Celebrando uma década de trajetória, o Festival Rock Cei tomou conta da Casa do Cantador, em Ceilândia, nos dias 4 e 5 de abril, reafirmando sua importância como um dos encontros mais pulsantes da cena alternativa do Distrito Federal. Com entrada gratuita, o evento reuniu público diverso, atmosfera festiva e uma programação que soube equilibrar nomes históricos, artistas em ascensão e expressões ligadas à cultura urbana, transformando o espaço em um verdadeiro ponto de convivência entre música, atitude e identidade coletiva.
No primeiro dia, o line-up trouxe Supla, Inocentes, The Monic com participação especial de Fernanda Lira, Black Jack, Drenna, Guizão, Arqvírus, Breena, P-40, Terno Elétrico e a discotecagem de DJ C.N.X. Já no segundo dia, o festival seguiu com Mystifier, Worst, Siegrid Ingrid, Alcoholic Vortex, Arvak, Death Slam, Mofo, Nume Consense, N.W.77, Summa e novamente a discotecagem de DJ C.N.X, compondo uma grade que atravessou o punk, o hardcore, o metal extremo e diferentes vertentes do rock independente. Essa variedade ajudou a dar ao Rock Cei um perfil amplo, sem perder sua raiz underground.
Além dos shows, o festival ofereceu ao público outros atrativos que reforçaram sua proposta de experiência cultural mais completa. Entre um palco e outro, circularam lojas de artigos rock n’ roll, com camisetas, acessórios, itens autorais e produtos voltados ao público que acompanha esse universo não apenas como gosto musical, mas como estilo de vida. Ao mesmo tempo, a mini pista de skate montada no evento ajudou a ampliar a conexão entre o rock e a cultura de rua, funcionando como ponto de encontro, disputa e entretenimento ao longo da programação.
Mais do que comemorar dez anos de existência, o Rock Cei mostrou, nesta edição, que continua sendo um espaço de resistência, circulação artística e fortalecimento da cena local. Em dois dias intensos, o festival reuniu diferentes gerações, sonoridades e linguagens em um mesmo território, reforçando o papel da Ceilândia como um dos polos mais autênticos da produção cultural do DF.
destaques do primeiro dia: energia, atitude e representatividade no palco
O primeiro dia do Rock Cei foi marcado por uma sequência de apresentações que equilibraram tradição e renovação dentro do rock nacional. Um dos grandes destaques foi a banda The Monic, que levou ao palco um repertório baseado em suas composições autorais, evidenciando a força do rock contemporâneo feito por mulheres. Com uma performance intensa e segura, o grupo conseguiu estabelecer uma conexão direta com o público, que respondeu com entusiasmo desde os primeiros acordes.
Um dos momentos mais comentados da noite foi a participação especial de Fernanda Lira, conhecida por seu trabalho como baixista e vocalista da Crypta. Durante sua entrada, o show ganhou uma camada simbólica ainda mais forte ao apresentar um setlist composto exclusivamente por músicas de bandas femininas. Clássicos como os de Alanis Morissette e outras referências do rock protagonizado por mulheres reforçaram a proposta de valorização da presença feminina na música pesada, criando um dos momentos mais marcantes do festival.
Mais ao final, os Inocentes entregaram uma apresentação sólida, reafirmando seu papel histórico dentro do punk rock brasileiro. Com um repertório que passeia por diferentes fases da banda, o grupo demonstrou consistência e relevância, mesmo após tantos anos de estrada. A resposta do público foi imediata, com rodas e interação constante na frente do palco.
Fechando os principais destaques da noite, o palco recebeu Supla, que trouxe sua já conhecida mistura de irreverência, punk rock e carisma. Com décadas de carreira, o artista mostrou domínio de palco e manteve o público engajado com sua performance energética. Seu show funcionou como uma ponte entre gerações, conectando fãs antigos e novos em uma mesma vibração.
O primeiro dia, portanto, se consolidou como um equilíbrio entre legado e renovação, com artistas que representam diferentes momentos da história do rock nacional dividindo o mesmo espaço e dialogando com uma plateia diversa.
segundo dia: peso, identidade e força do underground
O segundo dia do festival trouxe uma atmosfera mais voltada ao peso e às vertentes extremas do rock e do metal. Entre os destaques, a banda Siegrid Ingrid chamou atenção pela sua abordagem direta e energética, combinando elementos do punk e do hardcore com uma presença de palco intensa. O grupo conseguiu manter o ritmo elevado e conquistou rapidamente a atenção do público, que respondeu com entusiasmo às músicas executadas.
Outro grande destaque foi a apresentação da banda Mystifier, referência do metal extremo brasileiro. Com uma trajetória consolidada internacionalmente, o grupo levou ao palco uma performance carregada de identidade, explorando elementos característicos do black metal e criando uma atmosfera densa e obscura. A recepção do público foi marcada por respeito e admiração, evidenciando o peso histórico da banda dentro da cena.
Além desses nomes, o segundo dia também contou com outras atrações que reforçaram a diversidade do festival, incluindo bandas que transitam entre o hardcore, o metal e o rock alternativo. Essa pluralidade de estilos foi um dos pontos fortes do evento, permitindo que diferentes públicos encontrassem espaço dentro da programação.
A estrutura do festival contribuiu para que as apresentações fluíssem de forma organizada, garantindo que cada banda tivesse seu momento de destaque. O resultado foi um segundo dia consistente, que manteve o nível elevado e confirmou a proposta do Rock Cei de valorizar tanto nomes consagrados quanto artistas em ascensão.
performance de shabbana: arte, movimento e conexão cultural
Um dos momentos mais singulares do festival foi a apresentação da artista Shabbana, que levou ao público uma performance de dança afro fusion com espadas. Fugindo do formato tradicional de shows musicais, a apresentação trouxe uma proposta artística que dialoga com ancestralidade, expressão corporal e narrativa visual.
A performance chamou atenção não apenas pela técnica, mas também pela forma como ocupou o espaço do festival. Em meio a guitarras distorcidas e baterias intensas, a dança surgiu como um respiro criativo, ampliando o conceito do evento e mostrando que o rock pode coexistir com outras linguagens artísticas.
O uso das espadas adicionou um elemento visual impactante, criando uma coreografia que combinava precisão, ritmo e simbolismo. O público, inicialmente curioso, rapidamente se envolveu com a apresentação, acompanhando cada movimento com atenção e respeito.
Esse tipo de intervenção artística reforça o caráter plural do Rock Cei, que não se limita à música, mas busca incorporar diferentes formas de expressão dentro de sua programação. A presença de Shabbana no line-up demonstra uma preocupação em expandir horizontes e oferecer experiências que vão além do esperado em um festival de rock.
skate, cultura urbana e interação com o público
Outro destaque importante do evento foi a mini pista de skate montada dentro do espaço do festival. Mais do que um elemento decorativo, a estrutura funcionou como um ponto ativo de interação, reunindo skatistas e curiosos ao longo dos dois dias.
O campeonato organizado no local contou com duas categorias — masculina e feminina — e ofereceu premiação em dinheiro, incentivando a participação e valorizando os talentos locais. A iniciativa foi bem recebida pelo público, que acompanhou as manobras e vibrou com cada tentativa bem-sucedida.
A presença do skate no festival reforça a conexão histórica entre o rock e a cultura urbana. Ambos compartilham valores como liberdade, expressão individual e resistência, e essa integração foi claramente percebida durante o evento.
Além disso, a mini pista ajudou a diversificar as atividades disponíveis, criando um ambiente mais dinâmico e inclusivo. Enquanto alguns acompanhavam os shows, outros se reuniam ao redor do espaço de skate, formando diferentes núcleos de interação dentro do festival.
Esse tipo de iniciativa contribui para tornar o evento mais completo, oferecendo múltiplas formas de engajamento e ampliando seu alcance para além do público exclusivamente musical.
Rock Cei reforça sua importância na cena cultural do DF
Ao chegar à sua décima edição, o Rock Cei demonstra que é possível construir e manter um festival relevante fora dos grandes centros tradicionais da indústria cultural. Com uma proposta acessível, diversa e conectada com a realidade local, o evento se consolidou como um dos principais espaços de expressão do rock no Distrito Federal.
A combinação de um line-up consistente, atividades paralelas e uma estrutura funcional resultou em uma experiência que vai além do entretenimento, funcionando também como um espaço de encontro, troca e fortalecimento da cena independente.
Mais do que celebrar o passado, o festival aponta para o futuro, mostrando que há espaço para crescimento, inovação e continuidade. A presença de novas bandas ao lado de nomes consagrados indica uma renovação constante, essencial para a manutenção de qualquer movimento cultural.
Em um cenário onde muitos eventos enfrentam dificuldades para se manter, o Rock Cei surge como um exemplo de resistência e organização, reafirmando a importância da cultura independente e do acesso gratuito à arte.
Galeria de Fotos – 04/04
Galeria de Fotos – 05/04