CAPSULA ESTREIA COM “DOPAMINA” E CRITICA A MÚSICA DESCARTÁVEL

Novo projeto reúne integrantes do Skank, Penélope e da cena indie mineira em uma proposta voltada à criação musical sem pressa
Capsula lança “Dopamina” em crítica à música digital

Em uma indústria musical cada vez mais moldada por algoritmos, métricas instantâneas e conteúdos produzidos para durar poucos segundos nas redes sociais, o Capsula surge apostando em um caminho diferente. A banda, formada por Érika Martins, conhecida pelo trabalho à frente da Penélope, Fernando Americano, integrante do thesurfmotherfuckers e também da Penélope, além de Haroldo Ferretti e Lelo Zaneti, ambos ligados ao Skank, nasce defendendo um processo criativo mais humano e menos acelerado.

O grupo começou de maneira informal em Belo Horizonte, cidade conhecida pela forte conexão entre músicos de diferentes gerações e estilos. O projeto surgiu a partir de encontros casuais entre amigos, familiares, vizinhos e artistas que já frequentavam os mesmos ambientes há muitos anos, mas que raramente haviam trabalhado juntos dentro de um mesmo projeto musical. Em meio a esse circuito cultural mineiro, apareceu o convite que acabou dando origem à banda: “vamos fazer um som”.

A partir desse encontro, o quarteto iniciou um processo de criação marcado pela calma e pela convivência artística. Durante cerca de um ano, os músicos trabalharam silenciosamente no repertório, longe da urgência normalmente associada ao mercado atual. As gravações e experimentações aconteceram principalmente no Estúdio Bamboo, espaço montado na casa de Haroldo Ferretti, em Nova Lima, cercado pelas montanhas mineiras.

Foi nesse ambiente mais isolado e intimista que as músicas começaram a ganhar forma. O grupo trocava arquivos durante madrugadas inteiras, reconstruía arranjos, experimentava timbres diferentes e deixava as canções amadurecerem naturalmente. Em vez de seguir fórmulas prontas ou tendências de consumo rápido, o Capsula apostou em um processo mais artesanal, baseado em troca criativa e liberdade artística.

“Dopamina” transforma ansiedade digital em música

O primeiro resultado desse trabalho chega às plataformas digitais no dia 29 de maio, via OneRPM. A faixa “Dopamina” funciona como apresentação oficial da identidade do Capsula e resume boa parte da proposta artística defendida pelo grupo desde sua formação.

Misturando elementos de pop, indie rock, reggae, dub e pós-punk, a música aborda temas bastante presentes no cotidiano contemporâneo, como ansiedade digital, excesso de notificações, hiperconexão e desgaste emocional provocado pelas redes sociais. O próprio título faz referência ao neurotransmissor associado às recompensas rápidas geradas por curtidas, mensagens instantâneas e ciclos constantes de validação online.

Na construção musical, o single combina os grooves característicos de Haroldo Ferretti e Lelo Zaneti com as guitarras atmosféricas e texturizadas de Fernando Americano. Já Érika Martins conduz a faixa com uma interpretação intensa, melancólica e carregada de personalidade. O resultado é uma música que transita entre diferentes estilos sem abandonar a proposta orgânica e humana defendida pela banda.

As letras do Capsula também apontam para um olhar crítico sobre a forma como a vida contemporânea vem sendo consumida de maneira acelerada. Relações líquidas, cansaço emocional, excesso de estímulos e a necessidade constante de validação aparecem como temas centrais das composições do grupo.

Mesmo abordando questões diretamente ligadas à tecnologia e ao comportamento digital, a banda evita um discurso nostálgico ou puramente saudosista. O Capsula não tenta negar o presente, mas sim recuperar aspectos mais humanos dentro de uma indústria frequentemente guiada apenas por números e tendências passageiras.

Ao definir o projeto como uma espécie de “inteligência artesanal”, os integrantes deixam claro o posicionamento artístico da banda. Em vez de músicas feitas apenas para alimentar playlists ou viralizar rapidamente nas plataformas, o grupo aposta em canções construídas com tempo, convivência e identidade própria. Em um cenário dominado pela velocidade, o Capsula surge justamente valorizando o contrário: música feita para durar além do consumo imediato das timelines.

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