A cidade de São Paulo recebe, a partir do dia 9 de maio, a exposição coletiva “Todo Cuidado é Pouco”, que ocupa o espaço FoNTE com uma proposta que atravessa diferentes linguagens e gerações da arte contemporânea. Com curadoria de Tálisson Melo, pesquisador e professor na área, a mostra reúne mais de 25 obras assinadas por nove artistas: André Barion, Camila Leite, Clara Andrada, Fábio Menino, Juliana Cunha, Luís Teixeira, Manuela Costa Lima, Naomi Shida e Wiki Pirela.
A exposição se constrói em torno de uma ideia central que, ao mesmo tempo em que é cotidiana, também carrega tensões profundas: o conceito de cuidado. Partindo de uma perspectiva ambígua, o projeto propõe reflexões sobre como esse mesmo cuidado pode atuar tanto como proteção quanto como mecanismo de controle. A partir dessa dualidade, os trabalhos apresentados estabelecem diálogos que transitam entre o sensível, o corporal e o político, ampliando as possibilidades de leitura do público.
uma curadoria que conecta risco, corpo e percepção
A proposta curatorial de Tálisson Melo articula as obras em torno de uma linha conceitual que investiga o cuidado como um território instável. Em vez de apresentar uma visão única ou fechada, a exposição abre espaço para múltiplas interpretações, destacando como diferentes artistas lidam com esse tema a partir de suas próprias experiências e linguagens.
“Todo Cuidado é Pouco” se estrutura a partir do conceito ambíguo de cuidado, tão fundamental e precioso para a nossa espécie, mas que também pode mascarar manipulação e controle. Em nome do cuidado pode existir muito perigo. Essa afirmação guia a leitura da mostra, que se organiza como um campo de tensões entre proteção e ameaça, proximidade e distanciamento.
A diversidade de materiais, suportes e técnicas reforça essa proposta. Pinturas, esculturas, instalações e trabalhos têxteis coexistem no espaço, criando um ambiente onde o visitante é constantemente provocado a observar com atenção. A curadoria não apenas reúne obras, mas também constrói relações entre elas, incentivando conexões que atravessam o olhar e o corpo.
Ao evitar a ideia tradicional de coletivo — em que artistas compartilham processos ou produções conjuntas —, a exposição propõe outro entendimento: um grupo que reflete o espírito do tempo. Nesse sentido, os artistas reunidos não formam um coletivo no sentido clássico, mas uma espécie de retrato fragmentado da contemporaneidade.

do micro ao macro: experiências sensoriais e materiais
Um dos eixos mais marcantes da exposição está na forma como os trabalhos exploram escalas e dimensões distintas, levando o público de experiências microscópicas a paisagens amplas e quase cósmicas. Essa transição entre micro e macro aparece de forma evidente nas obras de Camila Leite e Luís Teixeira.
Nos trabalhos de Camila Leite, formas orgânicas evocam estruturas celulares e tecidos vivos, criando composições que remetem ao corpo em transformação constante. Já Luís Teixeira apresenta superfícies que lembram formações vulcânicas, sugerindo paisagens em colapso ou expansão. Juntos, esses trabalhos estabelecem um diálogo que amplia a percepção do espectador, conectando o interno ao externo, o íntimo ao universal.
Essa relação também reforça a ideia de que o corpo funciona como mediador da experiência. É através dele que o visitante percebe, interpreta e reage às obras. A exposição, portanto, não se limita ao campo visual, mas se estende ao sensorial, convidando a uma participação mais ativa.
Outro ponto de destaque está na presença de objetos e representações que remetem ao perigo e à fragilidade. Elementos como lâminas, anzóis e superfícies pontiagudas aparecem em diferentes trabalhos, reforçando a sensação de vulnerabilidade. Nas pinturas de Clara Andrada, por exemplo, a repetição de um canivete em ação cria uma narrativa visual que oscila entre o gesto cotidiano e a ameaça implícita.
Já Fábio Menino constrói composições com pregos enferrujados, criando estruturas que se aproximam de ideogramas fragmentados. Naomi Shida, por sua vez, incorpora elementos como escamas, cracas e lâminas em suas esculturas e bordados, ampliando essa discussão sobre o corpo exposto e suas fragilidades.
narrativas visuais e a pluralidade da arte contemporânea
A exposição também se destaca pela forma como aborda questões sociais e identitárias através de narrativas visuais complexas. As pinturas de Juliana Cunha, por exemplo, apresentam figuras femininas que se desdobram em ambientes caóticos, ocupando diferentes papéis e posições. Essas imagens refletem tensões ligadas a gênero, identidade e expectativas sociais, criando composições que transitam entre o figurativo e o simbólico.
O trabalho de André Barion explora a relação entre linguagem, corpo e ornamentação, criando peças que funcionam como portais visuais. Seus gestos e composições sugerem uma costura entre diferentes dimensões — o dentro e o fora, o visível e o oculto — ampliando a leitura das obras.
Manuela Costa Lima também contribui para essa construção ao trabalhar com materiais encontrados, como pedaços de camas descartadas. Ao reorganizar esses elementos no espaço expositivo, a artista cria uma instalação que exige atenção do público, reforçando a ideia de cuidado como prática ativa. Caminhar pela obra se torna uma experiência que exige consciência e presença.
Ao reunir artistas de diferentes trajetórias e linguagens, “Todo Cuidado é Pouco” amplia o panorama da arte contemporânea e reforça a diversidade de abordagens presentes na cena atual. A exposição não busca respostas definitivas, mas propõe perguntas, abrindo espaço para reflexões que se estendem além do espaço expositivo.
Serviço
Artistas: André Barion, Camila Leite, Clara Andrada, Fábio Menino, Juliana Cunha, Luís Teixeira, Manuela Costa Lima, Naomi Shida e Wiki Pirela
Curadoria e texto: Tálisson Melo
Exposição: “Todo Cuidado é Pouco”
Local: FoNTE – Rua Mourato Coelho, 751, São Paulo
Abertura: 9 de maio, das 14h às 19h
Visitação: de quinta a sábado, das 14h às 19h, até 28 de maio



