A banda catarinense Controversy apresentou recentemente seu primeiro álbum completo, “Itá-Um”, acompanhado do lançamento de seu primeiro videoclipe oficial, produzido para a faixa “Dois”. O trabalho marca um momento significativo na trajetória do grupo, tanto pela consolidação sonora quanto pela narrativa que envolve a criação do disco e do vídeo.
Com influências que transitam entre o metal progressivo, groove metal e experimentações típicas do rock alternativo, “Itá-Um” nasce de um contexto real enfrentado pelos integrantes: enchentes recorrentes no bairro onde o estúdio da banda está localizado, em Joinville (SC). Esse cenário acabou se tornando o eixo temático e emocional do álbum, refletindo diretamente nas letras, na estética visual e na identidade conceitual do projeto.
Paralelamente, o lançamento do clipe de “Dois” amplia esse universo ao traduzir em imagens a intensidade da obra. Produzido de forma independente e colaborativa, o vídeo reforça o caráter autoral da banda e evidencia um processo criativo que atravessou anos até sua conclusão.
álbum nasce de experiências reais e se transforma em conceito artístico
“Itá-Um”, além de um conjunto de músicas, é um trabalho que parte de vivências concretas para construir uma narrativa simbólica. O título do álbum faz referência ao bairro onde a banda surgiu e também ao termo tupi-guarani que significa “pedra-preta”, uma imagem que sintetiza a ideia central do projeto: resistência diante de forças inevitáveis.
As enchentes que atingiram a região durante o período de desenvolvimento do álbum interromperam gravações e impactaram diretamente a rotina dos integrantes. Esse cenário adverso, no entanto, acabou sendo incorporado à proposta artística, transformando dificuldades em matéria-prima criativa.
A capa do disco reforça esse conceito ao apresentar um amigo da banda em meio a um alagamento, representando não apenas uma experiência individual, mas uma realidade compartilhada por muitas pessoas da comunidade. Essa escolha visual amplia o alcance simbólico do álbum, conectando o trabalho a uma dimensão social.
As letras percorrem diferentes estados emocionais, abordando sentimentos como raiva, inconformidade, angústia e revolta, mas também apontando para a resiliência como elemento central. Essa dualidade entre tensão e superação estrutura a narrativa do disco, que se apresenta como um retrato fragmentado das experiências dos integrantes.
Além da banda, o álbum conta com participações especiais, incluindo o artista internacional Yannick Jacquet, o que contribui para expandir a sonoridade e reforçar o caráter experimental do projeto.
clipe de “dois” mistura animação independente e estética underground
O videoclipe de “Dois” surge como uma extensão visual do universo proposto em “Itá-Um”. Com uma estética sombria e experimental, o trabalho foi dirigido e animado por Lelelzebu, nome artístico da artista Letícia Padilha, amiga da banda.
O projeto começou a ser desenvolvido em 2020, quando Letícia buscava aprofundar sua atuação profissional na área de animação. Inspirada por produções independentes relacionadas ao universo do rock e do metal, especialmente pela cultura de videoclipes criados por fãs, a diretora iniciou a construção dos primeiros personagens e conceitos visuais.
Entre as figuras centrais do clipe está o Monstroversy, uma entidade com aparência ameaçadora e um grande olho central, que atua como antagonista da narrativa. Outro personagem importante é Controbson, um humanoide que representa a dimensão mais vulnerável da história. Há ainda a presença de um terceiro elemento, um fantasma que simboliza a última vítima do Monstroversy, contribuindo para a conclusão da narrativa.
A linguagem visual do clipe é marcada por minimalismo e simbolismo, criando uma atmosfera inquietante que dialoga diretamente com a intensidade sonora da banda. O resultado é uma obra que não busca apenas ilustrar a música, mas expandir seu significado por meio de imagens.
produção atravessa pandemia e ganha forma anos depois
O processo de produção do clipe de “Dois” foi longo e marcado por interrupções. Inicialmente desenvolvido com base em técnicas simples de animação frame a frame, o projeto enfrentou desafios técnicos e limitações de recursos.
Durante a pandemia de COVID-19, o trabalho precisou ser interrompido. O computador utilizado por Letícia passou a ser compartilhado com sua mãe, professora da rede pública, que enfrentava uma carga intensa de trabalho com a adaptação ao ensino remoto. Ao mesmo tempo, mudanças internas na própria banda contribuíram para que o projeto fosse temporariamente abandonado.
Mesmo assim, os arquivos originais foram preservados ao longo dos anos. A retomada aconteceu apenas em 2025, quando, durante um encontro com os integrantes da Controversy, a diretora decidiu retomar e finalizar o projeto.
Nesse momento, novas contribuições surgiram de forma espontânea. Referências visuais foram incorporadas a partir de elementos reais, como o braço de um dos guitarristas utilizado como base para detalhes do Monstroversy, além da participação de colaboradores na criação de personagens.
A finalização do clipe também marcou um momento importante para a própria diretora, que descreve o processo como uma conquista pessoal após anos iniciando projetos sem concluí-los. O resultado final reflete não apenas a estética da banda, mas também um percurso de aprendizado, persistência e colaboração.
O lançamento de “Itá-Um” e do clipe de “Dois”, a Controversy apresenta um trabalho que combina experiência pessoal, construção coletiva e experimentação artística. Em um cenário onde produções independentes enfrentam limitações constantes, o projeto se insere como exemplo de como essas restrições podem ser transformadas em potência criativa.