FLEA LANÇA HONORA E SE APROFUNDA NO UNIVERSO DO JAZZ

Baixista do RED HOT CHILI PEPPERS apresenta seu primeiro álbum solo totalmente voltado ao jazz
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A relação de Flea com a música começou muito antes da fama global ao lado do Red Hot Chili Peppers. Ainda criança, ele teve um momento decisivo ao assistir o padrasto tocar com amigos em casa — uma experiência que, segundo ele, despertou algo profundo, envolvendo “alma, mente e corpo”. O trompete foi seu primeiro instrumento, e não demorou para que o jovem Michael tivesse contato com uma de suas maiores referências: o lendário Dizzy Gillespie, que chegou a abraçá-lo em um encontro marcante. Décadas depois, essa conexão inicial com o jazz finalmente ganha forma em um projeto completo.

Lançado em 27 de março de 2026 pela Nonesuch Records, Honora marca o primeiro álbum solo integralmente dedicado ao jazz na carreira de Flea. Apesar de já ter explorado trabalhos individuais anteriormente, como o EP Helen Burns (2012), este é o registro mais consistente e conceitual do músico fora de sua banda principal. O lançamento contou com eventos de audição em diversas cidades do mundo, incluindo São Paulo, e uma turnê internacional já está programada para passar pela América do Norte e Europa nos próximos meses.

um álbum que mistura história pessoal e identidade

O título Honora carrega um significado íntimo. Trata-se do nome da trisavó de Flea, uma jovem irlandesa que enfrentou dificuldades extremas durante a Grande Fome no século XIX antes de ser enviada à Austrália em um programa governamental. Essa trajetória familiar ajuda a compor a identidade multicultural do músico, nascido anos depois como Michael Peter Balzary.

A arte do disco também dialoga com essa proposta pessoal. A imagem de capa traz Shahin Badiyan, sogra do artista, fotografada no Irã no final dos anos 1960. Esses elementos visuais e conceituais refletem a intenção de Flea de criar um trabalho que funcione como um retrato de suas origens e influências.

Musicalmente, o álbum reúne artistas de diferentes partes do mundo, ampliando ainda mais essa diversidade. A faixa de abertura, um instrumental curto, já apresenta colaborações importantes, incluindo o baterista Chad Smith. O disco também conta com a participação de John Frusciante, que contribui com drum machine, trompete em “Frailed” e mixagem de “Willow Weep For Me”, composição clássica de 1932 escrita por Ann Ronell.

Capa de Honora traz Shahin Badiyan e reforça o caráter íntimo e multicultural do novo álbum de Flea. (Foto: Divulgação)

colaborações e revisitações que ampliam o alcance do disco

Além dos colegas mais próximos, Honora reúne músicos com quem Flea já trabalhou ao longo da carreira. Entre eles estão Chris Warren, Nathaniel Walcott e o percussionista brasileiro Mauro Refosco, parceiro também no projeto Atoms for Peace. Refosco participou anteriormente do álbum lançado em 2013 ao lado de Thom Yorke, que retorna aqui colaborando no single “Traffic Lights”.

Outro destaque é a participação de Nick Cave, que interpreta “Wichita Lineman”, canção originalmente gravada por Glen Campbell em 1968 e considerada uma das mais importantes da música popular segundo a revista Rolling Stone.

O repertório também inclui releituras que evidenciam as referências do baixista. Entre elas está “Maggot Brain”, faixa icônica do Funkadelic lançada em 1971, e “Thinkin’ Bout You”, música de Frank Ocean originalmente lançada em 2012. Nessas versões, Flea alterna entre baixo e trompete, explorando diferentes possibilidades sonoras dentro do jazz contemporâneo.

A produção ficou a cargo de Josh Johnson, que também contribui com saxofone, sintetizadores e piano. O álbum ainda conta com músicos como Jeff Parker, Anna Butterss, Deantoni Parks, Ricky Washington e Vikram Devasthali, reforçando o caráter coletivo do projeto.

um trabalho introspectivo que reflete maturidade artística

O primeiro single, “A Plea”, abre espaço para uma das poucas intervenções vocais do próprio Flea no disco. Após um trecho instrumental, ele aborda tensões sociais contemporâneas, afirmando: “Não quero ouvir sobre a sua política”. Em seguida, reforça uma mensagem mais ampla: “E tudo além de amor é covardia. Construa uma ponte, é onde a coragem está.”

Grande parte do álbum segue um caminho predominantemente instrumental, destacando linhas de baixo, sopros e arranjos que dialogam com o jazz clássico e moderno. Essa escolha reforça a proposta de um trabalho mais contemplativo, distante da energia explosiva que marcou sua carreira no rock.

O encerramento fica por conta de “Free As I Want To Be”, faixa que sintetiza as diferentes influências presentes no disco. Misturando elementos de funk e jazz, a música traz momentos característicos do estilo de Flea, como o uso do slap no baixo, mas dentro de uma abordagem mais livre e experimental.

Ao longo da divulgação do álbum, Flea também comentou sobre inseguranças pessoais em relação à música. Inspirado por Neil Young, ele afirmou ter aprendido a “abraçar suas falhas”. Essa ideia parece atravessar todo o projeto, que valoriza imperfeições e explorações sonoras como parte do processo criativo.

Mais de seis décadas após aquele primeiro contato com a música na infância, Flea apresenta em Honora um trabalho que revisita suas origens e amplia seus horizontes. O disco não apenas reforça sua versatilidade como músico, mas também evidencia uma busca contínua por novas formas de expressão — agora, profundamente enraizada no jazz.

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