A redescoberta de obras fundamentais da música brasileira tem sido um movimento constante no mercado fonográfico, especialmente com o retorno do vinil como formato valorizado por colecionadores e novos ouvintes. Nesse contexto, um dos registros mais emblemáticos da carreira de Aracy de Almeida volta a ganhar destaque seis décadas após seu lançamento original. Trata-se do álbum “Samba é Aracy de Almeida”, lançado em 1966, agora relançado em LP pela Universal Music, mantendo a essência sonora da gravação original.
O disco surge novamente como documento de um período de transição na música popular brasileira. Enquanto a chamada MPB ganhava força nos festivais televisivos, Aracy ainda mantinha uma trajetória sólida, embora distante do auge comercial que vivera décadas antes. A reedição permite revisitar não apenas o repertório, mas também o contexto artístico de uma intérprete que ajudou a consolidar o samba como linguagem central da música nacional.
um retrato de aracy antes da persona televisiva
Em 1966, Aracy de Almeida ainda não havia incorporado completamente a figura pública que a tornaria popular para o grande público anos depois. A imagem da jurada rígida e direta, conhecida por suas participações no “Programa Silvio Santos”, surgiria apenas no fim da década. Naquele momento, a cantora ainda era reconhecida principalmente por sua trajetória musical, iniciada em 1934.
Nascida como Araci Telles de Almeida, em 1914, a artista construiu sua reputação como uma das mais fiéis intérpretes do repertório de Noel Rosa. Durante os anos 1930, seu nome foi frequentemente associado ao do compositor, sendo considerada uma das principais vozes a traduzir sua obra, ao lado de Marília Batista. Essa ligação consolidou Aracy como referência dentro do samba urbano carioca.
Mesmo sem viver o auge da carreira nos anos 1960, Aracy mantinha prestígio entre músicos, produtores e críticos. Sua autenticidade interpretativa e domínio do repertório tradicional garantiam relevância artística, ainda que o mercado estivesse voltado para novas tendências. O álbum de 1966 surge, portanto, como um registro de resistência estética, reafirmando sua identidade musical em meio às transformações da época.

produção de aloysio de oliveira e o selo elenco
A realização de “Samba é Aracy de Almeida” está diretamente ligada à atuação de Aloysio de Oliveira, figura central na produção musical brasileira dos anos 1960. Cantor, compositor e produtor, ele foi responsável por levar Aracy para o catálogo da gravadora Elenco, conhecida por seu cuidado estético e por reunir nomes importantes da bossa nova e da MPB.
Aloysio enxergava em Aracy uma intérprete essencial do samba, a ponto de considerá-la “o samba em pessoa”, expressão que já havia sido utilizada como título de um álbum anterior da artista, lançado em 1958. Sua decisão de produzir dois discos com a cantora em 1966 demonstra a confiança em sua relevância artística, mesmo em um cenário musical em transformação.
A nova edição em vinil transparente translúcido preserva o formato original do LP, resgatando não apenas o áudio, mas também a experiência estética do lançamento. Esse tipo de reedição tem sido valorizado por seu caráter histórico e pela qualidade sonora, aproximando novas gerações de registros clássicos da música brasileira.
repertório mistura inéditos e clássicos do samba
O repertório de “Samba é Aracy de Almeida” reúne dez faixas que transitam entre revisitações e novidades dentro da trajetória da cantora. Entre os destaques estão dois sambas de Assis Valente — “Cansado de sambar” e “Mangueira”, este último em parceria com Zequinha Reis — que aparecem no disco como interpretações inéditas na voz de Aracy, embora já tivessem sido lançados em 1935 pelo conjunto Bando da Lua.
Outra inclusão significativa é “Batucada surgiu” (1965), composição de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle. A música havia sido lançada no ano anterior por Wilson Simonal, refletindo a conexão do álbum com a produção contemporânea da época. A escolha desse repertório evidencia a tentativa de dialogar com o presente sem abandonar as raízes do samba tradicional.
O disco também revisita canções que a própria Aracy havia ajudado a consolidar, como “Três apitos”, de Noel Rosa, originalmente composta em 1933 e gravada pela cantora em 1951. Outras faixas como “Triste cuíca”, “Tenha pena de mim” e “Sabotagem no morro” reforçam essa relação com o repertório histórico do gênero.
Acompanhada por músicos de destaque, Aracy interpreta o repertório com arranjos elaborados por Roberto Menescal e Ugo Marotta. A formação instrumental inclui ainda Alpheo Barroso Neto na bateria, Sergio Barroso no contrabaixo, Marçal na percussão, Copinha na flauta e Laerte Gomes de Alcântara no sax alto e clarinete. O resultado é um equilíbrio entre sofisticação e fidelidade ao samba tradicional.
A reedição do álbum, seis décadas após seu lançamento, reafirma a importância de Aracy de Almeida como uma das vozes mais autênticas do samba. Mais do que um resgate nostálgico, o retorno do disco em vinil reforça o valor histórico de uma intérprete que atravessou diferentes fases da música brasileira mantendo sua identidade artística.