Mesmo após mais de seis décadas de carreira, os Rolling Stones continuam abertos a novas abordagens no estúdio. A prova disso veio pelas palavras de Keith Richards, que comentou recentemente sobre sua experiência trabalhando com o produtor Andrew Watt, nome por trás de “Hackney Diamonds” e também do próximo álbum da banda, “Foreign Tongues”, previsto para chegar ao público em 10 de julho.
Durante entrevista concedida ao jornal britânico The Guardian, o lendário guitarrista falou sobre a dinâmica de gravação com Watt, produtor que, apesar dos seus 35 anos, já construiu um currículo que inclui trabalhos com artistas de diferentes gerações e estilos. Richards destacou especialmente a postura direta do produtor e sua capacidade de conduzir sessões sem se deixar intimidar pelo peso histórico de uma das maiores bandas do rock.
A conversa também abriu espaço para reflexões sobre o atual momento criativo dos Rolling Stones, o processo de composição de Mick Jagger e até mesmo as preocupações de Keith em relação ao crescimento da inteligência artificial na indústria musical.
Um produtor sem receio
Ao longo da história dos Rolling Stones, diversos produtores ajudaram a moldar a sonoridade da banda em diferentes fases. De Jimmy Miller a Don Was, passando por Chris Kimsey, cada parceria trouxe características próprias para o grupo. Com Andrew Watt, entretanto, os Stones parecem ter encontrado uma combinação entre experiência técnica contemporânea e respeito pela identidade construída ao longo de mais de 60 anos.
Questionado pelo The Guardian se já havia recebido alguma bronca do produtor durante as gravações, Keith Richards respondeu de forma descontraída:
“Não. Mas talvez ele tenha dado uma bronca em alguém [da banda].”
A declaração, feita em tom bem-humorado, serviu como ponto de partida para uma avaliação bastante positiva do trabalho desenvolvido por Watt. Segundo Richards, o produtor possui uma abordagem objetiva e focada, sem espaço para distrações ou excessos.
“Ele entende do assunto musical e tecnicamente, e não tolera besteira. Ele simplesmente faz o que precisa ser feito. Achei muito fácil trabalhar com ele.”
A relação entre artistas veteranos e produtores mais jovens nem sempre é simples. No caso dos Rolling Stones, porém, a parceria parece funcionar justamente pela disposição de ambas as partes em buscar resultados sem que o histórico ou a reputação interfiram no processo criativo.
Andrew Watt construiu sua reputação produzindo trabalhos para artistas de diferentes gerações, incluindo Paul McCartney, Elton John, Ozzy Osbourne e Iggy Pop. Sua atuação recente também o consolidou como um dos produtores mais requisitados da indústria fonográfica atual.

A sequência de Hackney Diamonds
Lançado em 2023, “Hackney Diamonds” marcou o retorno dos Rolling Stones ao estúdio com um álbum de inéditas após quase duas décadas. O disco recebeu avaliações positivas da crítica especializada e ajudou a recolocar a banda no centro das discussões sobre rock contemporâneo.
Segundo Keith Richards, o bom momento criativo iniciado durante aquelas gravações acabou se prolongando naturalmente para o novo trabalho. O guitarrista atribui parte importante desse processo ao desempenho recente de Mick Jagger como compositor.
“O Mick tem estado muito prolífico ultimamente. O embalo de ‘Hackney Diamonds’ foi tanto que este trabalho basicamente continua na mesma direção.”
A declaração sugere que “Foreign Tongues” poderá funcionar como uma extensão natural da proposta apresentada no álbum anterior. Embora poucos detalhes oficiais sobre o novo trabalho tenham sido revelados até o momento, a expectativa é de que a banda mantenha o equilíbrio entre referências clássicas do rock e uma produção mais contemporânea.
A longevidade dos Rolling Stones sempre esteve associada à capacidade de adaptação. Desde a década de 1960, o grupo atravessou mudanças profundas na indústria musical, acompanhando transformações tecnológicas, comportamentais e mercadológicas sem abandonar completamente sua identidade artística.
O fato de Keith Richards destacar a produtividade de Mick Jagger também reforça a importância da parceria criativa que sustenta a banda desde sua fundação. Mesmo após décadas de carreira, ambos continuam desempenhando papéis centrais na construção do repertório do grupo.
Keith e a tecnologia
Além de comentar o trabalho em estúdio, Keith Richards também aproveitou a entrevista para voltar a abordar um tema que vem gerando debates em toda a indústria cultural: o avanço acelerado da inteligência artificial.
Ao longo dos últimos anos, ferramentas capazes de reproduzir vozes, criar composições e simular performances musicais passaram a ocupar espaço crescente no mercado do entretenimento. O desenvolvimento dessas tecnologias provocou reações diversas entre músicos, produtores e profissionais da área.
Richards demonstrou cautela diante desse cenário, afirmando que ainda existem muitas dúvidas sobre os impactos reais da inteligência artificial na criação artística.
“Eles não sabem o que diabos isso faz, então agora ficamos todos na expectativa.”
A declaração acompanha posicionamentos semelhantes adotados recentemente por diversos artistas veteranos. Muitos músicos reconhecem o potencial tecnológico dessas ferramentas, mas também expressam preocupações relacionadas a direitos autorais, autenticidade artística e preservação do trabalho humano.
Para Keith Richards, cuja trajetória foi construída em uma indústria baseada em performances, composição e interação humana, a velocidade das mudanças tecnológicas desperta naturalmente questionamentos. Sua observação reflete uma discussão que ultrapassa o universo do rock e já mobiliza setores inteiros da música, do cinema e da produção audiovisual.
Enquanto essas transformações continuam acontecendo, os Rolling Stones seguem demonstrando uma característica que acompanha a banda há mais de seis décadas: a capacidade de permanecer relevantes sem abandonar completamente seus princípios criativos. Com “Foreign Tongues” prestes a ser lançado, Keith Richards, Mick Jagger e companhia parecem determinados a provar, mais uma vez, que ainda têm novas histórias para contar.



