A banda paulista Abissal lançou “Flashes”, single que dá nome ao seu novo EP e marca mais um capítulo na trajetória do quarteto de Jundiaí, no interior de São Paulo. Disponibilizada pela Casalago Records, a composição aborda a passagem do tempo e a maneira como determinadas experiências permanecem na memória, mesmo quando seus detalhes começam a desaparecer. Musicalmente, o lançamento combina guitarras atmosféricas, melodias contemplativas e elementos do rock alternativo, dando continuidade às experimentações que passaram a integrar o repertório recente do grupo.
Produzida por Gui Godoy, também diretor da Casalago Records, a faixa aprofunda uma proposta artística iniciada com “Ametista”, lançada em junho. Enquanto o EP anterior, Sutra, explorava espiritualidade e autoconhecimento, o novo material direciona sua atenção às lembranças e às transformações provocadas pelo tempo. Essa mudança temática aparece tanto nas letras quanto nos arranjos, que alternam momentos de maior intensidade com passagens delicadas. O resultado apresenta uma Abissal interessada em desenvolver novas possibilidades sonoras sem abandonar completamente suas raízes no rock.
Entre lembranças e guitarras
Em “Flashes”, a Abissal utiliza diferentes camadas instrumentais para representar a natureza fragmentada das lembranças. Guitarras com efeitos de ambiência, timbres analógicos e uma seção rítmica presente ajudam a construir uma sonoridade que transita entre o post-rock e o dream pop. A produção privilegia espaços e variações de intensidade, permitindo que os instrumentos acompanhem o caráter introspectivo da composição. A escolha também reforça o interesse do grupo por músicas que desenvolvem atmosferas gradualmente.
Segundo os integrantes, a proposta surgiu da observação de como acontecimentos importantes podem reaparecer na memória de maneira inesperada. “Flashes é uma música sobre o tempo, a memória e a percepção de como certos momentos passam como vislumbres rápidos pela nossa vida. Na produção, buscamos trazer camadas de guitarras e arranjos que traduzissem essa sensação etérea de olhar para trás e ver o que permanece”, explica a Abissal.
Entre as referências musicais apontadas para o lançamento estão o Radiohead do período de In Rainbows e o indie brasileiro contemporâneo representado por bandas como Terno Rei. Essas influências aparecem na valorização das texturas, no tratamento das guitarras e na relação entre voz e instrumentação. Em vez de apostar exclusivamente na força dos riffs, o quarteto trabalha com contrastes, repetições e pequenas mudanças de dinâmica ao longo da composição.
A faixa também funciona como uma síntese da proposta conceitual do EP. Se “Ametista” apresentava lembranças que retornam em fragmentos, “Flashes” concentra sua narrativa naquilo que permanece depois dessas recordações. O passado aparece como um conjunto de imagens incompletas, atravessadas por sentimentos e interpretações que mudam com o tempo. Essa abordagem aproxima o lançamento de experiências cotidianas, sem estabelecer uma interpretação única para o ouvinte.

Uma estética de profundidade
A identidade visual desenvolvida para o novo trabalho acompanha a temática das composições. As capas do EP e de seus singles foram produzidas a partir de ensaios fotográficos subaquáticos realizados pela própria banda. Nas imagens, os músicos aparecem submersos, criando uma associação com o nome Abissal e com as regiões profundas dos oceanos. A proposta também estabelece uma relação simbólica entre a água e a complexidade das emoções humanas.
Dentro desse conceito, o ambiente subaquático representa um espaço onde acontecimentos antigos podem ressurgir de maneira distorcida. Assim como objetos vistos através da água apresentam contornos diferentes, as lembranças também podem sofrer alterações conforme são revisitadas. A escolha estética procura traduzir visualmente essa percepção, aproximando as fotografias das sensações exploradas pelas letras e pelos arranjos do novo repertório da banda.
O projeto visual ainda contribui para estabelecer uma continuidade entre os lançamentos. Ao compartilhar elementos fotográficos e conceituais, os singles deixam de funcionar apenas como músicas independentes e passam a integrar uma narrativa mais ampla. Essa conexão ajuda a apresentar Flashes como um trabalho organizado em torno de uma ideia central, na qual som e imagem dialogam sem necessariamente oferecer explicações definitivas.
A relação entre profundidade e introspecção também encontra correspondência na construção musical do quarteto. Passagens instrumentais prolongadas, mudanças graduais de intensidade e melodias abertas criam espaços para diferentes interpretações. Embora essas características já estivessem presentes em trabalhos anteriores, o novo ciclo parece concentrá-las em torno de uma temática mais específica. Assim, a Abissal amplia sua linguagem artística enquanto mantém elementos reconhecíveis de sua trajetória.
A evolução sonora da Abissal
Formada por Murilo Ferragut, responsável pelos vocais e guitarra, Bruno Cavalcanti no baixo, Dan na guitarra e Uncas na bateria, a Abissal iniciou sua trajetória influenciada pelo rock alternativo e pelo grunge dos anos 1990. Com o desenvolvimento de seu repertório, o grupo incorporou elementos de indie, dream pop e post-rock, ampliando as possibilidades de composição e produção sem abandonar a presença das guitarras.
Essa transformação ganhou destaque em março, com o lançamento de Sutra, EP de cinco faixas distribuído pela Casalago Records. Reunindo “Sutra”, “Ouroboros”, “Meu Templo”, “O Caminho” e “Miracéu”, o trabalho abordou espiritualidade, traumas e autoconhecimento. A produção de Gui Godoy contribuiu para desenvolver arranjos que alternam momentos densos e contemplativos, estabelecendo uma base para as experimentações apresentadas posteriormente.
O lançamento de “Ametista”, em junho, marcou a transição para o universo conceitual de Flashes. A música desenvolve sua estrutura gradualmente, partindo de uma atmosfera contida até alcançar um encerramento instrumental mais intenso. Já “Floresta” apresenta outra perspectiva sobre a passagem do tempo, associando esse movimento à renovação. Sua abordagem mais rítmica e luminosa demonstra que o novo repertório também contempla diferentes possibilidades de andamento e dinâmica.
Com “Flashes”, a banda dá continuidade a esse percurso e reforça a ligação entre suas escolhas musicais e os assuntos abordados nas composições. O single apresenta uma formação interessada em explorar novas texturas e desenvolver uma identidade própria dentro do cenário independente brasileiro. A música está disponível nas plataformas digitais, permitindo acompanhar mais uma etapa da evolução artística do quarteto paulista.













