no trabalho anterior.
A proposta foi buscar referências dos grandes álbuns brasileiros da década de 1970, incorporando arranjos com coros, metais, cordas e instrumentos acústicos, sem abandonar elementos característicos do indie rock, como guitarras, sintetizadores e texturas eletrônicas.
Entre as influências citadas estão Raul Seixas, Erasmo Carlos, Sá, Rodrix e Guarabyra e o movimento Clube da Esquina. Ao mesmo tempo, permanecem presentes referências vindas do rock alternativo internacional.
“Eu brinco que o álbum é uma mistura de Flaming Lips com Clube da Esquina. É uma redução que não trata da verdade do disco, mas talvez possa instigar alguém a querer escutá-lo”, diz Diego.
O novo álbum contará com oito faixas. Entre elas estará uma nova versão de “Vida no Campo”, lançada originalmente como single em 2024. A gravação começa com viola caipira e evolui para sintetizadores, coro feminino, passagem industrial e um riff de violoncelo, evidenciando a diversidade de influências presentes no projeto.
Outra novidade será a releitura de “O Brilho das Pedras”, composição de Sá, Rodrix e Guarabyra. Na interpretação da Sonora Fantasma, a música recebe novos elementos rítmicos, incluindo uma batida inspirada no funk durante os versos, marcando a primeira versão gravada pela banda.
Com “Até Amanhã”, a Sonora Fantasma apresenta não apenas um novo single, mas também um retrato das transformações vividas por Diego da Costa nos últimos anos. A canção inaugura um disco que troca a observação do mundo exterior pela exploração de sentimentos pessoais, mantendo a identidade autoral da banda enquanto amplia seu universo musical.
Capa do single ‘Até Amanhã’, de Sonora Fantasma. (Divulgação)