O cenário da música alternativa ganhou um novo protagonista nos últimos anos. Surgido no Canadá em 2020, o duo Angine de Poitrine rapidamente deixou de ser uma curiosidade experimental para se tornar um dos projetos mais comentados da atualidade. A combinação entre ousadia sonora, identidade visual forte e presença digital estratégica colocou a dupla em evidência não apenas entre fãs, mas também entre músicos influentes da indústria.
Um dos exemplos mais emblemáticos desse reconhecimento veio de Mike Portnoy, baterista conhecido por seu trabalho com o Dream Theater, que demonstrou entusiasmo ao conhecer o som do grupo. Após assistir a uma apresentação no canal KEXP, o músico declarou estar “viciado” no trabalho da banda. O comentário ajudou a ampliar ainda mais o alcance do projeto, que já vinha chamando atenção por sua abordagem pouco convencional.
Mais do que uma mistura de estilos, o Angine de Poitrine construiu uma proposta estética e sonora que desafia padrões estabelecidos. Ao integrar elementos de Jazz, Rock Progressivo, Math Rock e referências globais, o duo cria uma linguagem própria, que se destaca principalmente pelo uso de microtons — uma escolha que redefine completamente a forma como suas músicas são estruturadas e percebidas.
um som que desafia padrões tradicionais
O principal diferencial do Angine de Poitrine está no uso da microtonalidade como base estrutural de suas composições. Diferente do sistema musical ocidental tradicional, que trabalha com intervalos fixos entre notas, a música microtonal explora divisões mais sutis dentro dessas escalas, criando sonoridades incomuns e, muitas vezes, desafiadoras para o ouvido não acostumado.
Esse aspecto chamou atenção imediata de músicos experientes. Mike Portnoy comentou sobre o impacto que a banda causou em sua percepção musical: “Eles despertaram totalmente meu interesse por música microtonal. Coisa maluca”. A fala resume bem o efeito que o duo costuma provocar: estranhamento inicial seguido por curiosidade e, em muitos casos, admiração.
Ao invés de tratar os microtons como um recurso pontual ou experimental, o Angine de Poitrine os utiliza como base central de sua criação. Isso significa que toda a estrutura das músicas — harmonias, melodias e dinâmicas — é construída a partir dessa lógica. O resultado é uma sonoridade marcada por tensão, dissonância e imprevisibilidade, mas que, ao mesmo tempo, mantém coerência interna.
Essa abordagem coloca o duo em uma posição singular dentro da música contemporânea. Em um cenário onde muitas bandas buscam inovação a partir da fusão de gêneros, o Angine de Poitrine vai além ao questionar os próprios fundamentos do sistema musical mais utilizado no mundo.

o instrumento que molda a identidade da banda
Grande parte dessa sonoridade única está diretamente ligada ao instrumento desenvolvido pela banda. No centro do projeto está uma guitarra de dois braços modificada manualmente para operar dentro de um sistema microtonal. O instrumento, que mistura características de guitarra e baixo, possui trastes adicionais esculpidos à mão, permitindo a execução de intervalos que não existem na escala tradicional.
A origem dessa criação é tão experimental quanto o próprio som do duo. Segundo o baterista Klek de Poitrine, a primeira versão do instrumento surgiu de forma improvisada. “Adicionei mais trastes com uma serra”, contou em entrevista à Guitar Player. O resultado inicial, segundo ele, parecia estranho até para os próprios músicos, mas acabou se tornando o ponto de partida para o desenvolvimento da identidade sonora da banda.
O guitarrista Khn foi responsável por expandir essa ideia, explorando as possibilidades dos microintervalos de forma mais aprofundada. Com o tempo, a técnica evoluiu e passou a sustentar toda a estrutura das composições do grupo. Em vez de apenas inserir elementos incomuns, o duo construiu uma linguagem completa a partir dessa abordagem.
Esse tipo de experimentação técnica reforça o caráter artesanal do projeto. Ao modificar fisicamente o instrumento para atender às suas necessidades criativas, o Angine de Poitrine demonstra um compromisso com a inovação que vai além do conceito e se materializa diretamente na execução musical.
estética visual e impacto nas redes
Além da proposta sonora, o Angine de Poitrine também se destaca pela construção de uma identidade visual marcante. A dupla sobe ao palco com figurinos de bolinhas em preto e branco e utiliza máscaras de papel machê, criando uma estética que mistura elementos performáticos, surrealistas e até teatrais.
Esse aspecto visual contribui significativamente para a experiência do público. Em um ambiente onde a imagem tem papel cada vez mais relevante, a banda conseguiu transformar sua aparência em uma extensão direta de sua proposta artística. O resultado é uma apresentação que não se limita ao som, mas envolve também uma dimensão estética consistente.
A performance no canal KEXP foi um dos principais pontos de virada na trajetória do grupo. O vídeo acumulou milhões de visualizações e se tornou uma porta de entrada para novos ouvintes. A repercussão foi imediata, alcançando tanto o público geral quanto profissionais da música.
O produtor e educador musical Rick Beato comentou sobre o impacto da banda, destacando a quantidade de mensagens que recebeu a respeito do duo: “Você assiste e pensa: como isso é possível?”. A curiosidade gerada pelo projeto também atraiu a atenção de outros músicos, como Cory Wong, ampliando ainda mais o alcance da dupla.
Com o lançamento do segundo álbum, “Vol. II”, previsto para 3 de abril, o Angine de Poitrine busca consolidar esse momento. A expectativa é que o novo trabalho amplie ainda mais o alcance da banda, mantendo a essência experimental enquanto dialoga com um público cada vez mais amplo.