A nova produção do diretor Jeferson De, “Narciso”, chega aos cinemas propondo uma reflexão sobre identidade, pertencimento e racismo estrutural a partir da perspectiva de uma criança negra. Com Seu Jorge em um papel central e simbólico, o longa utiliza elementos fantásticos para explorar dilemas profundamente reais, conectando o público a uma história que dialoga diretamente com questões sociais contemporâneas no Brasil.
Inspirado livremente no mito grego que dá nome à obra, o filme subverte a narrativa clássica para apresentar um protagonista que, ao contrário do Narciso original, não se reconhece nem se aceita. A trama acompanha um menino órfão que rejeita sua própria aparência e encontra em um desejo mágico a possibilidade de viver uma realidade alternativa — ainda que ilusória e carregada de contradições.
Ao longo de sua duração, “Narciso” constrói um retrato sensível e crítico da infância negra, evitando estereótipos e propondo uma abordagem mais humana e introspectiva sobre temas historicamente tratados com superficialidade no audiovisual brasileiro.
uma releitura do mito para discutir identidade racial
Na mitologia grega, Narciso é conhecido por se apaixonar por sua própria imagem refletida na água, o que o leva à morte. No filme de Jeferson De, essa lógica é invertida. O protagonista, vivido por Arthur Ferreira, é um menino negro que não aceita sua própria aparência, refletindo uma realidade social marcada por padrões raciais excludentes.
Logo no início da narrativa, o garoto é devolvido por seus pais adotivos sem explicações, evidenciando um abandono que ultrapassa o plano afetivo e se conecta a questões estruturais. Ele passa a viver na casa de Carmem, interpretada por Ju Colombo, uma mulher que acolhe outras crianças em situação semelhante, formando uma espécie de núcleo familiar improvisado.
É nesse contexto que surge o elemento fantástico da história: um gênio, interpretado por Seu Jorge, concede ao menino a possibilidade de realizar um desejo. A escolha de Narciso é reveladora — ele quer ser visto como branco e fazer parte de uma família rica.
“O mito grego é o menino que se ama e admira a sua beleza. A realidade da criança negra brasileira é outra. É da rejeição e da negação de quem somos”, diz De, o diretor, por videochamada. “É um filme com vários pretos, em que ninguém morre, ninguém toma tiro ou esculacho.”
A partir desse desejo, o protagonista passa a viver em uma mansão com pais brancos e financeiramente privilegiados. No entanto, essa nova realidade é marcada por frieza emocional e restrições, criando um contraste entre aparência e pertencimento.

estética e narrativa reforçam o conflito do protagonista
Um dos recursos mais marcantes do longa é a mudança estética após o desejo de Narciso. A fotografia passa a ser em preto e branco, simbolizando a desconexão entre a realidade vivida e a identidade verdadeira do personagem. Essa escolha visual reforça a ideia de que o menino está inserido em uma dimensão artificial, construída a partir de uma negação de si mesmo.
Mesmo sendo percebido como branco por algumas pessoas, outros personagens negros continuam enxergando sua verdadeira cor, evidenciando que a transformação não é completa — nem possível. O feitiço, aliás, possui uma condição: ele se desfaz caso Narciso encare o próprio reflexo, criando uma metáfora direta sobre o enfrentamento da própria identidade.
O comportamento dos pais adotivos nessa nova realidade também contribui para o desenvolvimento do conflito. Apesar da riqueza, há uma ausência de afeto que contrasta com a simplicidade da casa de Carmem, sugerindo que pertencimento não se constrói apenas por aparência ou status social.
O filme, portanto, utiliza o fantástico como ferramenta narrativa para discutir questões concretas, evitando didatismos excessivos e apostando na construção simbólica.
representatividade e desafios no cinema brasileiro
“Narciso” chega em um momento relevante para o cinema nacional, marcado por maior visibilidade internacional e discussões sobre diversidade na produção audiovisual. Ainda assim, Jeferson De aponta que os avanços não eliminam as desigualdades estruturais dentro da indústria.
“Conseguimos contar nos dedos de uma mão quantos filmes de diretores negros conseguem ir para o shopping”, afirma o cineasta, ao comentar a dificuldade de inserção em circuitos comerciais mais amplos.
O diretor foi um dos criadores do “Dogma Feijoada”, manifesto lançado no início dos anos 2000 que estabelecia princípios para a construção de um cinema negro brasileiro mais autêntico e livre de estereótipos. Entre as diretrizes, estavam a valorização de protagonistas negros e a rejeição de narrativas que reforçassem papéis limitados, como o de criminosos ou vítimas constantes.
Seu Jorge também comenta a questão da representatividade e reforça a importância de obras como “Narciso” para ampliar o imaginário coletivo.
“Estamos nas telas, mas não na mesma intensidade, sem estar na condição de brutalizado. Quando estamos em um filme em que não damos ou levamos um tiro, estamos no caminho de um ‘Ainda Estou Aqui’, de certa forma”, diz o ator.
A fala aponta para um movimento gradual de mudança na forma como personagens negros são retratados, ainda que esse processo esteja longe de ser consolidado.
Dentro da narrativa, a personagem de Carmem se destaca como um dos elementos mais complexos do filme. Longe de idealizações, ela é apresentada como uma mulher sobrecarregada, que enfrenta os desafios de cuidar de jovens em situação de vulnerabilidade.
“O conflito nos humaniza. É um tormento para uma mulher preta criar meninos, porque ela sabe que eles podem não vingar, podem morrer a qualquer momento”, diz Colombo. “Essas camadas são trazidas com silêncio e expressividade.”
“Narciso” evita soluções fáceis e não oferece respostas definitivas, apostando em uma construção sensível que convida à reflexão. Ao abordar temas como identidade, pertencimento e desigualdade racial por meio de uma narrativa acessível e simbólica, o filme se posiciona como uma contribuição relevante para o cinema brasileiro contemporâneo.